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Os intensos verdes anos de Clarice Lispector

08 Dezembro 2019

Além de bela e enigmática, a foto abaixo marca um momento de virada na vida da jovem Clarice Lispector. É do ano de 1943, quando a escritora formou-se na Faculdade de

Direito, no Rio. No mesmo ano, casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente. E muito provavelmente estava às voltas com a escrita do romance Perto do Coração Selvagem, lançado em 1944, quando Clarice tinha apenas 22 anos. Foi um baita cartão de visitas. A história de Joana, focada nos sentimentos e descobertas da menina-mulher, apresentou o estilo existencialista singular de escritora, fazendo o mundo literário masculino da época prestar atenção naquela prosa.

Foto de formatura de Clarice em 1943, um ano antes dela estrear na literatura, com Perto do Coração Selvagem (Foto: Divulgação)

Perto do Coração Selvagem é um dos três livros que abre a reedição da obra completa de Clarice pela editora Rocco - um dos projeto que marcará seu centenário de nascimento, em 2020. Os outros dois são os romances O Lustre e A Cidade Sitiada, todos da mesma década. A largada está sendo dada este mês, focado no aniversário de Clarice, nesta terça-feira. E também nos presentes de fim de ano.

No total, explica o editor Pedro Vasquez, 65 anos, serão 18 livros, mais algumas surpresas, como uma publicação inédita com todas as cartas trocadas por ela. As duas principais novidades dos relançamentos são o projeto gráfico assinado pelo premiado designer Victor Burton e os posfácios inéditos. No caso do visual, o destaque fica por conta das capas, com recortes de telas feitas por Clarice, que pintou 22 quadros ao longo da vida.

Na orelha dos títulos, o leitor verá a íntegra da tela retratada na capa, como a obra Sem título, que ilustra Perto do Coração Selvagem e pertence ao acervo da escritora Nélida Piñon. Outro cuidado foi colocar na contracapa a foto de Clarice corresponderá à década em que cada livro foi publicado originalmente.

Já sobre os novos textos, diz Vasquez, a opção pelos posfácio é justamente para não dirigir a leitura. “Clarice era totalmente contra este tipo de coisa, de uma visão intelectual da leitura”, diz Vasquez. Os estudos são assinados por pesquisadores, como Nádia Battella Gotlib, autora da Fotobiografia de Clarice (Edusp), que também será relançada pela Rocco. Ela fez o posfácio de Perto do Coração Selvagem. Mais para frente, participarão estudiosos como o cineasta Luiz Fernando Carvalho, que está dirigindo nova adaptação do livro A Paixão Segundo G.H., com estreia marcada para 2020.

Os primeiros três livros, reflete Vasquez, chamam atenção para a genialidade precoce de Clarice, que antes dos 30 anos já estava consagrada como autora. “Se ela tivesse escrito apenas um dos três romances já seria muito, mas ela fez os três”, destaca , lembrando que nesta mesma década ela morou fora três anos, acompanhando o marido diplomata, e ainda teve o primeiro filho.

“Clarice já estreia madura como escritora. Muitos acharam que era um homem”, completa o editor, chamando atenção para a atualidade da obra da ucraniana, que cresceu em Recife e depois tornou-se carioca. Ela morreu em 1977, aos 57 anos. Além de furar o bloqueio literário, Clarice foi percussora em escrever sobre as dores e delícias de ser mulher, se antecipando ao debate mais atual sobre o feminismo.

clarice

Perto do Coração Selvagem(1943) - Marcou a estreia literária de Clarice Lispector, quando a autora tinha apenas 22 anos. O livro causou grande impacto entre a crítica. A nova edição tem posfácio de Nádia Battella Gotlib, autora da Fotobiografia de Clarice (Edusp). Editora Rocco (R$ 29,90, 208 páginas)

lustre

O Lustre(1946) - É um dos livros mais difíceis e menos conhecidos de Clarice. A narrativa ocorre mais na mente dos personagens do que no mundo externo. Teve recepção crítica morna, o que entristeceu a autora. O posfácio é de Parul Sehgal, crítica literária do New York Times.Editora Rocco (R$ 29,90 , 296 páginas)

cidade

A cidade sitiada (1949) - Escrito nos três anos em que Clarice viveu em Berna, Suíca, quando seu marido trabalhava no consulado brasileiro. Ela sentia-se melancólica, solitária e oprimida pelo silêncio da capital suíça - já que não falava alemão. O posfácio é de Benjamin Moser, biógrafo da autora. Editora Rocco (R$ 29,90, 208 páginas).

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