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Projeções viram nova forma de se manifestar

29 Março 2020
O produtor de VJ Spencer, um dos criadores do Projetemos, diante de imagem do grupo - (Foto: Divulgação)

Em tempos de pandemia e confinamento, um novo tipo de protesto

passou a acompanhar os panelaços contra o governo Jair Bolsonaro. Projeções feitas em paredões de prédios dão voz às pessoas que, dentro de casa, acham que bater panela é pouco para manifestar indignação política ou alertar sobre os cuidados recomendados contra o coronavírus.

Em menos de 24 horas, a iniciativa de um produtor de vídeo e de uma cientista política, ambos moradores de São Paulo, ganhou o País. Pelas redes, o Projetemos, que hoje virou um grupo com mais de 150 pessoas, debate diariamente a pauta das mensagens e compartilha arquivo único para projeção, mesmo que de forma caseira, e dicas para obter o melhor resultado.

De acordo com o VJ Felipe Spencer, um dos criadores do grupo, basta baixar as imagens no computador, conectá-lo a qualquer projetor e apontar para uma parede vizinha. As exposições são informais, ou seja, sem autorização de condomínios ou das prefeituras - na capital paulista, a Lei Cidade Limpa proíbe esse tipo de ação.

"Nossa intenção é conscientizar as pessoas sobre a situação que estamos vivendo, destacar a posição dos especialistas da área médica e protestar contra a postura do governo diante da pandemia."

Na semana passada, as projeções se tornaram coletivas, diárias (sempre às 20h) e com duas horas, em média, de duração. Nesse período, as mensagens são trocadas, alternando dicas de saúde com críticas políticas. Salvador, Recife, Rio, Belo Horizonte e Brasília são algumas das cidades que já registraram ações do Projetemos.

O grupo faz contato, quando possível, com especialistas para chegar às frases ideais. O vereador petista Eduardo Suplicy, por exemplo, foi procurado na semana passada para explicar o que é renda básica, programa de distribuição de renda aprovado pela Câmara como ação emergencial para autônomos que estão sem trabalhar. O governo pagará até R$ 1,2 mil por família durante o período da quarentena.

Os participantes também tomaram partido na polarização mais recente da política brasileira: a necessidade de isolamento social para combater a pandemia, defendida por governadores e negada pelo presidente Jair Bolsonaro. Nas paredes dos prédios, mensagens como "Ei, mano, fica em casa" fizeram defesa do distanciamento emergencial.

Empatia. Mas nem tudo é protesto. Brunna Rosa, que trabalha como estrategista de redes sociais, diz que o objetivo é também focar na formação de uma rede de afeto. Ela destaca as mensagens otimistas projetadas em todo o Brasil, como "Vai dar tudo certo" ou "Vai passar, fiquem vivos para ver."

Projeção em prédio da Vila Madalena, em São Paulo.
Projeção em prédio da Vila Madalena, em São Paulo.

"As nossas projeções são coletivas desde o dia 21. Foi fantástico nesse dia ver uma enorme rede de solidariedade e informação se formando", disse Brunna. "E depois todo mundo manda foto dos bastidores. Tem gente que coloca o projetor em cima de uma tábua de passar roupa, na pia da cozinha, adaptado num banquinho. Todo mundo pode dar um jeito de usar a arte para quebrar barreiras."

A repercussão ganhou as redes e o grupo começa hoje a ensinar a distância como dar seu recado. Uma live destinada a jovens da Rocinha, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, oferece uma introdução à projeção mapeada. "Mesmo quando essa pandemia passar vamos continuar com as mensagens. Sempre há o que reivindicar", diz Spencer.

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