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'Todos os sabores da Bahia estão na Feira de São Joaquim'

24 Mai 2020

Para contar a história da Feira de São Joaquim, um dos grandes espaços para abastecimento de Salvador desde a década de 1970, o CORREIO ouviu frequentadores, pesquisadores e clientes dos mais

comuns aos que buscam algo em especial na Feira. A cozinheira Katia Najara, empresária e chef na Pitéu_Cozinhafetiva, que frequenta a feira há mais de 20 anos, falou sobre sua relação com o lugar. Além de detalhar quase tudo que se encontra lá, Katia acresenta algo importante: "É preciso pedir licença para entrar lá, aquele é um lugar sagrado!". Confira na íntegra o depoimento da cozinheira que encontra em São Joaquim todos os sabores da Bahia:

"Eu não faço a menor ideia de há quanto tempo eu frequento a Feira de São Joaquim, provavlemente o mesmo tempo que eu sou cozinheira. E aí, a gente deve ter o que... talvez há quase 20 anos, porque o Pitéu [restarante de Katia] tem 11, vai fazer 12 anos. Antes do Pitéu, eu já trabalhava profissionalmente, no tempo das Rainhas do Lar. teve ter mais de 20 anos, eu tenho 49 anos.

E, porra, a relação com a Feira de São Joaquim é mais afetiva do que comercial. Porque a Feira de São Joaquim não é nada confortável... [risos] Quem precisa de conforto e praticidade não vai à Feira de São Joaquim. Quem vai à Feira de São Joaquim é quem precisa comprar mais barato ou quem tem uma ligação afetiva com a feira, que é o meu caso, não só com esta feira como com qualquer feira. Qualquer feira me chama com força. O caso da Feira de São Joaquim é proporcional ao tamanho da feira e a tudo o que ela abriga.

Então... eu gosto de fazer compras lá, porque eu sempre saio muito mais rica, sempre tem alguém, um novo personagem, uma nova história, um novo retrato que eu tiro na minha memória, porque a feira é muito rica e muito linda, esteticamente muito linda, retrato do nosso povo preto e pobre, retrato da África aqui dentro também e um lugar onde eu posso comprar tudo o da culinária aqui do nosso território de identidade e além, né? Todos os sabores da Bahia, a gente encontra na Feira de São Joaquim, sem sombra de duvida, vendido por um povo que cultiva esses alimentos.

Quando não cultiva, são enciclopédias vivas, são... é muita história ali, dos mais velhos. Tem muitos vendedores velhos ali, tão velhos e tão cansados que eles não têm nem mais saco para contar as histórias, mas profundos conhecedores da nossa cultura. Muita sabedoria, muita fé, porque a feira... olhando a Feira de São Joaquim aqui, agora, nesse momento, o menor setor é o de alimentos, pra mim, em importância, porque tem a parte da fé que é importantíssima, independente da fé. Quem tem fé e vai pra lá de coração aberto, sente um negócio, né?

Aquela parte de lojas, de candomblé, só aquilo ali já é um estouro de história, de sensações, de beleza. Porque você vai no setor de fé achando que você vai comprar uma guia e você encontra um tecido da costa maravilho, você encontra louças de esmalte que é uma coisa que você entra hoje ns sites chiquérrimos, tipo Il Casalingo, em casas daqui de Salvador, tipo restaurantes e casas de café da manhã que resgataram esse prato de esmalte que e vendido em lojas sofisticadíssimas por um preço absurdo, você encontra na Feira de São Joaquim o autêntico prato de esmalte pelo preço que ele vale, dentro de uma casa do axé.

Então, dentro do setor da fé se descortina estéticas, se descortina tradições que hoje são moda, que são exploradas para se ganhar dinheiro, mas que vieram dessa cultura popular que tá lá dentro. Lá dentro, o prato esmaltado custa o que ele custa. É a verdade do prato esmaltado lá. Então, cada setor que parece ser uma área específica, quando você entra, auquilo explode de informações e possibilidades, né?

