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As batalhas travadas pelo Caboclo contra o descaso e a branquitude

05 Julho 2020

O 2 de julho nasceu festa, no instante seguinte era clássico. Não houve isso de “vamos restabelecer o devido peso histórico dos fatos”. Quem lutou nas guerras de consolidação da Independência

do Brasil entendeu, sem muitas delongas, a importância daquelas trincheiras em Salvador, Itaparica e no Recôncavo.

Tanto que, no ano seguinte à vitória, em 1824, já havia enorme celebração nas ruas “ao som de pandeiro, violas e fanfarras”, num cortejo que repetia exatamente o movimento de entrada do Exército Pacificador na capital, do Largo da Lapinha ao Terreiro de Jesus. Os próprios heróis sobreviventes desfilavam anualmente, representando a si mesmo nas celebradas comitivas.

O historiador Luís Henrique Dias Tavares (1926-2020) escreve como o desfile do 2 de julho de 1849, ou seja, 26 anos após o fim da guerra, foi especialmente comovente por receber o marechal francês, líder da batalha de Pirajá, Pedro Labatut, já bem velhinho e doente – morreria meses depois, naquele mesmo ano.

Da primeira festa, além do trajeto e da música, nasceria outra mitologia, numa inversão quase bíblica dos acontecimentos. O professor Cid Teixeira narra como uma das carretas, usadas na linha de frente de combate aos lusos, foi enfeitada de “ramos de café, fumo, ‘folha brasileira’ e sobre ela colocaram um velho mestiço descendente de indígenas”.

Dois anos depois, em 1826, à imagem e aproximada semelhança daquele homem, nascia esculpida em feltro o famoso caboclo, que até hoje desfila como representação máxima e heroica do povo baiano. Nos anos seguintes, como uma Eva mestiça, viria também a cabocla.

Esculturas do Caboclo e da Cabocla, feitas em feltro, para representar o povo baiano (Fotos: Arisson Marinho e Antonio Saturnino/Arquivo CORREIO)

O intelectual baiano Edison Carneiro (1912-1972) defendia que a escolha do caboclo era um reflexo direto da literatura romântica (com o indianismo de José de Alencar) e do próprio processo de independência da antiga colônia, que passou a valorizar elementos originais do Brasil e negar tudo aquilo que fosse português.

No meio do caminho entre representar o povo baiano, a imagem se mistura com a religiosidade. Nos terreiros da Bahia, surgia o candomblé-de-caboclo, contemplando uma figura encantada com trajes indígenas (entidade que não existe no candomblé africano, se configurando como uma força nos terreiros locais).

Quando o carro alegórico do 2 de julho desponta do pavilhão da Lapinha, a imagem trazida nas carruagens é uma associação direta com esta figura mítica do candomblé baiano. É uma festa de caboclo.

Substituição por Jesus
Por todas estas representações populares, o caboclo foi duramente combatido na virada do século XX. Com o fim da escravização africana, imperavam ideias eugênicas de “embranquecer” a população brasileira e, portanto, nosso símbolo mestiço entrou na lista de perseguição.

O professor e historiador Daniel Rebouças contabiliza a retirada do caboclo da festa entre 1918 e 1923, período do segundo mandato do governador JJ Seabra.

“Existia um forte entendimento que a festa precisava perder seu caráter mais popular e ganhar ares mais cívicos, entendido aí por uma roupagem mais militar, como é o 7 de setembro. É neste contexto que acontece a substituição da imagem do caboclo pela imagem do Senhor do Bonfim. E, apesar do caboclo ser muito popular, não houve resistência. Porque Senhor do Bonfim também é um símbolo muito adorado pelos baianos”, diz.

Cortejo com imagem do Senhor do Bonfim substituindo o Caboclo, no 2 de julho de 1923 (Foto: Acervo/Museu de Arte da Bahia)

E, de fato, o belíssimo hino ao Senhor do Bonfim, composto em 1923 (sob medida pelo centenário do 2 de julho) é um franco agradecimento a Cristo – e ninguém mais – pelo triunfo na guerra.

Glória a ti neste dia de glória
Glória a ti redentor que há cem anos
Nossos pais conduziste à vitória
Pelos mares e campos baianos

Cara de boneco
Além da perseguição deliberada, os caboclos também sofreram com o descaso e perda das feições ao longo do tempo. A escultura masculina, pensada a partir de um velho de antepassados indígenas, foi perdendo suas formas características nas sucessivas restaurações no começo do século XX. Quem afirma é o próprio restaurador da obra, o professor José Dirson Argolo.

Em 1998, contratado pela Fundação Gregório de Mattos, ele comandou uma restauração que durou seis meses nos caboclos do 2 de julho. “Aquela foi a primeira restauração profissional feita nas duas esculturas em todo esse tempo de festa. Antes, tudo que havia sido feito era de forma leiga. O caboclo e a cabocla estavam cobertos por camadas de tintas e isso modificava as feições originais. Até o olho de vidro estava embaixo de tinta. Os dois pareciam dois bonecos, com o rosto sem expressão”.

Imagem do cabloco durante grande processo de restauração, em 1998 (Foto: Acervo José Dirson Argolo)

O professor não acredita em um processo de “branqueamento” dos traços. Diz que a pouca perícia dos primeiros restauradores comprometeu “as feições originais” das esculturas – graças às técnicas avançadas aprendidas na Itália conseguiu fazer a recuperação. Desde então, sucessivamente ao longo dos últimos 22 anos, Argolo cuida das imagens antes do desfile.

Desta “restauração leiga” não há registros oficiais exatos de quando ocorreram, mas, a partir de uma técnica do próprio restaurador, ele conseguiu estabelecer um período aproximado destas modificações. “Tanto o caboclo quanto a cabocla sofreram com cupins, já que foram esculpidos em feltro, que é um tipo de madeira. Os restauradores da época taparam os buracos com jornais e passaram camadas de tinta. Foi a maneira que encontraram. Quando começamos a restauração, abrimos a estrutura e encontramos jornais de 1916, 1920 e 1923. Acredito que as modificações tenham se dado nesta época”, pontua Argolo.

E é justamente neste período que se dá o fortalecimento do movimento eugênico brasileiro, com forte adesão das elites nacionais e fincado num argumento (pseudo) científico. Um dos lugares onde estas teses vão encontrar forte eco é na Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia, a primeira do Brasil. A escola, espaço da elite, mantinha o prédio no Terreiro de Jesus – destino de chegada do caboclo e da cabocla, ao fim do desfile.

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