Imprimir esta página
Domingo, 06 Setembro 2020 07:00

Suicídios diminuem no Espírito Santo

O índice de suicídios vem diminuindo a cada ano noEspírito Santo. Segundo informações da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), de2018 para 2019, houve uma diminuição na ordem de 9,2% no

número de pessoas quetiraram a própria vida no Estado e, no ano de 2020, mesmo em meio à pandemia,tudo leva a crer que até o fim do ano, essa estatística felizmente continuaráem queda.

Até o mês de agosto, a Sesa registrou 63 casos depessoas que tiraram a própria vida no Estado e atitudes tomadas pelos governose pela sociedade têm contribuído para que esta triste estatística possacontinuar em queda. Uma dessas iniciativas é o Centro de Valorização da Vida(CVV), que mantém, desde 2015, uma linha gratuita 24 horas, através do número188, que visa a prevenção do suicídio a partir do apoio emocional dado pelosvoluntários.

Nilson Aliprandi. Foto: Arquivo Pessoal

Em 2019, foram mais de três milhões de atendimentosem todo o Brasil através da linha telefônica, chat, e-mail e presencialmente,nos mais de 120 postos de atendimento espalhados pelo País. Atualmente, o CVVconta com 3.400 voluntários e o capixaba Nilson Aliprandi, 39, é um deles.

Ele está há quatro anos como voluntário e desenvolveo trabalho como plantonista. “Acredito nessa doação de calor humano, de sedisponibilizar para auxiliar uma pessoa que está vivendo um momento tãodifícil. As pessoas nos ligam com vários sentimentos e sensações, desofrimento, perda, solidão, e nós oferecemos o nosso tempo, nossa atenção eamizade, de forma que possibilite que a pessoa consiga um alívio, uma luz, tireum pouco do peso que está carregando”, explica Nilson.

Ele conta que não é somente a pessoa atendida queganha neste processo. “Cada história que ouvimos nos toca de uma formadiferente e nos possibilita uma conexão, nos permite auxiliar e, ao mesmotempo, produz em nós aprendizado. É uma troca na qual todos ganham. Ganha apessoa atendida, o voluntário e a sociedade de forma geral”.

Psicóloga com experiência em manejo de crisesuicida, Keli Lopes atesta que o CVV é uma excelente ferramenta social para aprevenção do suicídio. Ela lembra também que as pessoas em sofrimento, em riscode suicídio, são público prioritário do Serviço Único de Saúde (SUS), sejaatravés das unidades de saúde, dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) oudos programas de saúde mental dos municípios de governos estaduais.

Ela explica que, apesar de haver várias linhasteóricas para o tratamento de crises suicidas na psicologia, é consenso entreos profissionais que a pessoa em questão precisa ser acolhida e ouvida em seusofrimento.

“Isso é o comum a todas as abordagens. A postura deacolher pessoas em seu sofrimento impacta do ponto de vista do fator deproteção, para uma perspectiva de melhora. A ferramenta inclui escuta eacolhimento. E aí a progressão do tratamento vai depender, caso a caso, dentroda realidade do paciente. É importante que essas pessoas não tenham vergonha deperceber que não estão conseguindo dar conta sozinhos. É normal precisar deajuda em algum momento da vida, não é motivo de vergonha. Nós, psicólogos, estamosà disposição para acolher as pessoas em sofrimento”, afirma Keli Lopes.

A psicóloga lembra que é preciso diferenciar aideação suicida do plano suicida. Segundo ela, a ideação é o primeiro sinal deum sofrimento psíquico intenso, que precisa ser cuidado. “Se a pessoa já tem umplano traçado, diz como vai fazer, tem acesso aos meios, está em plano suicidae possui risco alto para o ato. Portanto, é necessária uma intervenção deurgência para que não venha a intentar contra a própria vida”.

Sobretudo em tempos de pandemia, Keli Lopes chamaatenção a fatores de risco como transtornos mentais (sejam prévios oupresentes), histórico de suicídio na família ou tentativa pregressa, ausênciade apoio social, desemprego, pouca flexibilidade para lidar com adversidade eacesso a meios leitais. “É importante restringir acesso aos meios letais parase tirar a própria vida. Qualquer ação que restringe o acesso já ajuda, porqueisola o fator da impulsividade, que também está associada ao risco de suicídio.Isso reduz as tentativas”.

Além da procura de ajuda especializada compsicólogos e psiquiatras, que durante a pandemia estão atendendo tanto virtualquanto presencialmente (segundo os protocolos de biossegurança) ela explicaque, mesmo com as regras de distanciamento social, o isolamento total não érecomendado. “Distanciamento social sim, mas restrição do convívio social,isolamento total, não. Pessoas do grupo de risco precisam ser bastantecriativas para construir ferramentas para o convívio social neste momento, enão se isolar completamente, porque o isolamento total não é recomendado emtermos de saúde psíquica. Usar as ferramentas digitais, telefone,webconferência é bom, além do convívio com familiares próximos”.

A pandemia do novo coronavírus ligou sinal de alertaquanto a possibilidade de agravamento de quadros depressivos. O psiquiatraJovino Araújo explicou que o próprio medo de ser infectado ou receio de quealguma pessoa próxima adoeça ou morra por causa da doença pode ser umagravante. A realidade socioeconômica e o afastamento afetivo provocado pelo isolamentotambém podem ser fatores para o surgimento de problemas psicológicos.

O psiquiatra enfatiza que uma das maneiras deprevenir o surgimento ou agravamento de problemas psicológicos, em decorrênciada pandemia, é a criação de uma rotina doméstica com novas formas de expressãode afeto, disciplina de horários de sono e alimentação e, se possível,associado à atividade física. “A quebra da rotina anterior à pandemia nos impõeuma nova adaptação. A prevenção de crises emocionais depende muito desta novaadaptação”, pontua.

De acordo com o psiquiatra, familiares e amigostambém devem ficar atentos aos sinais demonstrados pela pessoa com depressão.“Ela pode se queixar diretamente da depressão, ou pode indicar nas entrelinhasde sua fala, ou na alteração do comportamento, que está adoecida”, afirma.

O contato pessoal, uma conversa e o ato de ouvir ooutro é importante para que a pessoa reflita e busque ajuda. “Costumo dizer queo melhor remédio para uma pessoa é outra pessoa. E alguém de fora pode, além deouvir e dar apoio, fazer a sugestão do atendimento médico especializado. Todadepressão tem tratamento”, conclui.

Curtir isso:

Ler 12 vezes