A cultura do linchamento nos Estados Unidos

26 Março 2020
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Levar a lei às próprias mãos para punir alguém é um conceito e prática que antecedem os registros mais longínquos de nossa história. Quando vindo de grupos dominantes, o linchamento

ou linchagem por anos serviu para oprimir, controlar e punir um setor específico da sociedade. Quando acontecia entre a comunidade, a prática era cometida por uma multidão com o único objetivo de punir com a morte o suposto criminoso ou agressor. O processo tipicamente envolvia acusações criminais, quase sempre duvidosas, e baseadas em deduções do povo, uma prisão preventiva para a montagem de uma multidão de linchadores com a intenção de subverter o processo judicial constitucional e executar a lei com base no povo, pois este era soberano e deveria decidir pela sociedade.

Muito embora o linchamento seja encontrado em várias partes do mundo, os Estados Unidos foram os responsáveis por moldar o ato como o conhecemos hoje em dia. Durante o período de 1877, o início da era da Reconstrução dos Estados Unidos pós-guerra civil, até meados de 1950, a linchagem se tornou um método de controle social e, principalmente, racial, visando aterrorizar os americanos afrodescendentes. Tudo teria se intensificado a partir do momento em que cidades negras surgiram no Sul do país e esses afro-americanos começaram a fazer incursões econômicas, estabelecer negócios e a reivindicar os seus direitos políticos se registrando para votar e concorrendo a cargos públicos.

Muitos brancos, tanto os ricos quantos os pobres, se sentiram ameaçados por esse aumento vertiginoso do posicionamento do negro na sociedade, pois o principal medo deles era o sexo entre as raças que resultaria na perda do purismo que tanto prezavam. Sendo assim, a cena de uma turba de pessoas brancas enfurecidas amarrando homens negros a árvores por supostos crimes era só metade da história, uma vez que o objetivo principal do ato era manter a supremacia branca em posse das esferas econômicas, sociais e políticas.

A corda do ódio

Linchamentos eram motivo de celebração

Os estupros de mulheres aconteciam desde antes do período Colonial e a sociedade que se seguiu ao longo disso jamais enxergou essa violência como deveria ser. Entre o século XIX e XX, isso ganhou um forte aspecto de hipocrisia por parte da sociedade branca, que costumava acusar os homens negros de violar as mulheres para poder mobilizar multidões para linchá-los. Segundo dados da Equal Justice Initiative, quase 25% das vítimas eram acusadas de abuso sexual. Crimes de roubos representavam 30% e também eram uma desculpa comum, visto que qualquer alarde com gritaria de algum vendedor era o suficiente para que várias mãos surgissem para conter o dito ladrão.

De 1882 a 1968, 4.743 linchamentos oficiais ocorreram em solo norte-americano. Desse número, 3.446 eram pessoas negras. Os negros linchados representavam uma parcela de 72,7% na maioria dos casos, porém os historiadores acreditam que esse número seja bem maior, pois nem todos os casos foram documentados. Dessa porcentagem, 1.297 pessoas brancas foram linchadas simplesmente pelo “crime” de ajudar os negros ou por serem contra as práticas de linchamento em geral.

Havia também outros motivos que provocavam os linchamentos, sendo esses jogar, brigar, discutir com um homem branco, tentar votar, fazer comentários indisciplinados, exigir respeito, “agir com desconfiança” e andar em dois ou mais pessoas pelas ruas ao cair da noite. Não era nenhum exagero dizer que homem, mulher ou criança negra que vivessem na região do sul dos Estados Unidos durante essa época corria o risco de ser linchado por qualquer comportamento visto como de fato impróprio ou imaginado pelos olhos brancos da população.

O cartão-postal da dor

Cartão-postal do linchamento de Jesse WashingtonCartão-postal do linchamento de Jesse Washington

O linchamento fazia parte de um grau tão torpe e dantesco da mente dos americanos brancos que esses não viam a prática sequer como uma espécie mal necessário para manter a ordem dentro de suas mentes preconceituosas, mas como um espetáculo e um momento de alegria e celebração saudável. Linchar era uma conquista, por isso era divulgado até nos jornais da época com manchetes extravagantes e exageradas contando detalhes do crime e indicando o horário e data onde a “justiça” seria feita.

Mães e pais carregando os seus filhos pelas mãos se aglutinavam em meio a multidão ao redor de um palanque sob uma árvore para assistir o verdadeiro show que a morte dos negros era para eles. As famílias cantavam, faziam danças, batiam fotos e lançavam imprecações enquanto a vítima era "cozinhada" por eles, que bebiam às custas da iminente morte do outro.

Foi por meio dessa repetição praticamente diária que a tortura e o assassinato desses suspeitos adquiriram uma estrutura sólida de um verdadeiro ritual. O linchamento servia como cola para unir a comunidade branca e reafirmar o seu poder e participação ativa em meio a raça dominante, assim como acontecia nos rituais religiosos.

