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Anna Karoline 3: naufrágio no AP completa um mês e três suspeitos podem ser responsabilizados

29 Março 2020

Polícia sabe que navio afundou com excesso de carga. Ao todo, 34 pessoas morreram e 51 passageiros e tripulantes foram resgatados com vida. Ainda há desaparecidos. Área do naufrágio
da embarcação Anna Karoline 3, no Rio Amazonas, entre o Amapá e o Pará; tragédia completa um mês neste domingo (29) Maksuel Martins/Secom Um mês, 34 mortes, 51 passageiros e tripulantes resgatados e pessoas ainda desaparecidas. O naufrágio do navio Anna Karoline 3, no Sul do Amapá, que completa um mês neste domingo (29), ainda é cercado de incertezas quanto à responsabilidade pela tragédia, que destruiu famílias, planos e sonhos. A Polícia Civil não concluiu o inquérito criminal sobre a tragédia, mas já sabe que uma das causas foi excesso de carga transportada no navio. Além disso, há algumas perguntas que precisam ser respondidas. Para isso, uma equipe de 10 policiais, entre agentes e delegados, se debruçam em buscar outras provas diante da teoria de sobrecarga da embarcação. Eles acompanham, ao longo da semana, a operação de reflutuação do navio, realizada por uma empresa contratada emergencialmente pelo governo, pelo valor de R$ 2,4 milhões. Até o sábado (28), o navio não havia sido movido do local onde naufragou. Foto antiga mostra como era o Navio Anna Karoline 3 Reprodução/Redes sociais Após a reflutuação do Anna Karoline 3, o laudo pericial feito pela Polícia Técnico-Científica (Politec) será juntado ao inquérito. A investigação é comandada pelo delegado Victor Crispim, titular da 1ª Delegacia de Polícia (DP) de Santana. Ele definiu a investigação desse naufrágio como um caso complexo. "A investigação já progrediu bastante, apesar de ser um caso complexo. Conseguimos fazer prova em relação a toda a questão de sobrecarga da embarcação. Dentro do inquérito policial existem depoimentos muito importantes. O inquérito, portanto, está bastante encaminhado para o indiciamento tanto do comandante quanto de dois militares da Marinha", falou. O inquérito pode ser concluído entre 30 e 60 dias. Dia do naufrágio Imagens do resgate no Amapá após naufrágio em rio Reprodução/Globo O Anna Karoline 3 saiu por volta das 18h da sexta-feira, dia 28 de fevereiro, de Santana, no Amapá, em direção a Santarém, no noroeste do Pará. A viagem entre as duas cidades dura, em média, 36 horas. A previsão de chegada em Santarém era às 6h do domingo, 1º de março. Mas a viagem foi interrompida na madrugada de sábado, próximo à Ilha de Aruãs e à Reserva Extrativista Rio Cajari, no Rio Amazonas (veja no mapa abaixo), numa região a 130 km de Macapá, em um local de difícil acesso e comunicação. O chamado de socorro foi feito pelo próprio comandante da embarcação às 5h. Mapa mostra local do naufrágio no Sul do Amapá Aparecido Gonçalves/G1 Investigados São investigados criminalmente como responsáveis pelo naufrágio o comandante da embarcação e dois militares da Capitania dos Portos do Amapá. Os dois agentes da Marinha teriam vistoriado o Anna Karoline 3 antes dele sair do porto de Santana, no dia 28 de fevereiro. A polícia ainda prefere manter em sigilo a parte da investigação sobre o envolvimento da dupla. Na quinta-feira (26), o comandante da embarcação foi preso pela Polícia Civil, que entendeu que ele estava tentando atrapalhar a investigação. A Justiça autorizou a prisão temporária dele por 30 dias. Investigação é comandada pelo delegado Victor Crispim, da 1ª Delegacia de Polícia de Santana Victor Vidigal/G1 Até sexta-feira (27), o delegado ouviu 35 testemunhas (o comandante, tripulantes, sobreviventes, fornecedores de mercadorias e pessoas embarcaram a carga). À medida em que os relatos foram feitos à polícia, a investigação descobriu uma série de situações que levaram ao naufrágio. Testemunhas que afirmam que o navio estava sendo abastecido com combustível ilegal no momento do naufrágio. A polícia paraense apura a situação, porque no dia 3 de março prendeu no Marajó o homem que confessou ter comercializado anteriormente combustível clandestino para o Anna Karoline 3. Ele negou que estava abastecendo o navio antes da tragédia, porém afirmou que estava no local no momento do naufrágio. Carga Polícia Civil confirma que navio estava com excesso de carga Com base em depoimentos e notas fiscais, a polícia afirma que a embarcação levava 170 toneladas de produtos. Era mais do que o dobro da capacidade, sem autorização para fazer esse transporte junto com passageiros. Ao G1, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) informou que o Anna Karoline 3 tem capacidade para transportar 242 passageiros (sem qualquer carregamento adicional) ou 89 toneladas de carga. Vídeo mostra carga embarcada no navio Anna Karoline 3, que naufragou no Sul do Amapá Reprodução A suspeita de excesso de carga foi levantada logo nos primeiros dias após o naufrágio. Vídeos que a polícia teve acesso registraram produtos sendo embarcados no convés do Anna Karoline 3 antes da partida do porto em Santana. Imagens mostram a água entrando na embarcação - o que caracteriza o grande peso no veículo. "As primeiras informações que chegaram davam conta que o naufrágio ocorreu devido sobrecarga de mercadorias e produtos que a embarcação estava transportando, então dei