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'Feliz seria com elas aqui. Dói demais', diz pai que perdeu duas filhas em acidente na BR-277, em São José dos Pinhais

09 Agosto 2020

Basílio de Oliveira, que enfrenta o primeiro Dia dos Pais sem Ester e Jéssica, falou ao G1 sobre o amor e força para superar a saudade; além das filhas,
o genro e outras 5 pessoas não resistiram ao acidente. Jéssica Oliveira, de 21 anos, Ester Nunes de Oliveira, de 20, e a bebê Emanuele Arquivo pessoal/Basílio de Oliveira Um dia de cada vez. É assim que Basílio de Oliveira diz estar vivendo. Todo ano, no segundo domingo do mês de agosto, se comemora o Dia dos Pais, mas para ele, neste dia 9, a data não será completa. "Ontem, hoje e amanhã, tanto faz, o dia só seria feliz com elas aqui de novo. Dói demais. Elas eram muito queridas desde pequenininhas, tinham muitos amigos", contou ele. Basílio, aos 49 anos, sofreu o maior trauma da vida dele. Como em um sopro, perdeu as duas filhas em um acidente na BR-277, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, envolvendo mais de 20 veículos. O pai também estava no acidente, ocorrido em um trecho de visibilidade baixa, mas não foi atingido. "Foi uma fatalidade, ainda não acredito". Além das filhas, o genro Fernando Jaroz Mendes e outras cinco pessoas morreram. São lembranças, planos e sonhos que se dissiparam antes mesmo do nevoeiro. Uma semana exata em que esse pai tenta sobreviver por meio do amor. Mais do que isso, tenta recomeçar. "Foram direto para o céu", diz o pai com a voz embargada. Apesar da ferida ainda longe de cicatrizar, Basílio conta que se agarra na fé e nas boas lembranças que viveu ao lado de "suas meninas", Ester, de 20 anos, e Jéssica, de 21. Além das duas jovens, Basílio teve mais dois filhos: Claudemir, de 25 anos, e Almir, de 28. O pai que zelou por ensinar o certo aos filhos, hoje lamenta o "erro" da distância. A falta do toque, do abraço e da presença é inevitável. Mas, segundo ele, o laço que o amarra com elas não permite que tudo o que passou, desde a espera pelo nascimento das duas até o mínimo gesto de proteção que teve, tenha ido embora com o breu. "A gente tem que tirar forças da onde nem sabe que tem. Eu tive pouquíssimos ferimentos no corpo, mas tem um machucado que não sara. Consola em ter vivido tanta história linda com elas". Basílio é argentino, da província de Misiones. Há dez meses, sofreu um derrame facial - do qual está recuperado. Morando no país vizinho, ele veio para o Brasil seguindo os passos da esposa para acompanhar a gravidez de Ester. 'Tão cheios de vida' Segundo os planos do pai, este domingo de 9 de agosto seria bem diferente na casa da família Oliveira. Mas, como o pastor evangélico afirma, "veio aquela nuvem, aquela fumaça, e bagunçou tudo". Cinco dias antes do acidente, segundo Basílio, a filha mais nova, Ester, e o genro Fernando haviam se casado no cartório. O casal deixa uma filha: Emanuele, de quatro meses, que ficou em casa com a avó Lourdes no dia do acidente. "Eles foram também à igreja, reconciliaram a vida com Deus. Ela não deixava a bebê por nada e, para ir na oração, eu não sei, ela veio e deixou a nenê com a avó. Eles eram tão cheios de vida. O Fernando trabalhando registrado, menino bom", relembrou. Fernando Jaroz Mendes e Ester Nunes de Oliveira; ao lado a filha Manu Arquivo pessoal/Basílio de Oliveira Para Basílio, ter a neta nos braços é o que o mantém e que o faz querer continuar sendo um bom exemplo para as pessoas. "A Emanuele está só com a gente aqui. De quatro 'mesinhos'. É a coisa mais linda". Lourdes, esposa de Basílio, também diz que mesmo tendo recebido tanto carinho e mensagens das pessoas, é a neta que lhe dá ânimo para enfrentar os dias. "Ela entregou nos meus braços e falou: 'mãe fica com a nenê'. Com essa pandemia, ela achou melhor deixar comigo. A bebê ia estar nos braços dela. Deus sabe das coisas. A Manuzinha é quem está dando força, já que perdemos as nossas princesas", comentou a mãe. 