"Estamos sem trabalho e sem dinheiro", diz catador de recicláveis

05 Abril 2020

Catador Nilson José dos Santos

Arquivo Pessoal

Nilson José dos Santos tem 52 anos e desde os 12 anos de idade trabalha nos lixões do Rio de

Janeiro. Catador de material reciclável, Nilson se sente impotente diante do momento atual de isolamento social em função do novo coronavírus.

“Toda a cadeia de material reciclável parou, nossa situação é a mesma de tantos trabalhadores informais no Brasil: estamos sem trabalho e sem dinheiro”.

As cooperativas de catadores foram orientadas a parar as atividades, mas muitos ainda continuam. Mesmo assim, aqueles que estão trabalhando não tem para onde vender, as indústrias estão fechadas.

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“A situação é desesperadora para todos nós, estamos como o povo que percorreu o deserto por anos, só clamamos a Deus por um milagre”, diz.

Para enfrentar esse momento, a comunidade se uniu, como relata Nilson. “Nós somos pobres, acostumados com a guerra do dia a dia, e tudo o temos repartimos, se eu recebi uma cesta e tenho dez quilos de arroz, entrego metade para quem não tem.”

“Toda a ajuda é benvinda, sem dúvida, mas não quero ganhar cestas, eu quero é trabalhar, é muito triste olhar para essa situação e não poder fazer nada, me sinto inútil", desabafa.

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Júlio César dos Santos Costa, de São Paulo, também sente a situação no bolso. Ele recolhe embalagens de papelão em comércios para revender para a indústria. Mesmo utilizando carro próprio e tendo ajudantes, Júlio não sabe como vai organizar as contas nos próximos meses.

“Estou trabalhando três vezes por semana porque os mercados e mercearias ainda estão funcionando”, explica Júlio. “Recebo o suficiente para a alimentação, mas algumas contas vão ficar para trás.”

Além da dificuldade de revender o material, como poucas indústrias estão funcionando, o preço do material tem caído.

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Outra dificuldade enfrentada é o medo do contágio pelo coronavírus. “Usamos luva de borracha, lavo as mãos com frequência e uso álcool em gel, depois do trabalho, lavo as luvas com cloro.”

Catadores de material reciclável estão sem recursos

Catadores de material reciclável estão sem recursos

Visões da Terra/Divulgação

Como uma forma de ajudar esses trabalhadores, o governo federal aprovou um auxílio de R$ 600 para os informais durante esse período de quarentena.

Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas (PSDB) afirmou que 2.300 famílias de catadores de material reciclável receberão recursos mensais da prefeitura totalizando o montante de R$ 5,7 milhões.

Enquanto essas medidas não se concretizam, a solidariedade entra em cena. Luciana Lopes é geógrafa e atua há 20 anos no desenvolvimento de programas de reciclagem com a inclusão socioambiental dos catadores de materiais recicláveis. Ela já implantou sistemas de coleta seletiva em 16 municípios brasileiros.

À frente da consultoria Visões da Terra, ela organiza uma vaquinha virtual para arrecadar dinheiro para auxiliar ao menos 352 famílias de catadores de material reciclável.

Luciana e a distribuição da ajuda aos catadores

Luciana e a distribuição da ajuda aos catadores

Visões da Terra/Divulgação

“Percebemos que vai demorar para o poder público organizar e distribuir esses recursos, decidimos, então, garantir um valor mínimo para que essas pessoas possam viver”, diz Luciana.

Cada catador recebe R$ 100. “Optamos por distribuir dinheiro e não cesta básica, por exemplo, porque conhecemos bem as pessoas que vão receber e cada um compra aquilo que está precisando como um remédio ou leite.”

“Este é um momento que as pessoas precisam olhar para fora e ajudar quem está precisando.”

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