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Ronaldo Caiado faz opção pela vida contra o discurso dos economicistas

29 Março 2020

Um automóvel e um celular podem ser substituídos. Mas o bem supremo, a vida, não pode, pois é único

Ronaldo Caiado: um governador que exerce a autoridade concedida e legitimada pelas urnas | Foto: Reprodução

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), eventualmente cita o primeiro-ministro da Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial — Winston Churchill. Há um motivo forte. Neste momento, no Brasil e no mundo, há uma verdadeira guerra contra um “inimigo” terrível, que mata milhares de pessoas (mais de 10 mil tão-somente na Itália e mais de 100 no Brasil) — o novo coronavírus. O britânico também enfrentou um adversário tão poderoso quanto monstruoso — o nazismo de Adolf Hitler, na Alemanha, e o fascismo de Benito Mussolini, na Itália.

Em 1939, a Alemanha invadiu a Polônia e a guerra começou. Inicialmente, a União Soviética era aliada da Alemanha e chegaram a partilhar a Polônia. Ingleses e franceses assistiram, pasmos, o avanço das tropas nazistas, que foram invadindo tudo e dominando vários países — inclusive a França. Os ingleses, assim como os franceses, haviam cometido um grave erro: não perceberam a verdadeira dimensão das ideias do nazista Hitler (por isso o subestimaram). Um dos motivos é que os principais dirigentes dos dois países não haviam lido o livro “Minha Luta”, do ditador germânico. Lá, com todas as letras, estão as informações de que, mesmo antes de assumir o poder, o político planejava a guerra, pensava em invadir a União Soviética — em busca de “espaço vital” — e tratava os judeus e os bolcheviques como inimigos declarados.

No poder, a partir de 1933 — e sem golpe de Estado —, Hitler começou a rearmar a Alemanha, logo iniciou uma perseguição implacável aos seus adversários políticos, que eram tratados como inimigos, e aos judeus, um povo a ser “destruído”. Franceses e ingleses conversaram com Hitler e acreditaram nas suas lorotas. Por quê? Porque, é claro, não queriam a guerra, então passaram a interpretar Hitler não como ele era, mas como queriam que fosse. Por isso, em setembro de 1939, foram pegos com as calças nas mãos ao serem avisados da invasão da Polônia. Ora, o ditador já havia anexado a Áustria e invadido os Sudetos, na Tchecoslováquia. A realidade informava que não iria parar. Mesmo assim, o primeiro primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, não soube entender o recado, duríssimo, da vida real.  Por isso, iludiu-se e, por fim, caiu — desmoralizado pela história.

Roosevelt, Churchill, Hitler e Stálin: união total contra o “virus” do nazismo do terceiro político que aparece nas fotografias | Fotos: Reproduções

Ao contrário de Chamberlain, Winston Churchill, intelectual de mente altamente pragmática, havia lido o livro de Hitler e lia os jornais frequentemente. De pronto, entendeu que o líder nazista iria à guerra, e contra todos. Por isso, ao assumir como primeiro-ministro, conversou com o povo inglês, que já estava se sentindo derrotado — parte da elite britânica queria negociar com o ex-cabo austríaco —, e jogou limpo com a população. Informou que tempos difíceis chegariam, mas que, se todos lutassem, com coragem, audácia e destemor, seria possível vencer o político que trabalhava para enterrar a democracia e transformar os demais europeus em escravos da Alemanha.

A principal arma que Churchill usou, num primeiro momento, foi a p-a-la-v-r-a. Sim, a palavra. Falando bem, com frases elaboradas — era um cultor da arte inglesa, um dos “filhos” de Shakespeare, sabedor de que a vida cobra o primado da retórica, da palavra —, dialogou, de maneira transparente, com os ingleses. Sangue. Suor. Lágrimas. Era o que tinha a oferecer. Mas, se os ingleses aceitassem sua proposta, de luta total contra Hitler, poderiam vencê-lo.

A palavra levantou o povo inglês. Mas não bastava. Por isso, e com o apoio de Harry Hopkins — o grande americano que precisa ser mais conhecido —, buscou o apoio do presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, em tempo integral. O Congresso americano não queria autorizar a entrada do país na guerra. Mas, quando o Japão atacou Pearl Harbor, os americanos tiveram de entrar na disputa. O que desequilibrou o jogo.

