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Segunda, 21 Setembro 2020 06:30

Bandidos criam páginas falsas de restaurantes pra dar golpes em clientes

Todos os dias, usuários do Instagram vêem propagandas de diversos segmentos - e, volta e meia, novos seguidores aparecem. Mas o novo seguidor pode ser um golpista. É o que vem

acontecendo com clientes e donos de restaurantes em Salvador. Bandidos estão criando perfis falsos de estabelecimentos. Eles oferecem vantagens aos seguidores, como descontos e vouchers, com um objetivo: roubar os dados das pessoas e usá-los para aplicar golpes.

O golpe funciona assim: usando um perfil falso com a mesma foto e informações do perfil verdadeiro, os criminosos buscam por seguidores e enviam mensagens. Eles oferecem descontos ou cupons e pedem, para isso, que o cliente faça um cadastro com nome e número de telefone. De posse do número que o cliente usa no aplicativo de troca de mensagens WhatsApp, os criminosos roubam os dados e pedem dinheiro a pessoas da lista telefônica.

Os empresários tomaram conhecimento da situação através dos relatos de clientes que perceberam o golpe. Ainda não há um levantamento com o número de vítimas - o problema veio à tona há cerca de dois meses, mas os comentários nos perfis oficiais dão conta do tamanho do problema.

Em alguns casos, os clientes, agora vítimas, têm seus números de telefones clonados. Desta forma, os criminosos se passam pelas vítimas e começam a pedir dinheiro aos contatos.

Quem cai no golpe pode passar pelo mesmo que a ilustradora Marília Silva, 45 anos. Sem desconfiar, ela transferiu R$ 1,4 mil para um ‘amigo’ que fez o pedido no meio de uma conversa no WhatsApp. Ela tentou reaver a quantia, mas o banco disse que não era possível, já que ela tinha feito a transferência por livre e espontânea vontade.

Voucher
Há uma semana, a proprietária do Preta Restaurante, na Ilha dos Frades, foi informada de que havia outra página no Instagram com o nome do estabelecimento oferecendo uma promoção: a pessoa pagava R$ 100 para consumir R$ 150. “Fiquei sabendo porque clientes acharam estranho. Tomei um susto. Nunca pude imaginar uma coisa dessas”, declarou a empresária Angeluci Figueiredo.

“Fizeram a nossa página no Instagram e colocaram ‘Preta’ com dois ‘a’ e começaram a enviar mensagens pedindo o WhatsApp para enviar vouchers para consumir no restaurante. Meus clientes acharam muito estranho e me procuraram. Outra coisa que chamou a atenção é que a página tinha poucos seguidores”, disse Angeluci.

O Restaurante Preta avisou aos clientes sobre o golpe
(Foto: Reprodução)

A página oficial do Preta tem 32,5 mil seguidores e 449 publicações. Segundo a empresária, pelo menos dez clientes a procuraram para avisá-la do golpe. Um cliente não percebeu a farsa e, além de ter o número do celular clonado, transferiu R$ 200 para os criminosos.

A empresária contratou um advogado especialista em crimes digitais e informou sobre o golpe na página oficial do restaurante. Os clientes passaram a denunciar o perfil falso.

Os próprios clientes do restaurante desconfiaram da abordagem dos criminosos
(Foto: Reprodução)

Vários perfis
Outro restaurante que passou pelo mesmo problema foi o Paraíso Tropical, no Cabula. Uma das proprietárias, Carla Pimentel, disse que há dois meses foi alertada pelos clientes de que havia mais uma página falsa. Eles notaram erros de português.

Carla também contratou um advogado, postou um alerta nas redes do restaurante e passou a monitorar por conta própria as páginas fakes.

“A gente denuncia no Instagram, mas mesmo assim eles continuam. Então, estamos avisando de um em um. A gente entra na página, pega todas as pessoas que estão seguindo ou que curtiram alguma foto e diz que é golpe. A gente também vai nos comentários, mas dão um tempinho e apagam”, contou.

