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Guias turísticos alertam sobre riscos de se visitar Chapada dos Veadeiros sem preparação

08 Dezembro 2019

Desde a última morte registrada no Parque Nacional da Chapada, turistas têm estado em alerta sobre os perigos que as belezas do lugar podem esconder

Com cataratas e cachoeiras estonteantes, desfiladeiros

gigantescos, antigas formações rochosas e de quartzos e trilhas naturais, a Chapada dos Veadeiros é tida como um patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco, não é à toa: as belezas proporcionadas pela região turística localizada no nordeste de Goiás costumam marcar para sempre a memória daqueles que a visitam. O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, que conta com 240 mil hectares de cerrado de altitude, é apenas uma parte da região, e abrange os municípios de Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Nova Roma, Teresina de Goiás e São João D’Aliança.

Criado no ano de 1961, o Parque abriga espécies e formações vegetais encontradas em nenhum outro lugar do mundo, centenas de nascentes e cursos d’água e rochas que datam de mais de um bilhão de anos. Além da visitação e conservação, o Parque Nacional também visa disponibilizar objetos de pesquisa científica e ambiental à comunidade acadêmica e ligada à ciência.

Entretanto, quando não vista com a devida seriedade e aderida com o preparo necessário, a natureza pode ser invariavelmente perigosa. Muitos são os casos noticiados de turistas e praticantes de esportes radicais que se perderam, se feriram ou até que morreram na região da Chapada dos Veadeiros. O fato de alguns acreditarem que podem percorrer as trilhas e visitar as cachoeiras sem estarem acompanhados de um profissional capacitado é um dos fatores que aumenta as chances de incidência de acidentes.

Fazenda Barroco tem acesso autorizado somente com guia. / Foto: Pedro Francisco dos Santos

O guia turístico Douglas Vinícius, que há dois anos atua profissionalmente mas há 14 estuda e caminha pelas belas paisagens da Chapada, conta que alguns turistas não estão acostumados ao tipo de vegetação da região turística mas acabam acreditando que sim. “Essas pessoas que se perdem, se machucam, por acharem que conhecem a região, normalmente são de outro bioma, de outro solo, e acham que aqui [na Chapada] é a mesma coisa, e não é”.

Ele conta que a entrada de turistas acompanhados de guias no Parque Nacional não é obrigatória (somente em alguns locais específicos), e que o fato contribui para alguns turistas se aventurarem sozinhos por regiões consideradas de risco.

Segundo Vinícius, os serviços do guia turísticos são essenciais não só para a prevenção de acidentes, mas também para a melhor imersão do turista no local visitado. “O guia normalmente estuda a região, estuda sobre a geologia da Chapada, como tudo isso veio parar aqui, como as formações rochosas aconteceram, sobre a biologia, geografia, história do povo que veio pra cá, nativo, raizeiro, e todas as experiências de caminhar no Cerrado”, explica.

Um guia profissional certificado na Chapada dos Veadeiros passa por 154 horas de curso orientado por outros guias mais experientes e pelo Corpo de Bombeiros, e segundo o guia turístico Pedro Francisco dos Santos, conhecido como Pedrishna, a classe tem tentado “se reunir e consolidar essa voz única do trade turístico da Chapada”, o que, segundo ele, não é nada fácil.

O guia turístico posa em um dos pontos da Chapada, em Alto Paraíso, / Foto: Pedro Cassu

Pedrishna, que no Parque Nacional oferece serviços de trekking (que são as famosas trilhas), travessias, escaladas, expedições e imersões culturais, revela que na região os guias turísticos não contam com um sindicato, mas possuem associações que atuam como representantes dos profissionais do turismo. Entretanto, segundo ele, tais associações não são aproveitadas como deveriam pelos guias. “A gente tem várias [associações]. Tem a ACVCV (se referindo à Associação dos Condutores de Visitantes da Chapada dos Veadeiros), a de Colinas, Araras, a Kalunga (Associação de Guias do Quilombo Kalunga), mas eu sinto que a gente tem uma boa ferramenta nas mãos, mas ainda não usa muito”, comenta.

O guia também expõe o que ele chama de “falta de consenso” entre as associações, mas fala em uma tentativa dos profissionais de Guia de Turismo de buscar uma unidade. “A gente está num caminho de união, e a gente precisa de uma visão geral dos guias e dos trades”, diz.

Pedrishna explica que, apesar de ser o principal ponto, o dever do guia não é somente prevenir acidentes e evitar que os visitantes se percam, mas também imergir os turistas na cultural local e na questão da preservação ambiental. “Estamos num momento de ataque total à preservação, às unidades de conservação. É muito importante a gente proteger o que a gente já tem, e Alto Paraíso é um mosaico de unidades de conservação de vários tipos”.

Ele cita como exemplo de local afetado pela depredação ambiental as famosas Cataratas do Couros, formação de cachoeiras, poços e corredeiras que atraem turistas de todas as partes do Brasil e do mundo. Para Pedrishna, o Couros está tão depredado que é necessário “fazer algo para parar o aumento da devastação e regenerar” o lugar.

Tragédias na Chapada dos Veadeiros podem ser evitadas pela presença de guias

No dia 27 de novembro deste ano, o Corpo de Bombeiros encontrou numa cachoeira próxima do Rio Preto, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o corpo do jovem Matheus Santos da Silva, de 23 anos. Matheus havia desaparecido na manhã da segunda-feira anterior, 25, quando, sem acompanhamento de guia turístico, se separou da família e decidiu sozinho percorrer a chamada Trilha Amarela.

Seu corpo foi encontrado a 11 metros de profundidade na cachoeira. Infelizmente, o caso de Matheus não é o único de morte na Chapada dos Veadeiros. A guia turística Leide Nirav, moradora da Chapada há mais de 20 anos, conta que a região, apesar de deslumbrante, pode ser mortal para aqueles que não a visitam com a devida preparação.

Leide conta que poucos dias após se mudar para a região da Chapada, tempos atrás, teve logo de início notícias de uma tragédia que havia sido confirmada. “Nesses 23 anos que eu moro aqui, sempre teve mortes na Chapada. Eu morava há umas duas semanas na Chapada, recém-chegada de São Paulo, e soube da primeira morte. Eu tinha conhecido o rapaz, fiquei “de cara””, relembra.

A guia faz questão de enfatizar que as trilhas, pontos turísticos e demais atividades não devem ser encarados como “brincadeiras”, e destaca a importância de se ter um guia turístico durante a visitação. “Aqui na Chapada não é um playground, não é um parque de diversões. As trilhas são perigosas, principalmente nas chuvas, as cabeças de água, as trombas d’água, então as pessoas têm que vir conscientes e contratar um guia, porque um guia conhece e pode salvar numa situação dessas”, arremata.

A reportagem do Jornal Opção entrou em contato com a Socicam, empresa que administra a visitação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, mas os questionamentos enviados não haviam sido respondidos até o fechamento desta matéria.

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