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Wesley Safadão adere ao 'loiro pivete' para o Carnaval e é confundido: 'Belo?'

20 Fevereiro 2020

A galera está, literalmente, com o sol na cabeça neste Verão. Nas barbearias de todo o país - e inclusive nas soteropolitanas - a estileira mais pedida é uma só

desde o final do ano: o loiro platinado. O visual descolorido é moda nessa estação festiva e toma conta dos couros cabeludos, colecionando adeptos de todas idades e classes sociais.

E, nesta quinta-feira (20), dia de estreia oficial da folia baiana, o cantor Wesley Safadão surpreendeu os fãs e seguidores nas redes sociais ao mostrar que mudou de visual: aderiu aos cabelos descoloridos em um visual bem ousado, prontinho para a folia e as festas, período em que é especialmente requisitado. "Eu ouvi Carnaval?", escreveu na legenda, inaugurando o novo visual.

Muitos seguidores gostaram da mudança e logo identificaram: "Loiro pivete! Tinha que mandar um bigodinho loiro", escreveu um rapaz. Alguns acharam uma comparação: "Belo?", referindo-se ao visual do artista durante os anos 90.

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Eu ouvi Carnaval ? ????????‍♂️????

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No Festival de Verão Salvador, que aconteceu no início de fevereiro, o artista já tinha antecipado à imprensa que iria mudar o visual para o Carnaval.

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"No Carnaval eu vou mudar mais ainda. Daqui a alguns dias vocês vão me ver um pouco mais diferente. Vou fazer um teste desses nos próximos dias", disse.

A revelação ocorreu logo depois do cantor falar sobre o novo corte de cabelo, com comprimento bem menor em relação ao visual que usou até pouco tempo.

Safadão no Festival de Verão
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Entrei para turma dos carecas. Entrei para turma da praticidade. Eu pedi para cortar um pouquinho. Aí foi diminuindo, diminuindo. E chegamos aqui. Mas também era um desejo que eu queria", completou na entrevista ao portal.

A mudança no visual do artista acontece com frequência, desde quando integrava a banda Garota Safada, que lançou ele para todo Brasil. Nessa época, o cantor usava cabelo bem mais longo.

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'Loiro pivete'
Essa moda começou a ganhar força no país no final da década de 1990 com os grupos de pagode romântico Soweto e Os Travessos, eternizados nas figuras platinadas dos cantores Belo e Rodriguinho. Naquela época, os artistas tinham presença massiva nos programas de TV e eram galãs de pôster nos quartos adolescentes.

De lá para cá, diversos outros famosos emplacaram o loiro oxigenado. Em 2017, o cantor Robyssão, ex-Black Style, adotou os fios dourados e ainda acrescentou uma lente de contato azul. No verão do mesmo ano, Anitta lançou o clipe de Vai Malandra, no Rio de Janeiro, e além do biquíni de fita isolante, fenômeno no estado, também chamaram atenção os rapazes platinados.

Até R$ 600 para platinar
O procedimento químico para tornar a cabeleira loira é agressivo e faz o cabelo perder nutrientes. O look platinado é obtido através de uma mistura de pó descolorante com água oxigenada e chega a custar entre R$ 25 e R$ 600, a depender dos produtos utilizados, da quantidade, do tamanho do cabelo e, claro, da localização do salão. Nos bairros populares de Salvador, o valor é mais camarada.

Administrador e sócio da boate San Sebastian, José Augusto Vasconcelos, 34 anos, já emenda dois Verões com o visual descolorido. Primeiro foi o verão europeu e agora o nosso. Em julho do ano passado, o empresário adotou o loiro prateado para ir à Mykonos, na Grécia.

“Sigo influenciadores digitais de fora do país e vi que estavam usando muito por lá, aí eu fiz só para essa viagem e todo mundo gostou. Fiquei no 'tiro ou não tiro' e já vou para seis meses assim”, conta, aos risos.

José Augusto Vasconcelos, 34, já emenda dois verões com o visual descolorido
(Foto: Acervo Pessoal)

Nesse intervalo semestral, Augusto vem fazendo manutenção a cada 15 dias. Na academia dele, a atendente da cantina já decretou: não pode tirar mais nunca. O administrador diz que o platinado dá trabalho e custa mais caro, mas a aparência e os elogios compensam. Se antes ele gastava R$ 50 no mês com shampoo e condicionador, agora lá se vão R$ 300 com manutenção, hidratação potente e matizante — um produto usado para manter a nuance desejada e não cair no amarelo.

Quem também botou o couro à prova foi o cantor Jefinho O Maestro, 19, que aderiu à moda antes mesmo de ser oficializada a estação mais quente. Assim como aconteceu com Augusto, a inspiração dele veio de gente que o artista segue no Instagram. A aparência nem durou muito, mas rendeu um comentário engraçado.

“Teve uma pessoa que quando eu tirei falou: ‘Oxe, rapaz, era sua marca registrada’. E eu: ‘Oxe, mas eu botei um dia desses’”, brincou ele, que fez a arte pela primeira vez. Daqui para o Carnaval, ele vai fazer de novo.