A parte de artesanto também é outro estouro, também é outro sonho, porque tem muita coisa. O recorte ali, parece que só tem palha, esteira, barro, aguidar, mas quando você mergulha, você encontra muito mais: referências de infância, brinquedos de pau, muita história adormecida lá dentro para além do que os olhos enxergam na superfície.

Com tempo
São Joaquim, você tem que ir confortável, pronto para sujar seus pés de lama, e você tem que ter tempo. Não tempo livre do dia, porque você não vai trabalhar. Sua entidade tempo tem que estar disponível para se perder. É muito cansativo porque é impossível cobrir a feira num dia. Eu fico vendo esses passeios na Feira de São Joaquim pra conhecer, é muito superficial, ninguém conhece nada. São Joaquim e vivência, São Joaquim é idas e idas, São Joaquimm é não ter pressa e achar que você vai conhecer tudo num dia. Você não vai conhecer nunca. Eu frequento há 20 anos e não conheço tudo.

É música, coisas que assustam, como os bichos, e que magoam também, né? Como os bichos que são sacrificados para o Candomblé e que não se pode ter pena, porque o Candomblé é sagrado. Não entram questionamentos, apesar do sofrimento que eu sinto quando passo ali, naquele corredor da morte dos bichos, sobretudo as cabras, galinhas, os animais prontos para o sacrifício. E os mesmos animais também, um pouco mais adiante, também mortos, também com as cabeças cortadas pingando de sangue, mas pra um outro objetivo, que é a venda para consumo de carne, que é bem pitoresco também, aquela parte de carnes frescas.

Acarajé
Tem o setor das baianas, que é onde praticamente todas as baianas de acarajé da cidade compram suas massas e seus ingredientes. Ali é o polo, o grande polo de produção do acarajé, por exemplo, do abará, da comida baiana, do tacho da baiana, tá tudo lá. E aí você acha que é só o camarão seco e ele tem história ra caramba, você viaja.

A parte de artesanato é o lugar onde você encontra, por exemplo, a cerâmica de Maragogipinho, que é uma cerâmica que já foi descoberta em vários paises lá fora, onde ocupa um lugar de destaque e até em museus e que é feita em um únco lugar aqui, em Maragogipinho, no Recôncavo baiano, e que tem uma história, que modelar o barro é parte dos homens e a pintura à mão, completamente livre, aquela pintura à mão branca que é bem tradicional...

A feira tem um recorte de quase todos os territórios de identidade da Bahia lá dentro. É coisa, não é pouca coisa, não. A cultura do feijão: se tem um lugar onde você tem acesso a todos os feijões frescos aqui de Salvador, é a Feira de São Joaquim, debulhado na hora pelas produtoras ou pessoas muito próximas da produção.

As embalagens, também, é outro setor que eu adoro. Aqui no meu Pitéu, as primeiras embalagens que eu fiz nas minhas caixinhas de comida, os Congelados do Amor, eram envolvidas por aquele saquinhos de fruta, de redinha, e a gente encontra isso tudo lá aos montes ainda, os papeis de embrulho, os embrulhos amarrados de cordão com tramas de barbante, a farinha de mandioca na saca pra você experimentar na hora, na boca, como acontece ainda em algumas feira do interior, em casas de farinha.

As hortaliças todas, as bancas de pimenta com todas as nossas pimentas nativas e mais, pimentas da gringa, bancas só de pimenta que você chega ali, é atendido e tem uma aula de pimenta.

Eu passaria o dia falando da Feira de São Joaquim, tem muito mais, tem frutas tipicas e exóticas que você só encontra na Feira de São Joaquim. Esse esquema da modernização, o que muda, muda muito pouco porque a essência da feira é muito mais forte do que uma reformazinha só na primeira etapa que não modifica muita coisa na essência da feira. A feira tem uma força que é muito difícil mudar.

