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PM preso ao resgatar homicidas estava afastado por problema psiquiátrico

29 Mai 2020

O soldado Adalto José Gouveia Filho, preso em Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, há quatro dias, é um dos 11 policiais militares flagrados pela própria corporação, num intervalo de

apenas nove dias, por suspeita de crimes no estado.

A Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP), em notas enviadas à imprensa, detalhou as 11 prisões, ocorridas entre 16 e 23 de maio. Primeiro, no dia 16, a força-tarefa da pasta, liderada pela Corregedoria, prendeu quatro PMs envolvidos em assassinatos. Os quatro soldados da ativa foram presos por participação nos homicídios dos irmãos Hiago Nascimento Tavares e Thiago Nascimento Tavares, em Barra do Pojuca, em Camaçari, Região Metropolitana de Salvador (RMS), no mês de fevereiro.

Uma semana depois, em 23 de maio, foram presos mais seis policiais militares, todos pelo crime de extorsão. Armas, computador e relógios foram apreendidos, primeiro, com cinco soldados que praticavam extorsões mediante sequestro de traficantes de drogas e seus parentes. No mesmo dia, mais tarde, o sexto policial foi preso, também numa operação liderada pela Corregedoria.

Além desses 11 policiais militares, três investigadores da Polícia Civil foram demitidos no dia 14 de maio por crime de extorsão cometido em 2016 contra comerciantes nos bairros de São Marcos e Pau da Lima.

Problema psiquiátrico
Adalto José Gouveia Filho é soldado e está na Polícia Militar há apenas seis anos. Apesar de pouco tempo de corporação, ele estava afastado da 18ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM/Periperi), onde é lotado, pela junta médica da corporação devido a um problema psiquiátrico.


PM foi preso junto com criminosos (Foto: Reprodução/TV Bahia)

A própria polícia voltou a encontrar o soldado na rua, mas em uma situação oposta ao que se esperava dele: Adalto foi preso na última segunda-feira (25/5), quando resgatava cinco homicidas no Subúrbio Ferroviário de Salvador, mesma região onde trabalhava quando estava na ativa.

“Ele estava afastado do serviço já há algum tempo. O ingresso dele na corporação é relativamente recente, foi há seis anos, mas tem pessoas que apresentam alguns comportamentos que só aparecem depois de um certo tempo e que podem estar ligados a fatores históricos”, declarou o comandante do Policiamento Regional da Polícia Militar, o coronel Nilton Machado.

Ainda segundo as informações divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública, o soldado participava do resgate de cinco homicidas no Subúrbio. No dia da prisão, policiais da 19ª CIPM (Paripe) foram apurar uma denúncia de que homens armados estavam circulando nas ruas Nova Brasília e Sete de Setembro. Houve troca de tiros envolvendo os suspeitos. Três homens foram baleados, incluindo um idoso de 64 anos e Rone Rodrigues de Sena, que tem várias passagens por tráfico de drogas.

Populares alertaram a polícia que, após essa troca de tiros, vários indivíduos que estavam no matagal foram resgatados por um carro preto.

O veículo foi interceptado na BA-528 levando os atiradores e quem dirigia era o soldado da 18ª CIPM. Ele e os outros cinco criminosos acabaram presos em flagrante. Com o bando, a polícia informou ter apreendido uma carabina e três revólveres calibre 38, um colete balístico, munições, três pinos com cocaína, celulares e R$ 420 em espécie.

“Eles foram autuados por porte ilegal de armas e formação de quadrilha”, disse o coronel Nilton Machado.

Inquérito
A Corregedoria da PM instaurou Inquérito Policial Militar (IPM). “A investigação vai apurar de fato qual era a relação dele com os outros presos”, pontuou Machado, quando perguntado sobre a participação do soldado nos crimes praticados pela quadrilha com a qual foi preso.

Na Central de Flagrantes, para onde os presos foram inicialmente levados, o soldado chegou a negar o envolvimento com os outros bandidos, mas acabou confessando. “Ele negou. Mas diante de todas as provas e do envolvimento dos demais na criminalidade, acabou confessando”, falou Machado.

O advogado do soldado, que preferiu não se identificar, não quis falar sobre o caso neste momento.

O coronel Nilton Machado ressaltou a importância de que prisões como a do soldado Adalto venham à tona. “É preciso que as pessoas vejam que atitudes estão sendo tomadas contra esses desvios de conduta, que esse comportamento foi um caso isolado e, por isso, não representa uma tropa de 32 mil policiais. É importante também que estas informações sejam divulgadas para que outros [policiais] pensem duas vezes antes de manchar o nome da corporação”, declarou.

Grupo de PM é ligado a facção criminosa

O grupo ao qual o soldado Adalto Gouveia faz parte é ligado a uma facção criminosa. “Na segunda (25), os policiais receberam um chamado para atuarem numa briga entre facções. Não sabemos ainda a qual grupo o policial pertence, se é o que domina o tráfico local ou se é do bando que quer tomar os pontos de venda de drogas”, disse o coronel Nilton Machado.

O CORREIO pediu informações mais detalhadas quanto à relação entre o PM preso e a facção criminosa. Por e-mail, o Departamento de Comunicação Social da PM (DCS) informou que a demanda foi passada à Corregedoria da PM que ficou de responder.

O comandante do Policiamento Especializado da PM, coronel Humberto Sturaro disse que, nesse período de pandemia, houve um aumento na disputa entre facções. Ele afirmou que o caso está associado à liberação dos presidiários. “Tem muita gente sendo colocada em liberdade. Coincidentemente nesse período de pandemia, houve aumento da rivalidade territorial pela venda de drogas”, declarou Sturaro.

No dia 17 de março, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) recomendou tribunais e magistrados a reavaliarem a execução de prisões e de medidas socioeducativas durante a pandemia de covid-19. Segundo dados do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Estado da Bahia (Sinspeb), antes da recomendação, o sistema prisional baiano contava com 15,6 mil internos. Atualmente, são 13,3 mil.

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