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Baco Exu do Blues lança EP contra o tédio da quarentena

01 Abril 2020

O nome do EP lançado há dois dias pode até dar a entender que se trata de uma prévia do álbum que Baco Exu do Blues, 24, planejava lançar ainda esse

semestre, mas ele garante que é só uma constatação: Não Tem Bacanal Na Quarentena. Ponto.

Agora, ele vai esperar “tudo isso passar” para efetivamente dar a conhecer seu novo álbum (cujo nome é exatamente Bacanal). “As duas coisas não conversam em nada, não têm nada a ver”, insiste, ao complementar que seu terceiro álbum, já finalizado e sem previsão de lançamento, é difícil de ser descrito. “É uma coisa que vem de um lugar muito único”, desconversa.

Já o EP, feito em três dias, surgiu de uma forma mais despretensiosa, logo quando o sinal vermelho para o isolamento social por conta do coronavírus se acendeu no Brasil. “Foi uma coisa para acalmar minha cabeça nesses tempos complicados, para entregar algo ao público. Foi mais isso que uma coisa com grandes pretensões”, explica o rapper baiano, que desde sempre fez da música uma terapia.

Capa do EP Não Tem Bacanal na Quarentena(Foto: Reprodução)

“É algo que me dá razão de vida, produzir é o que alivia a cabeça, mesmo sabendo que depois as pessoas vão falar tudo que é coisa. Só que essa é a parada que escolhi fazer, então tem que aceitar”, diz conformado.


“Às vezes, até a burrice dos outros é sinal de que você está certo. Além disso, os haters ficaram felizes, tão com tempo pra gastar nesse momento em que tudo parece entediante, desesperador”, provoca Baco


Para ele, o momento foi bastante fértil, tanto que somente uma das composições já havia sido rascunhada antes. Todas as outras foram feitas nos primeiros dias de quarentena, algumas finalizadas em poucos minutos.

Com nove faixas, assim como seu último álbum, Bluesman (2018), Não Tem Bacanal Na Quarentena foi classificado por ele como um EP não pela extensão, mas por ter sido feito “em pouco tempo, dentro de casa, despretensiosamente, sem almejar ter clipes, shows ou turnês associados”. Tanto assim que, quando retomar a agenda, Baco não pretende incluir as canções no repertório dos seus shows, que estarão voltados a divulgar o novo disco.

Disponível desde o início da semana no YouTube e desde ontem nas plataformas de streaming, o projeto chega pelos selos 999, do próprio Baco, e Altafonte. Apesar de ter sido feito de forma quase que instantânea e em casa, o rapper contou com a colaboração de diversos parceiros em todas as fases de produção. Os beats são assinados por JLZ, Nansy Silvvz, DKVPZ e as participações ficam por conta de Lellezinha, 1LUM3 (a mesma de Me Desculpa Jay Z), Aisha, Maya e Dactes, além dos rappers Celo Dut, Vírus e Young Piva, do selo de Baco.

Rappers Celo Dut, Vírus e Young Piva, do selo 999, de Baco

“É uma covardia falar de um por um, mas eu tenho muito amor por quem está nesse EP, não só pelas pessoas propriamente, mas pelo trabalho que cada uma delas faz. Nelas admiro as duas coisas, sempre o conjunto. Para mim é uma realização reunir gente assim, que confio, que gosto e que estava disposta a fazer algo nesse tempo em que está todo mundo meio estranho”, conta.

Dono de uma escrita pesada e explícita, ele segue dizendo verdades que dizem respeito a suas vivências. A faixa Jovem Preto Rico, que abre o novo trabalho, começa com Baco ostentando e ressaltando que o negro no topo é o grande perigo para a sociedade. Não deixa de fora as tretas da internet e assuntos que estiveram nos trending topics do Twitter nos últimos dias, incluindo o vídeo viral da cantora norte-americana Cardi B e Bolsonaro, na faixa Amo Cardi B e Odeio Bozo.

Cantora Cardi B em cenas de vídeos que viralizaram semana passada (Foto: Reprodução)

“A letra é sobre as decisões estúpidas tomadas pelo nosso presidente. Quando a gente vê o vídeo da Cardi B, mandando o povo lavar a mão e ficar em casa, isso faz com que ela, uma rapper, uma figura do pop, esteja sendo mais zelosa com a população que o presidente do Brasil”, compara Baco.

Na canção de amor da quarentena, ele lamenta a abstinência sexual e a impossibilidade de encontros no isolamento em versos que soam como repetição de fórmulas (Tudo Vai Dar Certo, Preso em Casa Cheio de Tesão e Ela é Gostosa pra Caralho – essa última com samples de gritos e panelaços contra o presidente).

“Tudo isso faz parte como eu vejo o mundo, então não vou deixar de falar sobre essas coisas. O que eu vejo, é que as pessoas já criam uma expectativa sobre, limitam minhas composições a isso. Nesse álbum só tem duas love songs, as outras músicas não têm nada disso. É um olhar viciado”, diz sobre as críticas que rotulam o trabalho.

Seja lá como for, fica claro que o EP é mais uma reunião despretensiosa de ideias que uma obra fechada, uma espécie de retrato da mente do artista no contexto “preso em casa”.

O BBB, que ele só passou a acompanhar nas últimas semanas, lhe inspirou a compor Tropa do Babu, uma homenagem ao ator carioca Babu Santana, que no dia do lançamento do EP figurou entre os dez assuntos mais comentados do Twitter no Brasil.

“Só passei a assistir essa edição por conta das paradas que estavam fazendo com Babu. Sempre achei ele um ator incrível e fiquei putaço da vida pelo modo como ele estava sendo tratado pela casa, visto como um monstro. Que existe racismo no Brasil todo mundo sabe, mas antes tentavam esconder, agora ele está exposto”, critica.

Questionado sobre quem desejava ver fora do confinamento ontem, ele foi certeiro: “torço para o Babu e para a Thelminha, se eles não estão no paredão, então essa não é uma eliminação importante”.

Assim como nos outros trabalhos de Baco, chama atenção a identidade visual do trabalho, dessa vez assinada por Guil, e que faz uma referência explícita à capa do álbum Ready To Die, lançado há 26 anos pelo rapper Notorious Big (1972-1997). Nesta versão, o bebezinho de black power virou um ursão com máscara e álcool em gel.

Capa do álbum Ready to Die, de Notorius Big, referência para capa do EP de Baco (Foto: Reprodução)

"Esse é um dos discos mais importantes do hip hop, em que um cara fala sobre vários temas com liberdade, imprimindo sonoridade nova, textura diferente às faixas, sem perder a postura. Foi o primeiro álbum em que vi isso acontecer de forma exemplar", conta.

Nas redes sociais, Baco chegou a compartilhar uma das brincadeiras feitas em casa durante a gravação, uma versão da música Sozinho, de Caetano Veloso. A releitura, que não entrou no EP, é um embrião para um projeto que Baco ainda quer desengavetar: um álbum só com versões de clássicos da música brasileira, incluindo o próprio Caetano, mas também Alceu Valença, Gilberto Gil, Jards Macalé, Zeca Baleiro e Olodum. É aguardar para ver.

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