Zoot Suits Riots: a revolução racista de Los Angeles

30 Junho 2020
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De acordo com uma pesquisa conduzida pela New York Civil Liberties em 2018, cerca de 88% das pessoas paradas por policiais nos Estados Unidos são negras e latinas, 70% sem envolvimento

com algo ilegal, em contraste com os 10% de brancos abordados. Em adição a isso, 15,8% dos cidadãos relataram terem sofrido bullying ou assédio racial com base na cor da pele e nas roupas que vestiam.

Mesmo após 150 anos da 13ª Emenda ter abolido a escravidão no país, em média 3 mil pessoas são mortas ou espancadas todos os anos por conta de crimes de ódio contra grupos étnicos. A virada do século XX marcou um período de transformação de uma sociedade predominantemente branca (cerca de 87%) com a presença de latinos e afro-americanos que viviam no sul rural dos Estados Unidos.

Em 1943, com os grupos étnicos ganhando mais espaço e exercendo influência, uma série de confrontos violentos envolvendo os zoot suits declarou o quanto os norte-americanos eram preconceituosos e opressores.

Um movimento de liberdade

(Fonte: Messy Nessy Chic/Reprodução)

Tudo teve início na década de 1930, no apogeu do estresse econômico causado pela Grande Depressão, quando os homens negros e latinos do Harlem (Manhattan, EUA) saíam à noite para aproveitar os salões de dança e aliviar a tensão. Para que tivessem mais liberdade em seus movimentos, eles inventaram um estilo que consistia em calças largas de cintura alta, camisa justa e um terno folgado, com lapela alta e ombreiras, o que ficou conhecido como terno zoot e deu nome ao movimento. O visual acompanhava correntes reluzentes, relógio e chapéus de abas largas.

Os trajes zoot eram vistos como um símbolo de orgulho cultural, principalmente em um período de forte tensão racial e segregação, em que a sociedade queria empurrar os negros e latinos "para o buraco de onde vieram". Assim que o estilo se popularizou entre os jovens pobres minoritários, uma reputação racista cresceu. Os brancos viam os negros e os latinos que vestiam aquelas roupas como delinquentes e membros de gangues rebeldes.

Em 1940, com o bombardeio a Pearl Harbor, seguido pela entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, o país restringiu a produção de vestuários de lã, seda e outros tecidos essenciais. Mesmo assim, alfaiates de Los Angeles, Nova York e outras cidades continuaram a confeccionar os ternos zoot, que exigiam quantidades excessivas de tecido; logo, militares, soldados, fuzileiros e marinheiros começaram a espancar até a morte os jovens que usavam aquela extravagância, pois consideravam um desperdício mal intencionado dos recursos.

A mídia racista e falsa moralista da época fez os brancos se revoltarem contra as minorias e alimentou o desejo de vingança e abate, deixando claro que a roupa era apenas um pretexto.

Distintivo de delinquência

(Fonte: Messy Nessy Chic/Reprodução)
(Fonte: Messy Nessy Chic/Reprodução)

O clima de tensão cresceu no verão de 1943 entre os zoots e os marinheiros em Los Angeles, pois estes enxergavam os jovens latino-americanos como trapaceiros e antipatriotas que se recusaram a servir na Segunda Guerra Mundial, embora muitos não tivessem idade suficiente para isso. Em 3 de junho daquele ano, cerca de 50 integrantes da Reserva Naval dos EUA marcharam pelo centro da cidade carregando tacos e atacando qualquer um que vestisse um terno zoot.

Multidões de militares foram às ruas e agrediram latinos e negros, espancando-os e obrigando a se despirem para que colocassem fogo nas roupas. A polícia apenas assistiu ao assédio racial e prendeu as vítimas nuas em vez dos agressores. Integrantes das Forças Armadas que estavam de folga invadiram cafés, danceterias e cinemas para espancar e arrancar as roupas das pessoas. Mesmo quem não estava usando o traje, mas fazia parte de alguma minoria, sofreu consequências.

Com a reação das vítimas, os tumultos se espalharam em 7 de junho para além do centro de Los Angeles. Enquanto taxistas e motoristas de transporte público davam carona para os agressores, as vítimas ensanguentadas eram deixadas para morrer nas calçadas. Negros e filipinos eram arrancados de seus carros e espancados com pedaços de madeira em um frenesi sádico.

Líderes da comunidade mexicano-americana chegaram a implorar às autoridade estaduais por uma intervenção; até o Conselho para a Juventude Latino-Americana entrou em contato, porém não obteve resposta.

(Fonte: History/Reprodução)
(Fonte: History/Reprodução)

O silêncio do governo e o furor racista da mídia endossavam as atitudes criminosas de milhares de militarizados. Em conluio, os jornais Herald e Express publicaram falsas histórias de que um grupo de 500 zooters planejava matar centenas de policiais durante os confrontos. A população branca aplaudiu o levante dos brancos.

A mídia ainda definiu os ataques como uma resposta direta a uma onda inexistente de crimes cometidos por imigrantes e negros. Alguns jornais imprimiram manuais com descrições de ódio explícito e um passo a passo de como despir uma pessoa de seus trajes zoot, urinar neles e queimar os "distintivos de delinquência" em praça pública, como definiu o Los Angeles Times.

O ódio estrutural

(Fonte: Calisphere/Reprodução)
(Fonte: Calisphere/Reprodução)

Os ataques cessaram somente após 10 dias, quando os militares foram impedidos de deixar o quartel. Ironicamente, o Conselho da Cidade de Los Angeles proibiu o uso dos trajes zoot. Cerca de 600 cidadãos negros e latinos foram presos por conta da manifestação (34 foram mortos), em comparação com 55 brancos confinados.

O então governador da Califórnia, Earl Warren, criou um comitê para determinar a origem do incidente. O relatório expedido deixou claro que a causa do problema foi o preconceito racial estruturado, afirmando que as pessoas que usavam os trajes não eram criminosas ou delinquentes.

O prefeito de Los Angeles, no entanto, preocupado com o impacto negativo na imagem da cidade, declarou que o preconceito não tinha sido um fator e que os distúrbios foram inflamados por delinquentes juvenis de "qualquer raça".

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