Comer e beber
Tem a comida da feira, tem alguns lugares na feira onde é possível comer. É obvio que a gente não pode esperar que todas aquelas pessoas que vendem comida lá, não todas, obedeçam todas as regras, a lei de vigilância sanitária, mas exitem algumas cozinheiras de raiz lá que vendem comida muito boa, existe um lugar na feira, na beira do mar, onde você toma uma cerveja gelada com aquela paisagem da feira que é muito legal.

Então tem isso de parar para tomar uma cerveja, já bêbados de tanta informação, de tanta história, de tanta beleza, de tanta cultura, de tanta estética, de tanta coisa. Quando eu sento para tomar uma cerveja na Feira de São Joaquim é porque eu já estou bêbada de tanta iformação.

Tem os tipos, personagens da feira, como seu Barbudo, que vendia... eu acho que ele ainda tá lá, mas seu Barbudo é muito conhecido na feira, todo mundo conhece, que ele vendia ervas. Eu digo vendia, porque seu Barbudo começou a enlouquecer um pouco diante dos olhos de todo mundo, ele começou a perder um pouco a razão, continuou vendedo meio atrapalhado, e a gente continuava comprando em seu Barbudo porque ele é um personagem.

Tem uma senhora que eu esqueci o nome, que é crente e ela se veste de preto da cabeça aos pés com um vestido longo, a roupa dela parece uma burca e ela é uma especialista em feijão, a irmã dela em pimentas, uma do lado da outra, qualquer coisa que você quiser saber sobre feijões e pimentas, elas detêm essa informação. Tem Márcio que é vendedor de suco, uma figura. Quando eu chego na feira, a primeira coisa que eu pergunto é: 'Márcio já chegou, alguém viu Marcio?'. Os sucos dele são incríveis, ele mistira, faz suco de jenipapo com hortaliça, uma personagem incrível.

Tem Ademário, que é uma figuraça, que vende artesanato. Tem uma entradinha no meio da feira assim na frente que tem umas casas e você vê logo a barraca de Ademário, que é um cara que tem um senso de humor, ela é um dos caras mais espirituosos que eu conheço, ele é engraçadíssimo. Ele faz qualquer coisa pra nao perder o cliente.

Existem pessoas destoantes lá dentro, mas não tanto, porque apesar de serem brancos, assim, com cara de portugueses, tem muitos estabelecimentos lá de brancos que tem negócios lá dentro. Porque a feira é preta, né? Essencialmente, de cliente, de vendedor, a feira é muito reta, mas tem esses que parecem fantasmas colonizadores lá dentro, que ganham uma grana dentro da feira, eu fico com essa sensação.

Na feira, você comra panela, compra utensílios domésticos, compra pratos, compra bacias, você compra qualquer coisa pra montar uma cozinha profissional.

Pitoresco
Tem uma coisa dentro da feira muito, muito interessante, que eu descobri não tem muito tempo, que é um banheiro, que você paga uma grana, 50 centavos pra fazer xixi. O cenário é absurdo, você não acredita. Você entra por um corredor cheio de samambaia, uma decoração kitch maravilhosa, que faria Almodóvar se contorcer. Você entra, tem uns gatos em cima do balcão, umas mulheres mal-humoradas, aí você sobe uma escadinha, quando você chega tem um banheiro.

Você vai passar o dia inteiro na feira, vai sentir vontade de fazer xixi, e não tem onde fazer xixi na feira. Tem esse banheiro. Aí você entra, é um banheirão, pode dar sorte de estar limpo, pode dar sorte de estar sujo, aí tem um monte de box bem primitivos com umas latrinas quase sempre sem tampa e com cortinas de chita e aí tem um hall bem grande assim com espelho. Quer dizer, é um lugar muito primitivo, mas que é um conforto pra quem está na feira. Quando você sai, você tem uma pia com o sabão, tem um espelho, mas você volta nova pra feira. É pitoresco!"


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