A rede de restaurantes Outback também foi vítima do golpe: uma página falsa oferecia dois dos pratos mais pedidos da casa em troca de um cadastro com nome completo e número de telefone. No perfil verdadeiro, o Outback postou um alerta ao clientes.

O CORREIO procurou a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que não se manifestou. O Instagram não respondeu até o fechamento desta edição.

Paraíso Tropical teve mais de um perfil fake abordando clientes; mensagens foram enviadas por direct
(Foto: Reprodução)

Motéis
Mas, não são só os clientes dos restaurantes que estão sendo alvos dos bandidos. Empresários do ramo de motéis tiveram as páginas de seus estabelecimentos copiadas pelos criminosos. A advogada Tamiride Monteiro, especialista em crimes cibernéticos, disse que dois grandes motéis de Salvador tiveram dor de cabeça com páginas fakes no Instagram. “Os donos me procuram, porque alguns clientes perceberam o golpe. As páginas tinham a mesma identidade visual, porém letras dobradas no nome da marca”, contou a especialista em segurança digital.

A primeira coisa que a especialista fez foi orientar os empresários a registrarem uma ocorrência numa delegacia.

“Isso porque é preciso que a polícia tenha conhecimento do crime, para que a instituição obtenha mais informações que possam ajudar nas investigações”, disse.

O segundo passo foi dar início a um processo. “Foi preciso ajuizar para se ter acesso aos dados dos provedores de aplicação, como o Instagram e o Facebook. Quando a gente acessa a internet, nós já somos identificados, pois a internet deixa rastros. Para se ter uma ideia, 90% dos crimes comerciais têm os autores identificados”, declarou Tamiride.

Foi o que fez Marília Silva, a ilustradora que perdeu R$ 1,4 mil, depositados na conta de um golpista.

“Quando encontrei com meu amigo, ele me disse que outras pessoas tinham recebido essa mensagem (do número dele que tinha sido clonado]. Ele trocou de número, registramos um boletim de ocorrência e abri um processo judicial sobre o caso”, relata.

Depois que a ficha caiu, Marília começou a se sentir mal por ter sido enganada, especialmente, porque ela tinha sido abordada com o mesmo golpe dias antes. “Eu me senti burra. Eu sabia do que se tratava, mas, na hora, eu não estava atenta e caí”, relembra.

Para a advgada especialista em crimes cibernéticos, os criminosos fariam parte de uma mesma quadrilha especializada. “O modo de atuação é o mesmo. Utilizam páginas falsas, com a mesma identidade visual, diferenciando com uma letra dobrada ou um ponto, usam poucas fotos, têm um número baixo de seguidores. Seria impossível uma, duas ou três pessoas agirem da mesma forma e atingirem um número grande de vítimas. Perceba que eles atacam os clientes com um certo poder aquisitivo, pois a via de acesso a eles são lugares requintados”, disse.

Polícia
Duas unidades da Polícia Civil estão trabalhando em conjunto na identificação dos perfis falsos nas redes sociais: a Delegacia de Proteção ao Turista (Deltur) e o Grupo Especializado de Repressão aos Crimes por Meios Eletrônicos (GME).

“A Polícia Civil, através da Deltur e do GME, idealizou uma forma de capacitação para o grupo específico que venha a ser vítima desse golpe, justamente para que se previna, identifique e antecipe, retirando essas postagens da internet e excluindo também possíveis perfis falsos confeccionados no intuito de cometer crimes”, explicou o delegado João Cavadas, coordenador do GME.

Segundo dele, sendo identificados, os criminosos responderão por dois crimes: uso indevido das imagens e estelionato. Cavadas fez a seguinte orientação aos usuários das redes sociais: “Como dica de segurança, se certifique de que aquela página é efetivamente do restaurante que você quer ir. Fique atento às postagens e publicações. Entre em contato através de telefone com o restaurante desejado e aí terá a certeza e a segurança de que aquele perfil é não é uma página falsa. Isso também serve como dica para outros estabelecimentos”.

*Colaborou Marina Hortélio, com supervisão da subeditora Fernanda Varela

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