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A escritora cubana Zoé Valdés e a utopia de construir o paraíso que criou o inferno

08 Dezembro 2019

Uma das principais vozes literárias de oposição ao regime da família Castro, a autora conta sua trajetória em dois livros, reunidos na obra “O Todo Cotidiano”

Mariza Santana

Uma ilha

que quis construir o paraíso e criou o inferno. Essa frase é citada diversas vezes na obra “O Todo Cotidiano” (Benvirá, 320 páginas), da escritora cubana Zoé Valdés, de 60 anos, para se referir “Àquela Ilha” caribenha onde ela nasceu. Lugar que teve de abandonar, como “balseira”, em direção a Miami, como milhares de exilados de Cuba fizeram durante a ditadura castrista.

Na realidade, são dois livros em um, com cunho autobiográfico, mas representado por uma personagem fictícia, Yocandra. O primeiro, “O Nada Cotidiano”, narra seus primeiros anos em Cuba, desde o nascimento. E relata como recebeu o nome de Pátria. Sua mãe, ao sentir as dores do parto, estava em uma manifestação popular pró-Revolução e teve a barriga coberta por uma bandeira cubana por ninguém menos que Che Guevara, o argentino que dispensa apresentações.

Zoé Valdés: uma voz poderosa da literatura cubana | Foto: Reprodução

Mas bastou Pátria se tornar adolescente, em meio às dificuldades na Ilha, para resolver trocar de nome. O primeiro livro é intenso, em uma linguagem hermética e sentimental, às vezes tenso, principalmente quando trata de seu relacionamento com o ex-marido, codinome Traidor. Ou quando conta de seu grande amor, chamado apenas de Niilista, um cineasta sem perspectiva encerrado em um país cheio de contradições e miséria, e sem liberdade.

Yocandra também apresenta a mãe, Aída, e brinca com o nome dela. “No bairro mudaram o nome de mamãe. Em vez de Aída, o pessoal a chama de A Ida. Ela foi para o passado, não está mais aqui, vive no pretérito”, relata a personagem principal.

Mudança de livro e de cenário. No segundo, “O Nada Cotidiano”, Yocandra vive as agruras e angústias de uma exilada, primeiro em Miami, nos Estados Unidos, local pelo qual confessa não ter muita simpatia devido ao grande número de exilados cubanos. Depois ela se muda para Paris. Na capital francesa continua convivendo com conterrâneos desterrados em um prédio que tem também moradores de outras nacionalidades, até um brasileiro, o Petro.

Zoé Valdés não tem receio de contar que o suposto paraíso de Cuba se tornou um inferno | Foto: Reprodução

Yocandra vive a saudade de sua terra natal, com a tristeza de saber que lá ficou seu grande amor, tentando fazer oposição ao regime castrista sem muito êxito. O segundo livro, contudo, é menos intenso e mais fácil de ler. Notamos a transformação da protagonista, agora se tornando uma cidadã do mundo, um pouco francesa em alguns momentos. Entretanto, ainda uma verdadeira cubana de corpo e alma, ações e sentimentos. Ela adota a carreira literária e busca motivação para seguir vivendo.

Não vou adiantar as aventuras e desventuras da personagem no segundo livro para não tirar o gosto de surpresa que a narrativa traz.

Mas encerro este texto com um trecho escrito por esta heroína cubana, que que serve bem para o Brasil dos tempos atuais: “O problema não é a esquerda ou a direita; hoje em dia não há porque ter medo da pluralidade de ideias, de partidos, de gente com intenção de mudar as coisas. O terrível, o que realmente dá medo, é o extremismo circundante, de um lado ou do outro. O extremismo é fascismo ou comunismo. Ambos têm mais ou menos o mesmo número de vítimas, uma quantidade horripilante.”

Creio que vale a reflexão. Yocandra tem razão: o que amedontra mesmo é o extremismo, seja ele qual for.

Mariza Santana, jornalista e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.


Em breve novidade aqui!!!

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