Presidente Jair Bolsonaro: sua ignorância é sócia da irresponsabilidade / Foto: Reprodução

Quando os alemães invadiram a União Soviética, em 1941, cometeram talvez o maior equívoco na guerra. Os comunistas estavam quietos, como aliados dos nazistas. Churchill, um dos conservadores mais civilizados da história, disse aos incrédulos: “Se Hitler invadisse o Inferno, eu faria uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns”. No caso, o diabo era Stálin — um dos ditadores mais sanguinários do século 20 (responsável pela morte de pelo menos 25 ou 30 milhões de pessoas) —, mas, pragmático, o britânico, por sinal filho de uma americana (o atual primeiro-ministro Boris Johnson é americano, filho de pais britânicos), uniu-se ao comunista (ele, um dos mais ardorosos anticomunistas da história).

Juntos, Inglaterra, Estados Unidos, duas democracias, e União Soviética (o país que mais perdeu soldados na batalha), uma ditadura, venceram a Alemanha nazista. Porque Churchill foi o líder mais importante da guerra? Porque em nenhum momento hesitou. Roosevelt alegava que a opinião pública não queria os Estados Unidos na guerra. Stálin uniu-se, num primeiro momento — assinando um pacto de não-agressão, em agosto de 1939 (sem o pacto, provavelmente Hitler teria ido à guerra bem mais tarde), ao nazismo. Mas Churchill, dotado de grande coragem e percebendo que a Europa seria uma região de escravos, reagiu, inclusive contra muitos ingleses influentes. Era um homem de coragem inaudita. Mas, depois de vencer a Alemanha de Hitler, perdeu a eleição seguinte… os ingleses o derrotaram. Porque, com o país arrasado, queriam um gestor que cuidasse mais do social, da recuperação do país para todos.

Mas o “vírus” nazista havia sido derrotado graças, em larga escala, à tenacidade e a independência pessoal e intelectual de Churchill.

Autoridade sem populismo de Ronaldo Caiado

Ronaldo Caiado é médico ortopedista (como o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta), com especialização na França, país que deu ao mundo o extraordinário Instituto Pasteur. Neste instituto, graças ao próprio Louis Pasteur (que era químico) e o brilhante e pouco conhecido Alexandre Yersin (1863-1943), iniciou-se um combate sistemático à peste, ao cólera e outras doenças. Primeiro, decifraram as doenças e, em seguida, produziram as vacinas. O grande sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz estudou no Instituto Pasteur, onde aprendeu a combater as epidemias, como a de varíola, que ceifou a vida de milhares no Rio de Janeiro, no começo do século 20. O presidente Rodrigues Alves, que morreu de gripe espanhola, em 1919, e Oswaldo Cruz enfrentaram políticos mal-intencionados, mas combateram, de maneira tenaz, as epidemias. Jamais aceitaram a ideia de “pestezinha”, “variolazinha” ou “gripezinha”.

Como médico, Ronaldo Caiado tem uma cultura científica ampla, que vai muito além da ortopedia. Por isso, ao ter de lidar com o novo coronavírus, agora como governador de Goiás, agiu como médico, de ampla formação, que ouviu atentamente o que disseram cientistas, notadamente os infectologistas e epidemiologistas. Ele optou por decidir, gestor que sabe usar a autoridade — portanto, não se deve confundir com autoritarismo —, pelo isolamento das pessoas. É óbvio mas vale insistir: o que pretende o governador é salvar o máximo de vidas possíveis. A maioria vai sobreviver graças ao isolamento e, também, aos cuidados que os governos, como o de Goiás, estão adotando para salvar a vida dos doentes. O gestor goiano agiu rápido, e enfrentando a incompreensão do presidente Jair Bolsonaro, que parece não ter entendido que se está enfrentando uma guerra.

Às vezes, para salvar vidas, é preciso jogar não para, e sim contra as plateias. Porque atitudes duras vão de encontro ao populismo reinante no Brasil. Bolsonaro quer jogar para as plateias, pensando na eleição de 2022. Ronaldo Caiado, pelo contrário, não está pensando em eleições, e sim em salvar vidas. Por isso, insiste que, no momento, o isolamento é o melhor caminho.

A vida é um bem (supremo) que não pode ser substituído. Caiado, atuando contra o populismo, está optando pela vida, inclusive contra os economicistas — que pensam mais em salvar seus negócios (para disfarçar, falam em empregos) do que em salvar vidas. Repetindo e sublinhando, o governador goiano alinha-se entre os que põe a vida acima da economia. O que prova que é um liberal humanista.

O marqueteiro de Bill Clinton é citado em todo o mundo por dizer que, em campanhas eleitorais, o que importa é a economia (se o país vai mal em termos econômicos, a tendência é que o presidente não seja reeleito ou não consiga eleger o sucessor). Daí: “É a economia, estúpido!” Pois, agora, é tudo diferente. Deve-se dizer: “É a vida, estúpido!”. Por causa do coronavírus.

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