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'Precisamos comer': as histórias invisíveis de quem trabalha durante a pandemia

29 Março 2020

Cada personagem desta história tem seu papel. O motorista leva as pessoas até o trabalho, o bombeiro espalha recomendações pelos bairros, a atendente de farmácia vende máscaras, álcool em gel e

remédios, o funcionário do supermercado organiza os alimentos, o frentista abastece os veículos e, assim, a vida segue em meio à pandemia do coronavírus. Enquanto o mundo para, eles continuam. Quando o sol ainda não iluminou a paisagem, Eder, Luciana, Evelin e tantos outros colocam a cidade para andar.

Às 4h, Eder Marins, 38 anos, se põe de pé, toma banho, veste a farda branca e amarela e segue para um ponto de ônibus, em Cajazeiras. Depois de duas conduções e mais de uma hora de viagem, ele chega à garagem da empresa onde trabalha em Praia Grande, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Na direção do ônibus que faz a linha Paripe-Aeroporto, ele abre as portas para trabalhadores que não podem parar. “Só temos como chamar por Deus porque ninguém sabe quem está entrando no ônibus”, diz.

Motorista, Eder mostra preparação para mais um dia de trabalho (Foto: Arcevo Pessoal/Eder Marins)

O motorista passa, em média, seis horas no volante. Durante o trabalho, usa máscara e luva, compradas por conta própria. A empresa disponibilizou álcool em gel nas paradas e nas garagens. Nos dois intervalos, ele lava as mãos com e sem luva para tentar, ao máximo, evitar a contaminação. Entre os passageiros, oscila a descrença e o pânico em relação ao novo vírus. Alguns oferecem gentilmente álcool em gel ao motorista – sem saber que ele carrega seu próprio frasco num bolso – e outros contrariam, sem nenhuma higiene, as recomendações dos especialistas em saúde.

No ônibus, Eder já encontrou montes de terra fedorenta, sacos de lixo, latas de cerveja, restos de acarajé, amendoins e embalagens com chicletes mascados largados pelos passageiros. Médicos reforçam a necessidade da higiene no combate ao vírus.

“Algumas pessoas continuam iguais. Elas até sabem dos riscos [de contaminar] os outros, mas só têm cuidado com suas casas”, observa o motorista

Esta é uma história de quem garante o mínimo de normalidade durante o caos e, por isso mesmo, uma narrativa de esforços e sacrifícios. Os personagens deixam a família em casa, tentam o possível para se proteger e, às vezes, não encontram o suporte devido onde trabalham.

A reportagem conversou com nove profissionais que trabalham para garantir uma assistência básica à população. Eles compõem a lista dos prestadores de serviços essenciais estabelecidos pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), no decreto número 10.282, assinado no dia 20 de março. A média salarial dessas pessoas é de R$ 1,3 mil – dinheiro utilizado, em sua maioria, para sustentar uma família inteira e comprar Equipamentos de Proteção Individual (EPI), quando preciso. Como quaisquer outras, elas também temem por si e seus familiares.

O próprio Eder permanece em casa o quanto pode, com a esposa e o filho. Sua mãe, aos 78 anos, está reclusa em Conceição da Feira, a 125 quilômetros da capital baiana. Balconista de uma farmácia na Orla de Salvador, Evelin Nascimento, 24, sai de ônibus apenas para trabalhar. Evita pegar coletivos cheios. A empresa fornece máscara, luva e álcool. Desde os primeiros casos de coronavírus na Bahia, Evelin, estudante de Farmácia, recusa qualquer convite para sair com os amigos.

Nas oito horas de expediente, ela sente o rosto abafado e úmido pela máscara e atende clientes que chegam com coriza e tosse, mas sem diagnóstico de covid-19. “A gente tem medo sim, mas tem que continuar trabalhando, principalmente agora”, comenta.

No bairro de Santa Cruz, onde mora, ela observa, da janela, o mesmo movimento de sempre. É revoltante ver a cena, ela explica, quando se ocupa uma das frentes de combate à covid-19. “Só vão acreditar quando pegar alguém próximo”, acredita. Para quem continua o trabalho fora de casa, é possível observar, ainda mais de perto, a realidade.

Ela diz que estudar Farmácia, principalmente agora durante a pandemia, é reforçar “o cuidado com o paciente”.

