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'Foram para matar o pai de santo', diz avó de menina morta com tiro em Camaçari

20 Fevereiro 2020

Em busca de explicações para o ataque a tiros que matouMaria Eduarda Cena Fernandes, 7 anos, e deixou ferida a mãe dela, Brena Horrana Rosa de Cena, a avó materna

da menina, Vera Lúcia Rosa de Cena, 54, desabafou: "Foram para matar o pai de santo", declarou ela, em frente à 18ª Delegacia (Camaçari). "Dispararam dez tiros, mas três balas atigiram o vidro da frente. Quando viu os caras, ele se jogou no chão, mas deveria ter avisado a minha filha", declarou Vera Lúcia.

A pequena Maria Eduarda foi atingida no olho e chegou morta ao Hospital Geral de Camaçari (HGC). Já a mãe dela, Brena, baleada na face e no abdômen, segue internada na mesma unidade e o estado de saúde dela é grave. O motorista do carro, identificado apenas como o pai de santo Diego, também foi levado à unidade médica porque estava em estado de choque - não há informações sobre o estado de saúde dele.

Apesar de a investigação estar com o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Vera Lúcia foi à 18ª Delegacia atrás de respostas para tamanha brutalidade.

"Quero saber por que fizeram isso. Não tiveram pena nem da criança", declarou, abalada. Ela disse que o estado de saúde de Brena é grave. "Minha filha está em coma", emendou. Ainda não há previsão para o enterro de Maria Eduarda.

Vera Lúcia disse que estava em casa, quando recebeu uma ligação de moradores falando da tragédia na Terceira Etapa, onde está situado o terreiro do pai de santo de prenome Diego, o Ylê Axé Ibá Omin Eram. "Ao voltar para casa, minha filha pediu uma carona a ele, como é de costume, ela sempre ia com a minha netinha no colo. Eles tinham acabado de entrar no carro. Quando Diego deu a partida, eles atiraram", contou Vera Lúcia.

Foto: Bruno Wendel/CORREIO

Segundo ela, a família está inconsolada. "É muita dor. Estamos arrasados, destruídos. Queremos justiça. Quem fez isso tem que pagar. Se não for pela lei dos homens, que seja pela lei divina, esta nunca falha", finalizou.

Na manhã desta quinta-feira (20), o CORREIO esteve no local do crime, mas o terreiro estava fechado e ninguém soube infomar o paradeiro do pai de santo.

O caso foi registrado no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil.

A delegada Maria Teresa, da Delegacia de Homicídios (DH-RMS), disse ao CORREIO que as investigações estão em curso e que, ao que tudo indica, o alvo não era mãe e filha. Equipes estão na rua em busca de pistas sobre os criminosos. A motivação ainda é desconhecida.

Motivação política
Apesar de a Polícia Civil não falar sobre a investigação em relação ao ataque que matou a menina Maria Eduarda e deixou em estado grave a mãe dela nesta quarta-feira (19), moradores do bairro do Parque das Mangabas, onde ocorreu o crime, falam em três possibilidades. A primeira é relacionada à política.

“Minha filha foi ao terreiro porque o pai de santo dela, Diego, chamou todos os filhos e filhas dele para uma reunião no intuito de dar apoio a um candidato na próxima eleição. Eu disse para ela não ir, porque esse lance envolvendo política nunca dá certo e só sobra para quem não tem nada a ver com a sujeira”, desabafou ao CORREIO a avó de Maria Eduarda.

Na manhã desta quinta-feira (20), o CORREIO esteve no local do crime, na Rua Areal, da localidade de Terceira Etapa, a poucos metros do terreiro Ylê Axé Ibá Omin Eram. Uma moradora também acredita que o caso pode estar relacionado à política. “O terreiro funciona aqui há seis meses e começou com uma casinha cercada por arame. Agora, depois que gente grande começou a frequentar o local, vários carros importados paravam em frente à casinha, o terreiro cresceu de uma hora para outra e ontem estava cheio por conta de uma reunião para apoiar um candidato”, contou a mulher.

Perguntado quem era o candidato e o partido, ela foi taxativa: “A gente fica sabendo das coisas, mas não se envolve. O zum-zum-zum é que tem política no meio, que o pai de santo era o alvo, mas não quis perguntar nada. Não gosto de polícia e por isso não quero me envolver”.

Barulho
O segundo motivo levantado pelos moradores é o barulho das festas no terreiro. Segundo eles, a grande maioria que reside no entorno já fez inúmeras denúncias à polícia e a prefeitura, mas nada foi feito.

“Tem dias que são três noites seguidas de festas e ninguém dorme. São fogos e mais fogos a noite e a madrugada toda. Aqui são vários terreiros, mas nenhum deles faz tanto barulho quanto o terreiro do pai de santo Diego. As crianças acordam em pânico. Os animais, principalmente os cães, ficam atordoados”, relatou outra moradora.

Terreiros
A terceira e última hipótese levantada seria a disputa entre os terreiros. Só na localidade de Terceira Etapa são no mínimo sete, incluindo o do pai de santo Diego. “Quando ele chegou, o terreiro (Ylê Axé Omim Eram) passou a ser o mais frequentado, levando ao esvaziamento de outras casas de candomblé”, disse um morador.

O CORREIO tentou falar com três terreiros da região, mas ninguém atendeu a equipe. No entanto, a reportagem encontrou o ogã Ronaldo Ferreira, 53, do terreiro Ilê Axé Babá Omim, de Jauá. Ele é tio de santo de Diego, sacerdote à frente do Ylê Axé Omim Eram. Ele discorda da ideia de disputa entre os templos religiosos. “Somos todos irmãos, somos todos do axé e isso (disputa) não existe entre nós”, declarou.

Investigação
Durante o dia desta quinta-feira (20), o delegado responsável pelo caso, Antônio Carlos Sena, realizou oitivas para dar início às investigações.

Entre os ouvidos nesta quint está o pai de santo Diego, que estava dando carona para as vítimas no momento dos disparos.

“A única afirmação que já podemos fazer é que os tiros não eram para atingir a criança e sua mãe. A intenção era realmente atingir o pai de santo, que se abaixou e o tiro acabou pegando nelas”, explicou Sena.

No momento, a linha de investigação adotada pela polícia é de que a motivação do crime é uma disputa política, já que Pai Diego estava organizando apoio a um candidato das próximas eleições.

“Ele confirmou questões envolvendo campanha política e a disputa pelo controle de uma associação nacional de cultos afro-brasileiros. Ele também é muito ativo nas redes sociais, faz transmissões ao vivo, e algumas pessoas podem se sentir ofendidas com o que ele fala. A gente não está descartando nenhuma possibilidade”, disse o delegado. Nomes citados no depoimento não foram revelados para preservar as investigações.

O caso segue sendo investigado e novas provas devem ser coletadas nos próximos dias, com novas oitivas.


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