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'Eu tive de gravar dez vezes o primeiro vídeo', diz professora

05 Abril 2020

O fechamento das escolas por causa da epidemia de coronavírus colocou pais e mães em uma rotina até então pouco comum no Brasil. Com as crianças estudando

em casa, a mesa de jantar deu lugar à sala de aula improvisada e as famílias precisaram intercalar home office e tarefas domésticas com as dificuldades dos filhos na modalidade a distância. Mas como garantir que as crianças estão aprendendo, quando o ensino online ainda é tão novo?

E, ao mesmo tempo, qual é a medida certa de atividades escolares durante este período, para não sobrecarregar alunos e pais?

A empresária Aline Saito, mãe de Sofia, de 8 anos, e das gêmeas Giovanna e Elisa, de 4, notou o quanto a nova rotina seria difícil logo na primeira semana sem aulas presenciais. “Os professores pegaram o conteúdo que dariam em sala para a Sofia e nos passaram um roteiro, algo como cinco matérias por dia”, conta Aline. “Na sexta-feira, eu tinha feito apenas o que estava programado para a segunda.”


Sofia, Giovanna e Elisa: mãe relata que no início houve excesso de atividades da escola

Em sua nova rotina, Aline intercala o trabalho na startup B2Mamy, onde faz gerenciamento de projetos, com as tarefas domésticas. Também precisa ajudar na lição de casa da Sophia e dar atenção para as filhas menores. “Se a escola demandar de mim muitas horas para sentar e passar a lição, não vou conseguir.”

O diálogo com a coordenação do colégio foi o que ajudou a tornar as semanas seguintes da empresária mais leves. Os roteiros elaborados pelos professores agora estão mais enxutos e didáticos. Mesmo assim, Aline continua com a insegurança de este ser um ano escolar perdido.

“A escola disse que não sabe como vai fazer e deve ter de trabalhar o conteúdo novamente”, afirma Aline. “Acabei contratando a minha cunhada para aulas particulares online. Vai ser a tutora dela, porque preciso equilibrar uma carga de coisas em casa com o meu trabalho.” Para as duas mais novas, a saída foi dar atividades lúdicas no lugar dos exercícios passados pela escola.

Leis.

A educação a distância para o ensino fundamental só é permitida no País em casos emergenciais, como o que foi considerado agora com a pandemia. Mesmo assim, precisa de determinações locais para que seja depois contada como horas no calendário letivo. Nesta semana, uma medida provisória determinou que as escolas não precisam este ano cumprir os 200 dias letivos e, sim, as 800 horas. Dessa forma, aulas online podem entrar no cálculo.

Lúcia Regina de Lima Nunes, de 50 anos, diz que não se sente muito à vontade ao falar para a câmera. Mas agora tem um estúdio improvisado em casa, onde a filha a filma com celular. Lúcia dá aulas para crianças de 4 e 5 anos em uma escola particular de Natal. Teve de entrar na educação a distância há duas semanas, quando a instituição fechou as portas por causa do coronavírus.

"O primeiro vídeo tive de gravar dez vezes, eu estava muito séria, não é como estar com as crianças na sala", conta Lúcia. "A maior dificuldade é não saber como estão recebendo a aula que gravei." Ela se diz assustada com a situação atual, com os casos que não param de crescer, e a filha que mora em São Paulo.

Pesquisa Instituto Península mostra que 90% dos docentes estão preocupados com a sua saúde. E já relatam problemas psicológicos. "Vejo o risco de isso aumentar. Com estrutura emocional abalada, os professores precisam ainda se ressignificar profissionalmente", diz a diretora executiva do instituto, Heloísa Morel.

O estudo também mostrou que a maioria dos professores da rede privada acha que seu papel neste momento é interagir com os alunos on line. Entre os de escolas públicas, os índices são baixos. Nas redes municipais e estaduais ainda são poucas as iniciativas de ensino remoto e os docentes foram colocados em férias.

"Professores, que tanto reclamavam que os alunos falam muito em sala em de aula, agora reclamam que ninguém fala nada. Todos são ensinados a deixar o microfone no mudo", brinca Bruno Romano Rodrigues, de 31 anos, professor de História no Colégio Mary Ward. "O professor fica um pouco sem chão quando falta a percepção do coletivo, de como está a turma, do que está dando certo, se precisa fazer pausa, uma piada. Definitivamente, o presencial é a maneira de concretizar o ensino e a aprendizagem.".

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