Como parte de todo o ritual, os participantes entalhavam na carne das vítimas os motivos de sua insubordinação ao domínio dos brancos para que os seus cadáveres, primeiro, simbolizassem a diferença racial, e depois fossem um motivo de aviso para que os outros soubessem o seu lugar. Assim que a vítima era enforcada, o seu corpo ficava em exibição em local público como uma maneira de mandar uma mensagem para a comunidade em geral, o que violava deliberadamente os costumes culturais da sociedade que visavam honrar os mortos, demonstrando o desprezo dos supremacistas brancos pelas vítimas negras.

Depois disso, o cadáver era incendiado em mais um festival público. O desmembramento era a consequência final para que as partes fossem distribuídas para os espectadores que disputavam a posse dos membros, principalmente as genitálias, para guardar como uma espécie de troféu. As crianças se divertiam com a cena horrenda e o presente final conquistado com orgulho pelos os seus pais.

Além da natureza completamente doentia do ritual, se tornou comum os brancos fazerem negócio desses considerados “eventos”. Eles documentavam em imagens todos os acontecimentos para a confecção e comercialização de cartões-postais para que os participantes enviassem para os familiares ao redor do país. Frases como “Gostaria que estivesse aqui”, “Essa foi para você” e “Venha na próxima, celebraremos juntos” eram comuns como legenda de fotos de homens negros pendurados com os brancos brindando e sorrindo abaixo, numa representação bizarra de conquista parecida com as exibidas por pescadores.

O caso Nelson

A notícia sobre a família NelsonA notícia sobre a família Nelson

No dia 2 de maio de 1911, no norte de Okemah, em Oklahoma, o xerife George Loney recebeu uma denúncia de roubo de uma vaca de uma fazenda próxima que o levou até a propriedade da família Nelson. Os donos do animal acusavam o garoto afro-americano de 15 anos de idade chamado Lawrence Nelson.

Quando George Loney chegou à residência Nelson após apurar os fatos, ele descobriu que a vaca já tinha sido abatida pelo pai da família, Austin Nelson. O homem confessou que na verdade foi ele quem roubou o animal, pois não tinha nada para dar de comer a esposa e aos filhos.

Durante uma revista repleta de tensão pela casa, o xerife teria encontrado um mosquete pendurado na parede. No momento em que Loney exigiu que a arma fosse entregue a ele, Lawrence Nelson teria se apavorado achando que o homem iria atirar em seu pai ali mesmo pelo crime que ele tinha cometido. O garoto então pegou outra arma com o intuito de afugentar o xerife através do medo. Laura Nelson, a mãe, correu desesperada para tentar impedir, o que gerou uma movimentação inesperada que assustou o menino. A arma disparou e atingiu o xerife George Loney na perna, que recusou ser tocado por qualquer um deles e se esvaiu em sangue até a morte.

Toda a família foi presa. Austin Nelson foi acusado pelo roubo da vaca e o seu abatimento. Pensando em salvar a família de qualquer punição, o pai se declarou culpado e foi condenado a 3 anos de encarceramento. Contudo, Lawrence e Laura Nelson foram acusados pelo assassinato do xerife Loney. Foi negado a eles a fiança e os dois seguiram direto para a prisão até o julgamento oficial.

Euforia a cima, silêncio a baixo

Laura e Lawrence Nelson enforcadosLaura e Lawrence Nelson enforcados

Com a notícia tendo se espalhado pela cidade inteira, na madrugada do dia 24 de maio de 1911, um grupo de 40 homens brancos decidiu tomar medidas preventivas da única maneira o possível: matando. Eles invadiram a prisão local onde a família estava presa. Eles surraram a ponto de cegar o carcereiro para que o guarda não pudesse reconhecer nenhum dos invasores depois.

Laura Nelson, que obteve permissão para cuidar de sua filha Carrie, de 2 anos de idade, foi estuprada por todos os homens em frente a criança, enquanto Lawrence simplesmente foi apedrejado em sua cela. Depois de muito serem esmurrados e chutados, os três foram carregados até a famosa ponte de aço sobre o Rio Norte Canadense, a 9km do local.

A mulher teve tempo de deixar Carrie na extremidade esquerda da ponte antes de ser arrastada com o filho para o outro lado. Um laço foi amarrado ao redor do pescoço de Laura e Lawrence e eles foram jogados da ponte sob uivos de celebração.

Antes das 11h da manhã, uma multidão de pessoas posou para o fotógrafo George Henry Farnum e um cartão-postal grotesco da cena de assassinato foi feito na época, representando de modo emblemático, cruel e eterno o que foi uma das eras mais sombrias da história dos Estados Unidos.

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