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ALERTA: Coliformes fecais são encontrados em comidas de terminais de Manaus

13 Dezembro 2019
Pesquisa constatou que de sete bancas do Terminal 5, seis estão infectadas com bactérias encontradas em fezes humanas e de animais ─ Foto: Lucas Silva

MANAUS – Quem nunca ouviu falar

da famosa “merenda” a R$ 1 que é vendida nos terminais de ônibus de Manaus? Aos tomados pela pressa da rotina ou para quem está com pouco dinheiro, esse lanche se mostram como uma boa opção. Mas, uma pesquisa realizada pela nutricionista Noemi Tamborine relevou que, de sete bancas de churrasco no Terminal 5 de Manaus, seis estão infectadas com coliformes fecais. Essas bactérias são encontradas nas fezes humanas e de animais.

A nutricionista conta que fez a análise de micro-organismos relacionados a coliformes totais e fecais em sete bancas que coletou as amostras. Para encontrar os resultados, a profissional levou em conta as barracas de churrasco do Terminal 5, localizado na avenida Cosme Ferreira, S/N, bairro São José Operário, Zona leste de Manaus.

A nutricionista Adelaide Araújo, não envolvida com a pesquisa, explica que, com o alimento exposto, eles ficam suscetíveis as bactérias em fezes secas de pombo, por exemplo, que viajam por meio da poeira. Atualmente no Terminal 5 atuam 107 ambulantes cadastrados junto à Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semacc). Os dados são do próprio órgão.

Por dentro dos terminais

Diante da constatação científica da contaminação dos alimentos no T5, o EM TEMPO foi até o T1 e ao T5, onde encontrou vendas de alimentos como churrasco, pão na chapa, salgados, pastéis, mingaus, canjica, guaraná em pó e outros. Os preços variam de R$ 1 a R$ 6, em média. As condições de exposição desses alimentos não são das melhores. Os lanches são vendidos em meio à fumaça proveniente dos ônibus, poeira e rejeitos acumulados em lixeiras abertas.

O Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) não contabiliza os dados de quantos passageiros passam diariamente pelos terminais. Informa apenas que, atualmente, o número de passagens por dia no sistema de transporte de Manaus totaliza cerca de 700 mil pessoas.

A estudante Maria de Lourdes, 18, diz que não costuma comprar alimentos nos terminais porque tem medo que faça mal, já que a mãe dela comeu um salgado de rua uma vez e acabou adquirindo uma infecção alimentar. “O cheiro de xixi é o que mais me incomoda”, aponta a jovem.

Em grande parte do Terminal 5, há lixeiras e durante a visita da reportagem, a maioria possuía espaço para armazenar resíduos. No local há a presença de animais como cachorros e pombos. Estes últimos, são famosos por transmitirem uma série de doenças, como a salmonelose, infecção causada pelas fezes do pássaro urbano.

Banca de salgado próximo ao balde cheio de lixo plástico e restos de alimentos, com moscas e abelhas

Banca de salgado próximo ao balde cheio de lixo plástico e restos de alimentos, com moscas e abelhas | Foto: Lucas Silva

No local foi observada ainda uma banca de salgados que funciona ao lado de uma lixeira. No momento da visita, o recipiente estava cheio de rejeitos, inclusive com moscas e abelhas sobrevoando o lixo. Consumidores sentavam em bancos dispostos ao lado da sujeira.

Na área externa do Terminal 5, há uma banca de pastéis que são vendidos aos passageiros do T5. O alimento é repassado por entre a grade que define o limite do terminal. A cozinheira Joelza Costa, 33, que tem o Terminal 5 como percurso para casa, comentou sobre as barracas. “Eu acho que a Vigilância Sanitária poderia fazer fiscalização sem precisar de denúncia, afinal, são alimentos, né, e a gente corre risco”.

Perigos

O infectologista do Laboratório Sabin de Análises Clínicas Marcelo Cordeiro afirma que, normalmente, os alimentos vendidos no comércio informal não sofrem inspeções dos órgãos de fiscalização e que por isso, os riscos de contaminação são maiores. Ele informa que as Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) são aquelas causadas pela ingestão de alimentos e/ou água contaminados.

De acordo com o especialista, existem centenas de tipos de DTA, mas as mais frequentes são as causadas por bactérias, como salmonelas e coliformes fecais, além de vírus, como rotavírus e norovírus. “Os principais sintomas de uma DTA são náusea, vômito e diarreia, mas podem também surgir dores abdominais e febre”, explica Cordeiro.

