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Siba volta aos 'galhos iniciais' para apresentar som político e existencialista da 'Coruja Muda'

15 Fevereiro 2020

Criado entre Olinda e cidades do Agreste, cantor e compositor pernambucano faz show da turnê do novo álbum neste sábado (15), às 19h, no festival Rec-Beat, em Caruaru. Siba
canta neste sábado (15) em Caruaru José de Holanda / Divulgação A ligação do cantor e compositor Siba com Caruaru e o Agreste de Pernambuco vai muito além das referências das cantorias de viola. Criado entre as ruas de Olinda e cidades do interior, o cantor e compositor pernambucano faz show da turnê do álbum Coruja Muda neste sábado (15), às 19h, no festival Rec-Beat. O novo disco, o terceiro da carreira solo do artista, foi lançado em setembro de 2019. A obra, que conta com 11 faixas, foi produzida e mixada pelo músico com o produtor João Noronha. O Coruja Muda (ouça abaixo) conta com várias participações especiais, entre elas estão Alessandra Leão, Chico César, Mestre Anderson Miguel, Arto Lindsay, Edgar e Renata Rosa. As músicas do novo trabalho serão o mote principal do show, mas canções do Mestre Ambrósio e do projeto com A Fuloresta do Samba como “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”, "Meu Time", "Ariana", "A Bagaceira" e "A Velha da Capa Preta" estarão presentes no repertório. Além de Siba, também sobem ao palco do Rec-Beat, a partir das 16h, o DJ 440, Gabi da Pele Preta e Frente Cumbiero (Colômbia). Em conversa por telefone com o G1, Siba falou sobre as origens agrestinas, a relação com Caruaru, o tom do trabalho daqui pra frente e o que o silêncio da Coruja Muda tem a nos dizer. Artista vai apresentar show da turnê Coruja Muda José de Holanda/Divulgação Confira abaixo a entrevista com Siba: Siba, sua música sempre foi muito ligada às tradições culturais da Zona da Mata Norte de Pernambuco, mas tem algo de Caruaru, do Agreste, que te influenciou e influencia até hoje? Muito mais do que se imagina. Minha família toda é do Agreste, minhas origens estão aí. Minha família de avós é da região de Lajedo, mas tem uma parte da família em Caruaru e nas cidades ao redor, Garanhuns, Canhotinho, tudo por perto. Então, eu cresci entre Olinda e o Agreste pernambucano e tenho relações com Caruaru até hoje. Várias vezes ao ano vou visitar minha família, tenho realmente um pé de história na cidade. É a terceira vez em quatro anos que você se apresenta em Caruaru. Como é tua relação com o público da cidade? Caruaru, pra falar a verdade, sempre foi um cenário difícil de se chegar como profissional, desde o Mestre Ambrósio. A banda quase não foi para Caruaru. A cidade sempre foi mais fechada para o movimento mais alternativo da música pernambucana, para a cultura popular também, é um espaço mais dominado pela lógica do mercado. Mas, recentemente, começou a ter momentos de abertura. Vai ser a terceira vez que vou retornar à cidade num período relativamente curto. É uma coisa que comemoro, para mim é muito importante, é especial. Quero manter e não quero deixar de ir à Caruaru com uma certa frequência. "O disco é bastante político, mas ele tenta não ser direto por que não dei conta da realidade dura e concreta" Você acredita que se Caruaru tivesse mais festivais e não ficasse tão presa ao São João esse cenário mudaria? A cidade constrói sua própria história, seu próprio São João. Quem sou eu pra questionar o perfil da festa mais importante da cidade e uma das mais importantes do estado. Acho que deveria ser mais diversificado, mas percebo que recentemente o perfil mudou, inclusive na qualidade técnica. Estive aí no São João e o palco dos emboladores, dos poetas, tinha um cuidado que eu nunca tinha visto na cidade antes. É uma coisa que reconheço e comemoro também. A cidade tem uma força econômica muito grande e já permitiria um movimento não totalmente dependente do poder público, pequenas casas, pequenos festivais. Imagino que já deva de algum modo acolher toda cena independente. O disco Coruja Muda reforça o tom político do De Baile Solto [2015] e também aborda questões existenciais utilizando metáforas com animais. Foi uma forma que você encontrou para abordar temas tão densos de forma mais leve, mais lúdica? A situação do nosso país é tão bizarra que o discurso direto se tornou, talvez, impraticável pra mim no momento em que fiz esse disco. Por mais que fosse um discurso direto, que tentasse dar conta da realidade, ele não daria, ele estaria limitado a uma realidade muito mais difícil de ser processada. A gente tem aí um presidente com o perfil que tem, a gente está naturalizando ter a milícia no governo do país, criando leis para permitir a destruição da Amazônia, dos recursos naturais, e todo mundo achando isso natural. Nem a cidade de São Paulo escapa mais do desastre ecológico que a gente tem no horizonte… Sendo uma realidade como essa, tentei inventar um mundo aonde a fronteira entre o que a gente considera humano e animal servisse para pensar toda uma situação. Siba durante apresentação no São João 2019 de Caruaru Allison Lima/Prefeitura de Caruaru Por que lançar em livro e em vinil? Meu trabalho sempre foi baseado no texto como o elemento central. Nesse caso, o livro foi um recurso para oferecer às pessoas que eventualmente comprariam o CD e gostariam de algo físico da música e o CD já não é mais viável. As pessoas podem ouvir a música em vários formatos digitais. Muita gente ficou órfã do objeto em si para lidar com a obra e resolvi fazer o livro para atender essa demanda. Teve muito mais esse objetivo do que propriamente impor uma importância maior a poesia por conta do livro. No Coruja Muda você acredita que conseguiu de alguma forma unir a cultura popular com um som mais elétrico? Acha que conseguiu equilibrar suas referências musicais? Essa é a busca de uma síntese musical e rítmica que seja realmente efetiva. O começo da busca foi no disco anterior [De Baile Solto] e nesse momento do Coruja Muda eu acho que conseguimos uma síntese mais limpa, mais bem resolvida. Mas, cabe a quem escuta chegar a essa conclusão e não a mim dizer. O que principalmente o silêncio dessa Coruja Muda tem a nos dizer? A coruja foi a imagem que encontrei para me posicionar nesse lugar entre o animal e o humano. É o lugar da intuição e de um conhecimento não necessariamente racional e ao mesmo tempo de um respeito pelo mundo em que nós vivemos. Todas as culturas não tão racionais têm tanto para nos ensinar em relação a isso. No nosso caso, a gente deveria ouvir mais as culturas indígenas do nosso país e as heranças africanas como um conhecimento de percepção de mundo mais respeitoso e menos agressivo. Ao mesmo tempo, acho que a gente precisa lutar por uma reformulação de um Estado que seja forte e acolhedor, e responsável pela distribuição das riquezas que esse país tem. Essa é um pouco da mensagem. Existe alguma sonoridade nova e temas que ainda quer experimentar? Tenho experimentado encontros distintos ao longo da minha vida, de vários modos, gosto de fazer isso e tenho feito. Faz tempo que eu namoro com uma possibilidade de me apropriar de uma linguagem um pouco mais eletrônica no meu trabalho, mas ainda não consegui. Basicamente, sinto que o caminho que eu sigo, essa busca pela síntese da música popular de rua, da dança, com a poesia rimada, com a linguagem mais elétrica, possivelmente vai ser o tom do meu trabalho ao longo da vida.

Em breve novidade aqui!!!

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