Quarta, 09 Setembro 2020 17:33

O que esperar para o EAD nos próximos anos?

O Ensino à Distância (EAD) sempre foi visto como uma solução prática e eficaz no sistema educacional brasileiro e internacional, mas não há como negar que a pandemia trouxe ainda mais

evidência para este método – embora na visão de muitos especialistas, o ensino remoto emergencial não deva ser confundido com EAD.

O atual cenário mundial reforçou ainda mais sua importância no aprendizado de diversas áreas e em diferentes níveis de escolaridade.

O isolamento social não durará para sempre, mas oEAD dá mostras de que algumas soluções implementadas neste período podemtranscender o período da pandemia e se converterem, de fato, em soluções delongo prazo para promover uma profunda mudança estrutural no ensino brasileiro.

Mais do que nunca, a discussão em torno do chamado ensino híbrido entra em voga.

Implementado de forma emergencial por conta da pandemia, ensino à distância tende a crescer ainda mais. (Divulgação/Pexels)

Essa vertente, inicialmente idealizada pelo Clayton Christensen Institute, dos Estados Unidos, tem como premissa básica a implementação cada vez maior de métodos online como complementares à sala de aula.

No meio acadêmico, isso já é discutido há muito tempo, embora a pandemia tenha trazido mais luz à questão por motivos de necessidades – afinal, como permitir que crianças e adolescentes não interrompam o processo de aprendizado sem poderem ir à escola?

No Brasil, não é diferente. Em um encontro promovido pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), o ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirmou que o método EAD trará um enorme aprendizado a todo o setor no país, apesar de sua implementação em caráter emergencial. Ele não descartou o ensino híbrido nos próximos anos.

“Creio que o ensino, depois dessa pandemia, vai sofrer uma influência muito grande da EAD. Talvez, como dizem os especialistas, tenhamos aí algo híbrido em um futuro não muito distante”, disse o ministro, que foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro há pouco menos de dois meses.

A discussão, no entanto, não é tão simples seconsiderarmos que este modelo ainda dá os primeiros passos na educação básica (quecompreende a educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) e no ensinosuperior, embora este já venha presenciando a implementação de métodos EAD delonga data.

Em outros setores, no entanto, o EAD já está consolidado há algum tempo e tende a crescer cada vez mais. É o caso do mercado de escolas de idiomas, com uma ampla oferta de cursos online em línguas como inglês, espanhol e francês, por exemplo.

Também é o caso do setor de cursos livres e profissionalizantes, que pode ser considerado o grande percussor do ensino à distância no Brasil com a criação do Telecurso, da Fundação Roberto Marinho.

Até hoje, instituições de peso como o Senac investem bastante no mercado digital de ensino.

Penetração do EAD no ensino superior é grande, mas ainda tem longo caminho a percorrer no ensino básico em escala nacional (Divulgação/Pixabay)

Alguns números ilustram a importância de toda a discussão em torno do EAD no Brasil nos diversos níveis de educação, principalmente nas graduações e pós-graduações.

Segundo o Mapa do Ensino Superior no Brasil 2020, as matrículas em cursos à distância registraram um crescimento de 145% entre 2009 e 2018, tendo como principais fatores o preço e a flexibilidade, ou seja, a possibilidade de conciliar os estudos com outras atividades.

Além disso, conforme dados levantados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), a oferta de vagas EAD já é maior que a de vagas presenciais.

De acordo com a pesquisa realizada no Censo 2018, foram registradas 7,1 milhões de vagas EAD, contra 6,3 milhões em cursos presenciais (12% a mais).

Outro dado que impressiona é o fato de 76% dos adultos entre 26 e 40 anos preferirem cursos à distância, segundo a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED).

Estima-se que são mais de 9 milhões de alunos na modalidade digital.

Gráfico mostra crescimento de ingressantes em ensino superior EAD em contraste com a queda do ensino presencial (Reprodução/ABRAFI)

Se a discussão já está mais madura no nível superior, considerando que quase 100% dos alunos têm acesso à internet, a implementação do EAD no ensino básico ainda tem um longo caminho a percorrer e barreiras a superar.

Além da já mencionada questão da internet e outras tecnologias – em diversas regiões do Brasil, os índices de pessoas conectadas são muito baixos quando comparado aos grandes centros, o que gera uma desigualdade em um sistema que deve ser pensado em escala nacional -, há outras questões envolvidas.

A principal delas é o fato de a escola ser muito mais que um espaço de aprendizado para crianças e adolescentes do Brasil.

Na realidade de muitas regiões, a merenda escolar preenche boa parte das necessidades nutritivas de milhões de jovens e é apontada como crucial para o crescimento sob o ponto de vista da saúde.

Além disso, a perda de contato integral com professores e com outros alunos também é vista como prejudicial, sobretudo nos primeiros anos de educação.

O “outro lado da moeda” também entra na lista dedesafios: para promover uma educação à distância de qualidade, é precisoqualificar professores e promover condições de acesso à tecnologias quepossibilitem o ensino e a avaliação assertiva de alunos, o que também estálonge de ser uma realidade em nível nacional.

Tudo isso envolve ações dos agentes políticos detodas as esferas – municipal, estadual e federal –, mas a atual situação dopaís e do mundo, embora seja passageira, abre espaço para uma reflexão cada vezmais profunda acerca do EAD.

Em paralelo a esses desafios, as novas tecnologiasda chamada indústria 4.0 seguem à todo vapor – temas como inteligênciaartificial, microlearning, nanolearning, gamificação e outras novastendências ligadas ao setor audiovisual evoluem a cada minuto e são grandes aliadasà implementação em massa do ensino à distância.

Apesar de todos os pormenores e questões delicadasacerca do ensino à distância, a certeza é uma só: a pandemia vai acabar, mas oEAD veio para ficar – ainda que conte com uma série de desafios pela frente…

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