'Cantava como um anjo' Vídeo guardado pela família mostra Jéssica de Oliveira cantando, em preparação para igreja Basílio conta que a filha mais velha, Jéssica, era muito estudiosa e pretendia fazer faculdade. Além disso, após tirar a habilitação para dirigir, também queria comprar um carro. "Cantava na igreja como um anjo, pregava. Uma menina que tinha a alegria dentro dela. Tranquila, simpática, amada, tinha amigos, amigos e amigos", relatou o pai. Segundo o pai, Jéssica sempre foi muito carinhosa e participava com ele dos cultos. A mãe Lourdes também lembra que a filha não pretendia se casar, pois já se sentia muito completa com a sua fé. "Falou para mim que ia ser noiva de Cristo, que não queria se casar. Agora, ela está lá nos braços d'Ele". Na primeira imagem, a filha mais velha, Jéssica; na segunda: Basílio, Lourdes e a outra neta, chamada Valentina Arquivo pessoal/Basílio de Oliveira Apesar de tudo o que aconteceu com a família, Basílio afirma que as filhas e o genro deixaram um legado de amor, sentimento que vai acompanhá-lo por toda a vida. "Deus sempre nos abençoou e tenho certeza que, por mais difícil, lembraremos dos três com imenso carinho e alegria pelo que vivemos antes. Fui pai para elas, sou para os meus dois filhos e, agora, vou cuidar dessa pequena [Manu]. É a missão", completou. Basílio também estava no acidente, mas não foi atingido Arquivo pessoal/Basílio de Oliveira Como tudo aconteceu O acidente ocorreu na noite de 2 de agosto, na Região Metropolitana de Curitiba, no sentido litoral do Paraná. De acordo com a Ecovia, concessionária que administra o trecho, o engavetamento com 22 veículos foi no km 77, perto da Avenida Rui Barbosa. Conforme os bombeiros, tudo começou com um primeiro acidente envolvendo alguns carros, sem gravidade. Segundo os socorristas, um caminhão que viajava pela rodovia tentou desviar dos veículos, mas acabou atropelando quatro ocupantes dos carros que estavam aguardando na lateral da pista. Depois disso, os outros veículos envolvidos também colidiram atrás, ainda conforme os bombeiros. Testemunhas afirmam que a visibilidade no local era baixa, com neblina e fumaça causada por uma queimada na região. Ester, Jéssica e Fernando estavam entre as oito vidas que foram interrompidas. Mais de 20 pessoas ficaram feridas. Vídeo mostra neblina em trecho da BR-277 no momento do acidente A Ecovia confirmou que a visibilidade na rodovia ficou prejudicada em função da fumaça gerada por uma queimada fora da faixa de domínio, próximo à BR-277. O gerente de atendimento ao usuário da empresa, Marcelo Belão, afirmou que a concessionária iniciava o processo de sinalização da pista para que os motoristas reduzissem a velocidade quando as batidas aconteceram. Investigação A Polícia Civil disse que está analisando as condições do condutor de caminhão e as informações do tacógrafo do veículo. O delegado Fábio Machado informou que moradores relataram que o incêndio e a fumaça na rodovia era presente por mais de 10 dias antes do engavetamento. O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-PR) e a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná (Agepar) pediram informações à Ecovia sobre as causas do acidente. A Agepar informou que solicitou imagens das câmeras que registram o fluxo na rodovia e monitora os levantamentos para apurar as causas da série de colisões entre os veículos. A Sulista, empresa para a qual o motorista do caminhão prestava serviço, informou que, no momento do acidente, ele iniciava viagem a caminho de São Paulo, após um final de semana de descanso com a família. Veja mais notícias do estado no G1 Paraná.
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