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"A inclusão não deve ser vista como uma missão divina", diz professora autista

15 Setembro 2020

O diagnóstico autista costuma ser tardio para o sexo feminino, sendo geralmente identificado em mulheres já adultas. Por conta disso, as mulheres dentro do espectro podem sofrer com laudos inconclusivos

de outras doenças, como ansiedade e depressão, não recebendo um tratamento adequado.

A professora Luciana Viegas, 27 anos, é uma dessas mulheres que descobriu ser autista tardiamente. Ela relata sofrer um capacitismo (preconceito com indivíduos que possuem alguma deficiência) que tenta a invalidar como professora e cidadã. Sendo uma mulher preta, ela também relata que o preconceito relacionado ao seu transtorno também acaba se vinculado ao machismo e racismo, que tentam a invalidar como mulher negra.

Luciana Viegas
Luciana Viegas relata preconceitos sofridos como mulher preta e autista

"Durante a minha vida fui diagnosticada com bipolaridade, ansiedade e depressão, mas nunca com autismo", conta. Luciana só foi descobrir que estava no espectro após seu filho ser identificado como autista em 2018. Desde então ela passa por avaliação neurológica com uma psicóloga e aguarda o laudo formal.

"Eu não conseguia sucesso com tratamentos nem medicações, pois nenhum médico dava atenção para as minhas reais características". A professora relata que sofreu muita violência médica por ser uma mulher preta. "Eu sempre era invalidada por ser mulher e ainda por cima negra, esses fatores tiravam um pouco a minha voz. Já chegaram a me falar que eu estava inventando sintomas e que não tinha nada daquilo. Acredito que o racismo estrutural também teve seu lugar para o meu diagnóstico tardio", avalia.

Outra coisa que Luciana aponta é sobre como tentam associar o fato dela ser inteligente e saber se comunicar bem ao autismo dela, dizendo que ela não se enquadra na condição. "As pessoas acham que autistas não são inteligentes e que isso não faz parte do meu transtorno. Mas eu sou tudo isso, graças ao autismo. Ele faz sim, parte de mim, e me sinto ofendida quando dizem o contrário".

Desafios como professora autista

Por ter tido um diagnóstico tardio do autismo, Luciana sofreu para conseguir alcançar alguns objetivos. Ela relata que na época de seu vestibular para Pedagogia teve muitas dificuldades em assimilar os textos e conteúdos das provas e nunca entendia o motivo daquilo. Isso acabou a impedindo de entrar em uma universidade pública. Um tempo depois ela seguiu com sua formação em uma privada. Contudo, os obstáculos estavam longe de acabar.

"Eu não sabia o que tinha ao certo, então tive muitos problemas na faculdade. Eu estudava em São Paulo e morava no interior, então tinha que pegar um trem até lá por duas horas. Dentro dele, com os barulhos, eu era estimulada o tempo todo. Então quando chegava na faculdade, eu estava em total sobrecarga, o que me fazia dormir na maioria das aulas", lembra.

Luciana Viegas
Luciana Viegas
Luciana Viegas

Mesmo sem entender porque possuía tanta dificuldade em focar durante a aula, Luciana conseguiu superar os problemas com estudo e dedicação. Entretanto novas dificuldades surgiram quando foi para o mercado de trabalho. "Por conta do meu transtorno, sou muito sincera e direta, algo que não era compreendido em reuniões. Também sentia que como mulher preta era taxada de 'enxerida' e com a minha voz silenciada", conta.

Como não sabia lidar com sua condição, sua produção na escola não era totalmente eficaz. "Com o tempo de 8 horas, eu só conseguia trabalhar bem umas 4, porque ainda não entendia meus limites. Usava meus horários de almoço para dormir, para tirar um pouco a sobrecarga", relata.

Hoje a situação mudou. "A partir do momento em que eu entendi o que eu sou, e o que eu tenho e me aceitei assim, tudo mudou. Agora eu sei dos meus limites, quanto tempo preciso descansar bem antes de dar aula, quando preciso dar uma aula mais 'silenciosa' por exemplo, que será benéfica para mim e também para os meus alunos".