‘Nem o medo para o mundo’

Luciana, nome fictício de uma atendente de supermercado que pediu para não ser identificada, passa sete horas atrás de uma caixa registradora. As filas costumam ser longas, principalmente no final da manhã. Quem pode tem abastecido a casa para evitar sair de casa. Ela espera o cliente se distanciar e o próximo organizar as mercadorias na esteira rolante para limpar as mãos com álcool. “Tem que se proteger de algum jeito”, conta.

A funcionária sai de casa, no Subúrbio, às 5h30, para chegar a tempo no trabalho, num mercado no Vale do Canela, às 8h. O ônibus que pega está quase sempre cheio e Luciana se esquiva para tentar manter distância. Nem sempre consegue.

Como mora com a mãe, uma senhora asmática de 70 anos, Luciana deixa o sapato na soleira da porta, lava a roupa imediatamente após o retorno e segue para o banho. As duas evitam abraços. A idosa é sua maior preocupação, pois faz parte de dois grupos de risco – pela idade e pela doença crônica.

“Tenho medo, mas tenho que continuar trabalhando, a vida continua, a gente precisa comer. Nem o medo para o mundo”, avalia.

Sem gente como Luciana a postos, a comida não estaria na sua mesa. “Mas acho que não tem isso de reconhecer não”, complementa.

Sete das nove pessoas que conversaram com o CORREIO precisam pegar ônibus para chegar ao trabalho. Quando podem esperar o próximo, evitam entrar em coletivos lotados. Embora a frequência de passageiros tenha diminuído, o fluxo de pessoas ainda cresce nos horários de pico nos bairros periféricos e mais populosos, de onde sai a maior parte da força de trabalho em atuação na capital.

Para evitar aglomerações, o frentista Eder Santana, 38, faz o caminho de volta do trabalho para casa, de Narandiba a Boca do Rio, a pé. São 30 minutos de caminhada. Ao longo do expediente, é “a gente com medo do cliente, o cliente com medo da gente”, resume Eder.

Nem os clientes habitués do posto, geralmente idosos que, depois de abastecer, conversam com os frentistas, querem proximidade.

A esposa de Eder, Samira, beirava os nove meses de gestação da primeira filha do casal, Heloísa, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia do novo coronavírus, no dia 11 de março. Nas oito horas de trabalho, ele usa uma máscara N95 – mais resistente -, não compartilha garrafas de água e lava e passa álcool em gel nas mãos. O posto disponibilizou máscara e álcool, mas Eder também leva uma embalagem de 100 ml por conta própria. “Tenho que me proteger para cuidar da minha esposa e da minha filha”, justifica.

Sair? Só para o trabalho

Em alguns bairros populares, tenente Araújo observa a circulação de moradores. Pessoas caminham, jogam dominó na calçada, tomam cerveja nos botecos. “Aí a gente para, conversa, diz para evitar aglomerações”, explica o bombeiro Jurandi Araújo, 39. É preciso paciência. Desde o dia 20, ele vai para a rua com uma equipe de cinco bombeiros justamente pedir que, quem pode, fique em casa. Eles próprios não podem. As viaturas vão acompanhadas de um carro de som, que emite o aviso: “Evitem aglomerações, é para o bem de todos”.

"Não gosto de usar a palavra medo", diz bombeiro que atua durante pandemia (Foto: Arcevo Pessoal/Jurandi Araújo)

“O medo nos mantém vivo”, opina ele, sobre a função em meio à pandemia. “Nem gosto de usar a palavra medo, mas cautela”, completa. Nem o uniforme o tenente tem levado para casa. Quando chega, deixa o sapato no tapete da entrada e lava a roupa do dia assim que retorna. A esposa, também bombeira, tem a mesma rotina. A crise faz parte da vida do tenente. No dia 29 de junho de 2019, por exemplo, uma fábrica de colchão pegou fogo, no bairro de Valéria, e ele ficou 14 horas em operação, envolto na fumaça.

Uma das suas preocupações está a duas horas de distância de Salvador, em Cabaceiras de Paraguaçu. É onde vive a mãe de 63 anos, Dona Emília. “A gente não quer que ela saia, um dos aborrecimentos é esse”, relata o bombeiro que trabalha para convencer outras Emílias a ficarem em casa. A família tem sido um temor entre as pessoas que continuam na ativa. Então, elas traçam estratégias próprias.