O cantor Jefinho, da banda O Maestro
(Foto: Arquivo pessoal)

Época de se amostrar
O modelo Igor Sacramento, 19, morador de Itapuã, conta que fez pela primeira vez na virada do ano de 2018 para 2019. O jovem preferiu recorrer a uma barbearia do próprio bairro. Igor diz que se sentiu mais seguro buscando um profissional e não se arrepende. Ficou do jeitinho que queria e lhe deu confiança para fazer em casa, ‘nas manha’, na virada de ano seguinte.

“Nunca sofri com abordagens policiais quando estava com o cabelo pintado, mas os outros me olhavam estranho”, lamenta o modelo. Já a moda na cabeça de Juan Martins não resistiu ao medo. Ele relata que já levou enquadro de policiais em seu bairro - não foi tão agressivo quanto o sofrido pelo adolescente em Paripe, no domingo (2). "Se uma coisa dessas rolasse comigo não sei como me sentiria", desabafa.

Mas por que a galera escolhe justo o verão para inventar essas artes? O antropólogo Emílio Domingos explica que, devido ao calor, é nesse período que os corpos ficam mais à mostra. “O cabelo é uma parte muito importante na identidade das pessoas. É uma das primeiras coisas que os outros vão ver, é a forma como os indivíduos se colocam frente ao mundo. A estética tem sido hipervalorizada nessa era de superexposição nas redes sociais e um corte, uma pintura sempre geram uma expectativa”, comenta ele, que dirigiu o documentário Deixa na Régua, sobre a rotina de barbearias cariocas.

O cabeleireiro Léo Santos ensaia outra explicação para o fenômeno: tempo livre. “A galera fica de férias da escola ou do trabalho e inventa essas coisas para curtir de uma maneira diferente as suas festas. É quando se sentem à vontade para usar”, opina. O profissional diz que em dezembro o procedimento de descoloração correspondeu a 80% dos serviços realizados no salão.

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Cabelo sujo
Todos os profissionais recomendam que as pessoas façam a descoloração com o cabelo sujo, preservando a oleosidade natural, que ajuda a amenizar a agressividade do produto. “Qualquer procedimento químico tem riscos e danos aos fios, seja alisamento ou coloração. Aqui nós costumamos aplicar uma proteção para a pele para não causar ferimentos e também um bom descolorante”, explica Léo Santos.

Para conseguir a aparência branca ou dourada, o tratamento pode demorar de 45 minutos a seis horas, de acordo com a cor do fio natural do cliente e também do tom a que se quer chegar. Quem deseja escalas mais claras toma chá de cadeira. Cabeleireiro do Espaço Performance, na Pituba, Gilvan Tâmega diz que o público gay entrou na onda e nas saídas de blocos carnavalescos só o que se vê são as cucas platinadas. O tom mais requisitado é o ice blonde, claríssimo, quase branco, que custa R$ 600.

Preconceito: ‘loiro pivete’
O preço por adotar esse visual, aliás, pode ser ainda mais alto — advertem adeptos e cabeleireiros. No começo deste mês, circulou no Rio de Janeiro um vídeo de jovens sendo abordados por supostos milicianos só por estarem usando cabelos oxigenados. No caso, noticiado no dia 3 de janeiro pelo jornal O Globo, os homens utilizaram um spray de tinta preta para cobrir os cabelos loiros dos rapazes. As imagens mostram que um deles diz: “Ou cabelinho ou bala. Acabou o ano novo”.

Crescido em região periférica, o cantor John Ferreira, O Poeta, diz que desde sua época de adolescente a descoloração já era vista com discriminação pela sociedade e pelas forças policiais.

“Sempre associavam à marginalidade, diziam que tinha pegada de ladrão. As pessoas da comunidade que usavam eram discriminadas. Quando eu uso esse cabelo, é para quebrar essa onda”, combate.

Os cabeleireiros dizem que o termo ‘loiro pivete’, inclusive, surgiu nesse contexto. Como os meninos de bairros pobres não tinham tantos recursos e nem conhecimento técnico para enloirecer as madeixas, os cabelos descoloridos em casa ou na praia ficavam em tom amarelado, o chamado loiro pivete.

“Esse é um termo pejorativo. Existe um preconceito e até hoje acontece de as mães não deixarem os filhos pintar por medo da polícia. O jovem da periferia é marginalizado o tempo inteiro, enquanto quem tem pele clara tem outro tipo de tratamento, é dado como bonito, estiloso, não sofre truculência”, contesta o cabeleireiro Edson da Paz.

De acordo com Emílio Domingos, antropólogo, muitas das inovações estéticas no Brasil surgiram e continuam surgindo na periferia, onde a maior parte da população é negra. Apesar disso, os inventores terminam sendo alvo de repressões diversas.

“O futebol, por exemplo, tem grande importância na disseminação das inovações com cabelos e a origem social dos craques, na maioria das vezes, é a periferia. Ver um jogo de Copa do Mundo hoje é um desfile, o gramado vira um tapete. E mesmo com todas essas contribuições geniais, o racismo não acaba”, conclui Domingos.

O CORREIO Folia tem o patrocínio do Hapvida, Sotero Ambiental, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Bahia Airports e Claro.


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