Entre os principais sintomas das Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) estão náusea, vômito, diarreia, dores abdominais e febre

Entre os principais sintomas das Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) estão náusea, vômito, diarreia, dores abdominais e febre | Foto: Lucas Silva

Além das doenças infecciosas, o especialista diz que comer alimentos ou tomar água contaminados podem causar hepatite A, toxoplasmose (infecção) e em casos mais graves, como o botulismo. Este último é um envenenamento causado por toxinas produzidas pela bactéria clostridium botulinum, e pode ser fatal.

A nutricionista Adelaide Araújo, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), chama a atenção para o excesso desses lanches em terminais, pois podem desencadear uma série de doenças crônicas associadas à má alimentação e a deficiências nutricionais. Segundo ela, é preciso ter cuidado porque, no geral, essas comidas possuem alto teor de açúcar, gordura, sal, corantes artificiais e conservantes na composição dos alimentos.

“Um alimento de terminal pode sim possuir prosperidades nutricionais importantes, mas, se durante a manipulação não houver boas práticas, como conservação, refrigeração ou aquecimento, o alimento é comprometido ”
Adelaide Araújo, nutricionista do Ifam, sobre os alimentos dos terminais de ônibus

Vendedores

O vendedor de guaraná em pó, Antônio Pereira da Silva que trabalha há mais de quatro anos em um terminal da cidade de Manaus e diz com orgulho que tem muitos clientes fixos e garante a procedência e a qualidade do alimento que vende. “Eu compro meu material na Feira do Produtor, preparo o guaraná e trago para vender aqui”, diz ele.

Entre os vendedores já é possível encontrar também muitos imigrantes venezuelanos. José Ramos, 33, vende cascalhos nos ônibus e terminais. “Eu faço o cascalho como se fosse para mim. Procuro ter cuidado para preparar tudo limpinho porque é uma comida, né, precisamos ter atenção”, afirma.

Água do banheiro

No Terminal 1, localizado na avenida Constantino Nery, Centro, Zona Sul, vendedores possuem à disposição dois pontos para captar água potável. É o que explica um vendedor de milho, que preferiu não se identificar. Ele diz que os comerciantes informais utilizam o banheiro da própria estação de ônibus. “Olha, para ser sincero a gente usa aquele banheiro para tudo. Fazemos nossas necessidades ali. As condições dos sanitários são horríveis”, conta.

A reportagem conferiu os boxes do banheiro masculino sem porta e os vasos sanitários sem tampas. As paredes visivelmente sujas com pichações, como “Não vão fazer ‘sexso’ aqui”. O odor de urina e fezes estava forte durante a visita da equipe.

Cuidados e alternativas

O infectologista Marcelo Cordeiro acentua que é possível seguir padrões de higiene na rua, desde que se siga as normas de higiene. “Esses cuidados devem ser seguidos por todos, desde a barraquinha no terminal de ônibus até o restaurante mais sofisticado”, diz.

Vendedor de vitamina de guaraná garante a procedência e a qualidade dos produtos que oferece aos clientes

Vendedor de vitamina de guaraná garante a procedência e a qualidade dos produtos que oferece aos clientes | Foto: Lucas Silva

Já a nutricionista Adelaide Araújo deu como dica aos usuários dos Terminais de integração observar a movimentação nas bancas, porque as mais movimentadas tendem a não ter comidas paradas por muito tempo o que, segundo ela, ajuda a reduzir o tempo de exposição de patógenos (agentes infecciosos).

Outra dica da especialista é avaliar se o local possui acesso a água potável para higienização pessoal do vendedor e utensílios utilizados no preparo dos alimentos. Para quem prefere evitar comer os lanches vendidos em terminais, a profissional indica alternativas. “Você pode substituir o salgado por uma fruta e o refrigerante por um iogurte”.

Adelaide diz ainda que é importante falar sobre a segurança alimentar e nutricional. “Esse processo vai do momento em que se planta o alimento, até a hora da venda para o consumidor”, diz.

Cadastro e treinamento

A Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semacc) é a responsável pelo cadastro dos vendedores de lanches. O órgão, juntamente com o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana, fiscaliza os terminais para certificar que haja uma boa circulação de pedestres nos espaços.

Segundo a Vigilância Sanitária (Visa Manaus), em razão de a Semacc ser a responsável pelo comércio ambulante nos terminais de ônibus, as lanchonetes desses locais não entram na rotina de fiscalizações do órgão, o que pode ocorrer de modo pontual, por solicitação da própria Semacc ou de outros órgãos, para apuração de denúncias. A Visa Manaus diz ainda que, em caso suspeita de irregularidade sanitária, o usuário pode entrar em contato com a ouvidoria da agência, pelo e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

A Visa Manaus informa que oferece treinamento gratuito para orientar vendedores ambulantes (especialmente os que atuam em eventos de massa) sobre as formas corretas de preparo, transporte, exposição e comércio de comidas e bebidas. O treinamento pode ser solicitado por meio do endereço eletrônico Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Por EM TEMPO

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