Sobrecarga sofrida durante a pandemia

Durante a pandemia do novo coroanvírus (Sars-CoV-2), a sobrecarga sensorial de Luciana aumentou. Ela relata que muitas vezes perde a noção dos horários de trabalho e acaba trabalhando por umas 12 horas. No fim do mês, ela sempre sofre com um maior problema emocional. "É muito difícil assimiliar, para um autista perder a noção do tempo é muito fácil, então estou tendo dificuldades durante essa pandemia. Além disso, a falta de socialização, para uma autista que estava o tempo todo em um ambiente com gente, também faz diferença"

Filho autista

Luciana ainda lida com o fato de ser mãe de duas crianças: uma menina sem o transtorno, e um menininho autista, por quem ela acabou descobrindo sua condição. Contudo, em alguns momentos acaba sendo uma questão a mais relacionada à carga mental."O mais difícil é não conseguir estar ali sempre ajudando o meu filho. Meu marido dá muito suporte para ele e cuida na maior parte do tempo".

Luciana Viegas, marido e filhos
Luciana Viegas
Luciana Viegas, marido e filhos

Em razão de todos preconceitos que enfrenta por ser mulher, negra e autista, Luciana diz que teme pelos filhos. "Minha filha é mulher negra, então também pode sofrer disso. Meu menino, além de negro, é autista, o que triplica meu medo por ele".

Luciana mora em uma comunidade de São Paulo e tem medo de que o filho sofra uma abordagem policial e acabe maltratado por não conseguir se comunicar tão bem. "Eu treino ele desde já para futuras abordagens policiais, para deixá-lo preparado. Além disso, sempre trabalho o orgulho nos meus filhos, para que eles não deixem ninguém dizer sobre si o que não sabem", relata.

Mulher, preta, e autista

Luciana acredita que os preconceitos que sofre por ser autista, mulher e preta estão todos ligados. O tempo todo tentam a invalidar, tratá-la como se ela não fosse dona de si e não tivesse autonomia. "Sofro até com comentários de pessoas brancas autistas que não interseccionalizam a luta. Você não vê muitas pessoas pretas representadas como autistas, é só branco", afirma.

De acordo com a professora, a mídia contribui com o preconceito. "Muitas informações que as pessoas recebem a cerca de pessoas que são pretas e autistas são completamente estereotipadas pela mídia, e muitas vezes podem ter coisa errada. Falta debate e informação correta", diz.

Participação em movimentos contra o preconceito

Luciana conta que a ABRAÇA (Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas) teve um papel fundamental no seu entendimento do trantorno e autoaceitação. "Entendi de fato a luta anticapacitista e quis falar sobre, autistas adultos existem e ajudo a levar o movimento para outras pessoas", conta.

Além desse, Luciana também está trabalhando no projeto "Vidas Negras com Deficiência Importam", inspirado no movimento estadunidense "Black Lives Matter". "Tive essa ideia depois que fui para os Estados Unidos e conheci esse movimento. Conversei com os idealizadores e trouxe a ideia para o Brasil". O obejtivo é dar maior visibilidade a pessoas que atuam na luta antirracista e anticapacitista.

"Eu recebo muitas mensagens de gente que fala que eu inspiro elas. Meu objetivo é conseguir fazer com que mais pessoas tenham voz e se tornem exemplos também umas para as outras. Quero que meu filho tenha exemplo em qualquer ambiente que se interessar."

Luciana reforça a importância do apoio de pessoas não deficientes e não negras nas lutas. "É como se fosse o uso de Libras, as pessoas que precisam se comunicar dessa forma nunca terão êxito se não tiverem o apoio e interesse das pessoas que não se encaixam nesse padrão, aprendendo a Libras também. A gente fala de lugar de fala, mas mesmo que você não tenha o lugar de fala, você tem o poder da escuta, que também é muito poderoso", afirma.

Para ela, a inclusão não deve ser vista como uma 'missão divina', ela tem que ser normalizada para todos. "Não sou eu que não estou preparada para a sociedade, ela que não quer que eu me encaixe", finaliza.



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