Diariamente, o agente de atendimento e segurança do metrô, Lázaro Santos, 38, acompanha centenas de pessoas que circulam pela Estação Bom Juá. Ainda assim, ele evita proximidade com outros colegas – “pelo menos um metro e meio de distância”, calcula – e lava as mãos sempre que pode. Como todos os trabalhadores que dependem de ônibus, evita os lotados.

“Acho que está todo mundo meio receoso, mas adoto cuidados”, diz.

Um deles é proibir visitas em casa e praticar o isolamento voluntário. Ninguém entra. No final de semana passada, nem a namorada, Amanda, pôde visita-lo.

Os amigos também não podem aparecer de surpresa para uma cervejinha. “A brincadeirinha fica para depois”, avisa.

‘Fica um receio’: os dramas trabalhistas

Enquanto está na rua, pendurado na traseira de um caminhão, Lúcio* passa de casa em casa para recolher o lixo deixado em frente às casas, na região da Suburbana. Hipertenso, desembolsa R$ 3 por dia para comprar uma máscara de proteção e já gastou mais de R$ 20 para comprar luvas e álcool em gel. A empresa terceirizada para qual trabalha, que presta serviço para a Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb), não tem oferecido equipamentos de segurança, afirma o funcionário.

“A gente precisa ter condições de continuar. Eu fico com lixo perto de mim o dia todo”, teme.

A recomendação da OMS é que somente pessoas com quadro sintomático de coronavírus usem máscaras de proteção. A empresa responsável pela área disse que o estoque de máscaras – indicadas para o trabalho de agentes de limpeza pelo contato com lixo - acabou e não foi substituída devido à falta do item no mercado. Quanto ao álcool, a resposta dada à reportagem é que a empresa tem oferecido o item individualmente, diferentemente do que disse o agente.

A professora adjunta de Direto e Processo do Trabalho da Universidade de Brasília (UNB) Renata Queiroz Dutra explica que é obrigação do empregador oferecer o material de proteção necessária para evitar os riscos de contágios. Caso contrário, o trabalhador pode até denunciar ao Ministério Público do Trabalho (MPT).

O receio do coronavírus não é apenas pela saúde, mas pelo emprego. Onde estarão quando terminar a pandemia? Todos esperam que com a carteira ainda assinada. O motorista Eder, que deu o pontapé dessa história, acompanha a indefinição da situação da sua categoria, por exemplo. Na última terça-feira (24), o Consórcio OT Trans, da linha de ônibus com tarja verde, anunciou a suspensão do contrato de 200 funcionários por quatro meses.

O Consórcio Plataforma, da linha amarela, para qual Eder trabalha, não anunciou quebra contratual, mas a frota já diminuiu e os colaboradores começaram a tirar folgas.

“Fica um receio trabalhista. Tento administrar a situação sem entrar em pânico”, compartilha.

A atual pandemia já mudou a rotina de trabalho até dos policiais, que permanecem de plantão 24 horas. A soldado Evelin Nascimento, 37, faz parte da Ronda Maria da Penha. Nas últimas fiscalizações, desde a semana passada, os agentes passam pelos bairros para acompanhar a situação de mulheres agredidas que são monitoradas sem se aproximar. A policial desce do carro e pergunta, pela janela, se está tudo bem com a vítima, se o agressor voltou ou se entrou em contato de alguma forma.

Se precisarem prender alguém em flagrante, colocam as luvas e a máscara – guardadas na viatura e disponibilizadas pela Polícia Militar (PM) - para evitar possível contato com o vírus. Quando não está no trabalho, Evelin evita sair de casa com o marido e o filho. “Lavo minha farda todos os dias. Nós não podemos ter medo [de contrair coronavírus]. Se eu tiver, minha imunidade fica baixa, e a gente precisa ajudar quem está com medo”, diz.

De certa forma, a vida continua, na medida do possível, porque os personagens desta história existem. E, amanhã, depois de despertarem, todos eles colocarão a cidade para funcionar mais uma vez. Mesmo que nem sempre recebam o mínimo necessário em troca.

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