prioridade em exatamente fazer prova em relação a esse fato. Nós conseguimos fazendo oitiva das pessoas que participaram da cadeia, fornecedor, transportador, estivadores e também os destinatários, e também nos foram apresentadas notas fiscais. Conseguimos provar que a embarcação estava transportando 80 toneladas acima do limite permitido", afirmou o delegado. Segundo Crispim, o navio levava toneladas de açúcar, trigo e outros produtos alimentícios; barras de ferro; uma moto; e vários móveis de duas famílias que estavam de mudança para viverem em outras cidades. A carga tinha destinos variados, previstos para serem desembarcados onde o navio faria "paradas", como em Almeirim (PA). Lista de passageiros Durante buscas por vítimas, boia laranja marcava ponto exato onde barco naufragou Maksuel Martins/Secom Não há oficialmente o número de vítimas da tragédia e nem a quantidade exata, porque o navio não tinha uma lista de quantas pessoas embarcaram no porto, e nem a Marinha do Brasil. Inicialmente o governo chegou a afirmar que eram 60 vítimas, segundo o que o comandante da embarcação havia relatado. No entanto, a polícia informou que, de acordo com os depoimentos colhidos, estima-se que a embarcação levava de 90 a 100 passageiros e tripulantes. Embarcações, com familiares e sobreviventes, ficaram na margem do rio para acompanhar resgate de corpos Prefeitura de Almeirim/Divulgação Familiares, amigos e sobreviventes das vítimas sempre contestaram os números apresentados, afirmando que o navio levava em torno de 100 pessoas, além de muita carga. Apesar das equipes não terem suspendido as buscas por vítimas desde o dia da tragédia, foram encontrados 34 corpos, até o dia 11 de março - a última pessoa resgatada foi uma mulher presa em um compartimento do navio. Irregularidades do Anna Karoline 3 O comandante do navio não era o proprietário do Anna Karoline 3. Ele afirmou para a polícia que havia alugado a embarcação, pagando R$ 20 mil por mês, de uma empresa de Santarém. A Antaq identificou que a empresa não tem autorização para operar na rota Santana-Santarém. Veja dados da Antaq sobre o navio: Nome: Anna Karoline 3 Linha autorizada: Santarém – Manaus Comprimento: 38,25 metros Largura: 7,3 metros Capacidade de passageiros: 242 passageiros (sem qualquer carregamento adicional) Capacidade de carga: 89 toneladas Quantidade de convés: dois A Marinha do Brasil acrescentou que, no cadastro do navio que consta no órgão, é descrito que o Anna Karoline 3 foi construído em 1965, e que atua com 11 tripulantes. Além da Polícia Civil, também investigam o naufrágio a Capitania dos Portos, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público (MP) estadual, e a Antaq. O Congresso Nacional também criou uma comissão externa para apurar responsabilidades do naufrágio. A Marinha também apura se houve desvio de conduta dos marinheiros. Reflutuação Balsa com estrutura que fará reflutuação do Anna Karoline 3 Maksuel Martins/Secom Além da investigação criminal, a reflutuação do navio também é um procedimento complexo. Os equipamentos da empresa contratada pelo governo chegaram no local do naufrágio no dia 21 de março, e foram feitos os últimos ajustes para realizar efetivamente a manobra. Saiba como navio que naufragou no AP será içado Ilustração mostra localização do navio Anna Karoline Rede Amazônica/Reprodução Na quarta-feira (25), o governo detalhou que o plano precisou de readequações para que a operação transcorra com maior segurança; já que mergulhadores verificaram que existem grandes volumes de carga soltas no convés. O procedimento também sofre instabilidade climática, e por isso não foi precisada uma data específica para ocorrer o içamento. O ponto onde o navio afundou foi localizado pelos bombeiros e boias foram colocadas para auxiliar nas buscas. A vista ao redor é de mata fechada, em ambas as margens do rio, que tem bastante correnteza. Imagem do navio Anna Karoline no fundo do rio, feita por um scanner sonar Sejusp/Divulgação O navio, feito de aço, está localizado a 440 metros da margem mais próxima, a mais de 12 metros de profundidade. O Anna Karoline 3 pesa em torno de 200 toneladas. Considerando pesos embarcados no navio, além de lama e a pressão da água, o içamento será de um peso em torno de 1,1 mil toneladas. Para isso, o trabalho contempla reflutuação e içamento do navio através de uma balsa que já foi ancorada na região com 2 guindastes. O procedimento também conta com instalação de flutuadores que auxiliarão os guindastes. "O próximo passo da investigação, como vai ocorrer a reflutuação do Anna Karoline 3, nós vamos ao local junto com a equipe de peritos para poder exatamente analisar todas essas circunstâncias, no que diz respeito aos produtos que se encontram dentro da embarcação, realizar pesagem, se for possível, e analisar o que pode ter ocorrido no momento do naufrágio. Existem relatos de que havia muita mercadoria na polpa do navio e que a embarcação começou a naufragar com a entrada de água na polpa do convés principal. A gente vai verificar todas essas situações com a reflutuação do navio", concluiu o delegado Crispim. Região do naufrágio da embarcação Anna Karoline 3, no Rio Amazonas, entre o Amapá e o Pará Maksuel Martins/Secom Para ler mais notícias do estado, acesse o G1 Amapá.
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