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Filhos e filhas de Santo se despedem de Mãe Tatá do terreiro Casa Branca

08 Dezembro 2019

Amigos, e filhos e filhas de Santo da ialorixá Mãe Tatá Oxum Tomilá lotaram a Capela B do Cemitério Jardim da Saudade, em Brotas, para se despedir da religiosa, na

tarde deste domingo (8). Altamira Cecília dos Santos, como foi batizada, tinha 96 anos, e morreu no Sábado (7). Ela comandava o terreiro Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca do Engenho Velho, o mais antigo de Salvador.

Mãe Tatá comandava o terreiro mais antigo da cidade (Foto: Dadá Jaques/ Divulgação)

Pela manhã, filhos de santo que estavam na Casa Branca tentavam confortar uns aos outros. Sentados em grupos, debaixo de árvores sagradas, eles conversaram com o CORREIO sobre a trajetória da sacerdotisa que por 38 anos esteve à frente do lendário terreiro, considerado o primeiro monumento negro a ser tombado no país.

Descrita por todos como uma mulher humilde, há cinco anos Mãe Tatá sofria com os efeitos da doença de Alzheimer. De acordo com Antônio Luiz Figueiredo, ogan da casa, a perda da ialorixá cria um rompimento irrecuperável, já que ela era o último elo direto os antepassados escravizados.

“Ela era a última pessoa da casa iniciada por um africano. Ela era neta de africanos. Agora, as próximas gerações serão iniciadas sem esse contato direto”, lamentou.

Filhos de Santo estiveram no velório, no terreiro (Foto: Betto Jr/ CORREIO)

Segundo Figueiredo, Mãe Tatá foi iniciada por Mãe Massi (a Tia Massi), que era filha de africanos, falava iorubá fluentemente e quase não se comunicava em português. O ogan contou que a ialorixá tinha uma frase célebre: “O sagrado é imutável, mas a vida é dinâmica”. Ela dizia isso em função da vida moderna que não mais permitia que as iniciações ao candomblé durassem dois anos.

“Ela falava assim: ‘hoje em dia eu tenho que fazer iniciação em 30 dias porque essa pessoa vai perder, marido, namorada, emprego’. Então essa era a cabeça que ela tinha. Ela foi uma mulher que, dentro da simplicidade dela, acompanhou o tempo, sem deixar de cuidar do sagrado”, lembrou ele.

Mãe Tatá descendia de uma linhagem africana (Foto: Betto Jr/ CORREIO)

A egbomi Neusa Cruz, uma das mais velhas da casa, conta que Mãe Tatá morreu no dia em que completaria aniversário de posse como ialorixá. “Ontem (sábado 7) também foi aniversário do primeiro barco que ela colocou na casa. Hoje, seria a festa de Oxum, que é a orixá dela. Além disso, ela morreu no sábado, que é o dia dedicado às orixás femininas”, afirmou, listando coincidências. Mãe Tatá era regida pela orixá Oxum, patrona das águas doces e também considerada representante do amor e da beleza.

Ogan Ribamar Daniel lamentou a morte (Foto: Betto Jr/ CORREIO)

O terreiro Casa Branca foi responsável pelo surgimento de dois outros terreiros famosos em Salvador, o Gantois e o Ilé Axé Opô Afonjá. Ogan do terreiro Opô Afonjá, Ribamar Daniel descreveu o momento como de dor e tristeza.

“Nós do candomblé acreditamos na ancestralidade e aqui a gente deve toda a nossa satisfação e solidariedade, nosso pesar pelo falecimento de Mãe Tatá, mais uma senhora que era um poço de cultura, uma idosa digníssima, singela e de uma beleza inconfundível. Ela está agora nos abençoando e a nos protegendo”, disse.

Cortejo foi de cantos e orações (Foto: Gil Santos/ CORREIO)

O cortejo da capela até o local do sepultamento foi de cânticos e orações. A cerimônia entorno do caixão da ialorixá durou cerca de 10 minutos, até ele ser enterrado, e contou com a participação de diversas gerações. Seguindo a tradição, o Casa Branca vai ficar de luto por um ano, quando uma nova líder será escolhida para comandar o terreiro. Até lá, são os povos antigos que assumem o controle. O mais provável é Pai Air José, líder do Pilão de Prata.

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