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Indústrias baianas modificam linhas de produção para atender demandas de saúde

25 Mai 2020

Há mais de um século, o naturalista Charles Darwin mostrou ao mundo que a sobrevivência está relacionada à capacidade de adaptação dos indivíduos. Se a regra é válida em períodos de

normalidade, quando o mundo vivencia uma das suas mais graves crises de saúde pública, cabe às empresas buscar caminhões para evitar a extinção. É assim que fabricantes de camisas, fardas e cosméticos estão trabalhando para superar a crise causada pelo avanço do coronavírus na Bahia.

A busca pela inovação é uma constante na Polo Salvador. Foi assim em relação aos investimentos na área de energia, reuso da água e nas matérias-primas de suas famosas camisas polo. Agora, a empresa viu novamente a necessidade de sair na frente diante dos impactos causados pela pandemia do coronavírus em suas atividades. Junto com outras quatro empresas do ramo têxtil, criou a Central das Máscaras.

Mesmo com todas as dificuldades, o grupo conseguiu um feito considerável até o momento para empresas de pequeno porte. Mantiveram os 250 empregos, que garantem a fabricação diária de 20 mil máscaras de pano. Só para atender à demanda da Polícia Militar, o grupo de empresas confeccionou um total de 60 mil unidades do produto.

O proprietário da Polo Salvador, Hari Hartmann, conhece bem os benefícios de apostar na inovação. “Em 2014, eu fiz um investimento em energia solar e hoje a economia de energia me ajuda a manter empregos”, conta.

“A gente sempre tenta enxergar a longa distância, buscando saber o que está acontecendo, o que o mercado está esperando de nós e como é que eu me diferencio dos demais”

Hari Hartmann: união em torno da fabricação de máscaras foi fundamental neste momento

Para o empresário, que também é presidente do Sindicato da Indústria de Vestuário e Artefatos de Joalheria e Bijuteria da Bahia (Sindivest-Ba), a união em torno da fabricação de máscaras foi muito importante para o segmento, composto por micro e pequenas empresas.

“Um grande ato humanitário que nós empresários precisamos fazer é manter os empregos. E isso foi uma coisa que assumimos como compromisso quando começaram as notícias de que o problema estava se aproximando de nós”, lembra.

Tinha gente na atividade já se preparando para dispensar a força de trabalho e fechar as portas.

Hartmann lembra que estava decidido a convidar seus concorrentes a se juntarem com ele para fabricarem máscaras de proteção. “Meu vizinho no condomínio industrial me ligou com a mesma ideia”, ri. Pensaram em um modelo de máscara, anunciaram a ideia no condomínio e no Sindvest, dando oportunidades para todos os que quisessem participar da iniciativa.

Tiveram que correr porque as notícias eram de que os fornecedores, em São Paulo, estariam fechando as portas, lembra. “A gente comprou a última carga de tecidos, montamos uma logomarca, tudo muito rápido, e fechamos o grupo com cinco empresas”, lembra.

Logo inicialmente foi fechado um contrato de fornecimento com a Polícia Militar, lembra. “Nós criamos o grupo com a ideia de reunir nossa capacidade de produção, comprar juntos e trocamos a concorrência por uma parceria. A necessidade faz o indivíduo”, lembra.

Pacto
Com o negócio andando, o grupo decidiu fazer o pacto de que nenhum trabalhador seria mandando embora em abril ou maio. “Todos conseguimos manter os nossos quadros”, destaca. Na Polo Salvador, são 55 trabalhadores. Aqueles que se enquadram na condição de risco foram liberados para ficar em casa e tem parte de seus salários pagos pelo governo e outra pela empresa. Mas com os empregos garantidos. “São oito pessoas que estamos mantendo em casa, graças a esta iniciativa”, destaca.

Não fossem as máscaras, o empresário diz que não sabe como iria passar pelo atual momento. “Nosso negócio é produzir camisas polo, mas hoje só conseguimos vender 20% do que vendíamos antes desta situação”, conta. Além de tudo, a iniciativa ainda rendeu ao grupo uma visibilidade positiva. “Nossos parceiros, empresas do Polo de Camaçari e até a CNI (Confederação Nacional da Indústria) destacou nossa iniciativa. Isso nos trouxe um benefício de imagem que nem era o que esperávamos”, complementa.

“É uma iniciativa econômica, social e de saúde. Quando essa situação passar, sairemos de pé. Além disso, já estamos conversando entre nós para continuarmos trabalhando em conjunto quando isso tudo passar”.

Aventais
O empresário Sergio Tude conta que tem o costume de acordar cedo. Conta que por vezes é possível encontra-lo às 5h da manhã em sua fábrica, especializada na confecção de fardamentos. Pois foi num desses dias em que ele despertou nas primeiras horas e pensava a respeito dos efeitos da pandemia sobre o seu negócio que ele teve uma ideia que salvou a Planeta Fardas nesses últimos dois meses: investir na produção de aventais TNT para uso dos profissionais de saúde.

“A gente sempre fez fardas para todos os segmentos de mercado. Aí bateu um negócio na minha cabeça, 'nessa confusão toda, o que é que vai aparecer é material hospitalar'”, lembra. Ele procurou uma grande rede, com atuação nacional, que falou sobre a demanda pelos aventais. “Foi a nossa salvação, não demitimos ninguém”, lembra Tude, que conta com um quadro de mais de 300 funcionários.

Mesmo com mais de 200 clientes, entre o poder público e o setor privado, com gigantes da construção civil, Sérgio Tude diz que são os aventais que estão garantindo a operação das unidades. “Ninguém comprando nada, se a gente não faz isso, estaríamos em situação horrível. Temos lojas que estão fechadas”, diz.

Álcool gel
A indústria Martins Brasil, do grupo Singular Pharma, produz há 15 anos cosméticos naturais de marca própria e para terceiros em sua fábrica em Lauro de Freitas. Mas desde o mês de abril, não se produzem sabonetes, hidratantes, filtro solar ou base para os cosméticos. A unidade está 100% voltada para a produção de álcool gel, produto com alta demanda do mercado.

A Martins Brasil está 100% voltada para a produção de álcool gel, produto com alta demanda do mercado

“Acredito que diante dessa crise, as empresas têm que ser ágeis para atender às necessidades dos seus clientes. Só assim conseguirão sobreviver no mercado”, aponta Bruno Brandão, diretor da Indústria. Além dos desafios sanitários e de mercado, a Martins Brasil também precisou redirecionar embalagens e insumos da produção de outros itens para atender a demanda pelo produto.

Assim como em muitas outras empresas país afora, o ambiente de trabalho teve que ser adaptado.

“Colocamos os colaboradores do setor administrativo e aqueles do grupo de risco em home office e deixamos apenas os profissionais essenciais na fábrica”, acrescenta Brandão.

Quem permaneceu trabalhando, recebeu equipamento de proteção individual e treinamento de como realizar a correta higienização das mãos, das estações de trabalho e foi informado acerca dos principais sintomas e das medidas preventivas contra o coronavírus. Além disso, foi necessário remodelar o espaço físico da indústria, evitando a presença de mais de cinco pessoas por ambiente.

Conteúdo especial do projeto Indústria Forte, iniciativa do CORREIO, com o patrocínio do Hapvida, Sotero Ambiental e Yamana Gold, apoio da Claro, FIEB e Larco e parceria do Sebrae.


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