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Kairo: Ser negro no Brasil

18 Dezembro 2019

kairo artigo #

Ser negro no Brasil

Por Kairo Ferreira de Araújo, estudante

Quadro de Jean Baptiste Debret (no blogpaginacinco-uol)

Apesar de ter umas das maiores populações negras do mundo, precisamente a segunda, só ficando atrás de um país africano, no caso a Nigéria. O Brasil tratou e trata a essa parte da população, de maneira que os direitos basilares de muitos não são atendidos. A escravidão da população negra só deixou de existir há 131 anos no país, no ano de 1888, na data de 13 de maio, a princesa Isabel assina a lei que ficou conhecida
como Lei Áurea.

Sabe-se que apesar da liberdade, não foi outorgado nenhum direito, treinamento e preparo para essa população alforriada, segundo a historiadora Emília Viotti [1] 1  :

“Um escravo que tinha saudades da escravidão não deve ser entendido como um comentário a favor da escravidão. Ele é de fato um testemunho eloquente das condições de vida em que se encontraram muitos ex-escravos, para os quais a abolição representava apenas o direito de ser livre para escolher entre a miséria e a opressão em que viveu (e ainda vive) grande numero de trabalhadores brasileiros”.

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Neste relato, onde a autora trouxe à tona as memórias do político Gregório Bezerra, que quando criança
conheceu, um ex-cativo, que lhe contou que antes, quando era escravo: “pelo menos comia carne, farinha e feijão à vontade e agora mal comia um prato de xerém com água e sal.”, essa foi a dura realidade da população negra a época, total abandono por parte do Estado e tendo que enfrentar condições de vida sub-humanas.

Alguns podem imaginar que isso é questão do passado, que o racismo entre nós já foi superado, e que a desigualdade não tem cor. Ledo engano, sob critérios da “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua”, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população brasileira que se declara negra ou parda é de 56,1%. Que apesar de constituir uma maioria populacional, ainda é minoria em questões de representatividade política, é só observar empiricamente (na prática), com um simples teste, basta pedir a um amigo que cite cinco políticos brancos do país, ele provavelmente não terá dificuldades em responder, já se o pedido for para citar cinco políticos negros, a dificuldade de resposta será imensa.

Infelizmente, quando o assunto é a mortalidade, os negros constituem a maioria. Segundo a Antropóloga brasileira Lilia Schwarcz [2] 2  :

“Se, no ano de 2010, a taxa de homicídios foi da ordem de 28,3 a cada 100 mil jovens brancos, a de jovens
negros chegou a 71,7 a cada 100 mil, sendo que em alguns estados a taxa ultrapassa cem por 100 mil jovens negros. Por sinal, segundo a Anistia Internacional, um jovem negro no Brasil tem, em média, 2,5 vezes mais chances de morrer do que um jovem branco.

Na região Nordeste __ onde as taxas de homicídios são as mais altas do país __ essa diferença é ainda maior: jovens negros correm cinco vezes mais risco de vida”.

Os dados acima demonstram a relação absolutamente desigual que ainda vigora no país na questão racial, apesar de alguns avanços. Ainda somos marcados pela profunda desigualdade que tem como signo a cor da pele, nascer negro no Brasil significa ter uma maior probabilidade de ser morto, assim como a de ser encarcerado (preso). Como demonstra o sistema de informações estatísticas do sistema penitenciário
brasileiro (Infopen) no gráfico abaixo:


grafico


Claro, não podemos tomar esses dados sem analisarmos a porcentagem de grupo cor/raça, segundo o relatório Mapa do Encarceramento – Jovens do Brasil (Ano 2014): “Em 2012, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos acima de 18 anos havia 191 brancos encarcerados, enquanto para cada grupo de 100 mil habitantes negros acima de 18 anos havia 292 negros encarcerados, ou seja, proporcionalmente o encarceramento de negros foi 1,5 vez maior do que o de brancos em 2012 ”.

Todos esses dados demonstram a seriedade com que esse tema deve ser abordado no país. A possibilidade de ter Sérgio Camargo na presidência da Fundação Palmares é ultrajante em um país com o nosso histórico, o cidadão que destilou profundo desconhecimento da história brasileira, fez comentários absolutamente infelizes em suas redes sociais e por muitos considerados racistas, não merece ocupar o cargo máximo em uma instituição tão vital e que toca em um tema absolutamente importante para a sociedade brasileira em geral, não só para a população negra.

Pois vivemos em uma sociedade, que se tiver uma parte dela negligenciada, toda ela sentirá os efeitos nefastos dessas políticas, nesse caso, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) acertou em negar o recurso da Advocacia-Geral da União (AGU) e manter suspensa a nomeação desse sujeito.

 [1] COSTA, Emília V. (2010) A abolição. São Paulo: UNESP.
 [2] SCHWARCZ, Lilia.M.(2019) Sobre o Autoritarismo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras.


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