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Fundador do tradicional bloco As Kengas, Lula Belmont conta trajetória de garçom a dono de boate em Natal

04 Fevereiro 2020

Natural de Serra de São Bento, o empresário se firmou na capital comandando points noturnos culturais no Centro. Lula Belmont foi o fundador do bloco As Kengas, em Natal,
há 37 anos Arquivo Pessoal Luiz Antônio Belmont, o Lula, saiu da pequena Serra de São Bento, no interior potiguar, para ganhar as noites natalenses do final dos anos de 1980 e se firmar enquanto produtor cultural nas décadas que se seguiram. De garçom, tornou-se dono de points noturnos pela capital e é o fundador de um dos blocos carnavalescos mais tradicionais da cidade: As Kengas, que neste 2020 comemora 37 anos. Lula Belmont é filho de Jacina Bezerra e Severino da Costa Belmont, nascido em uma família de 10 irmãos. Mas havia ainda outros 15, divididos em mais dois casamentos de Severino. Morou em Serra de São Bento até os 7 anos de idade. Jacina se mudou com os rebentos para Natal depois do falecimento do marido. Na capital, Lula terminou o primário na Escola Estadual Jerônimo Gueiros e concluiu os estudos Colégio Atheneu. De lá, integrou a primeira turma de Artes da UFRN. Dividia as aulas com o trabalho na lanchonete que a mãe mantinha, na Rua Coronel Cascudo, em frente ao tradicional Bar de Nazaré. Lula também chegou a fazer parte a seleção norteriograndense de vôlei nessa época. Lula Belmont na juventude Arquivo Pessoal Aos 22 anos, ainda universitário, foi contratado como técnico para dar aula no corpo escolar do Estado. Ensinou Artes durante 33 anos na Escola Felipe Guerra, em Petrópolis, onde também dava aulas de reforço de Matemática. “Já morava fora de casa e dava só um expediente no Estado. Foi quando decidi arrumar outro emprego, para ganhar um dinheiro a mais”, relembra. O primeiro foi no Frenesi Café Teatro, na Ribeira. Ficava lá à noite. O estabelecimento pertencia a Arruda Sales, artista que ficou famoso por dar vida à drag queen Danuza D'Salles, uma das primeiras do estado potiguar. A casa apresentava shows de teatro de revista. Do Frenesi, foi à Broadway, uma boate que ficava na Rua Felipe Camarão, na Cidade Alta. Era a segunda da capital com a proposta de atender ao público LGBT. Ela derivara da Equus, a primeira nesse estilo, que funcionava no mesmo prédio anteriormente. Lula era garçom da Broadway. “Eu queria ser relações públicas, mas disseram 'você não tem cara pra isso, não. Só tem vaga pra garçom”, riu. De garçom, em 1983 passou a dono. Lula Belmont arrendou a Broadway e conduziu a boate por um ano. “Trabalhei muito e não ganhei nada”. Com quatro meses de casa, uma manchete de jornal quase acabou com o negócio. Um dos periódicos de maior circulação do estado, que saía aos domingos, estampou “Orgia de drogas na festa gay”, se referindo a um evento que ocorrera no estabelecimento. Lula conta que na noite do sábado anterior à publicação aconteceu em Natal o concurso “Miss Brasil Gay”, com presença, inclusive, da atriz Roberta Close. O concurso de beleza foi sediado no Palácio dos Esportes, mas o after foi na Broadway. A Rua Felipe Camarão ficou tomada, acabou a bebida na boate. “Um sucesso. Quando foi de manhã montaram essa reportagem”. Jornal estampou manchete de ataque a festa e quase acabou com a boate Broadway Reprodução Biblioteca Nacional A Broadway abria de quinta-feira a sábado e, na quinta seguinte, estava quase vazia. Foi assim também na sexta e no fim de semana. “Quem aparecia era de fora, de Recife, ou de João Pessoa. Ficamos loucos e pensamos 'temos que fazer alguma coisa”. Foi aí que surgiu a ideia da festa “Um dia eu sonhei que era assim”. Era uma festa à fantasia que tinha como atração o DJ Júnior Natal. “Júnior tinha amigos em Nova York e no Rio, que mandavam as fitas cassetes com as músicas que estavam tocando nas paradas mundo afora. Naquela época não era fácil, como é hoje, sabermos o que estava acontecendo longe daqui. Então ele fazia muito sucesso”, lembra Lula. A ideia encheu a casa de novo e a Broadway de Natal voltou a dar certo. Contudo, segundo Lula, os ganhos não compensavam e, meses depois, foi fechada. A experiência guiando o barco na boate serviu para gestar um novo projeto, o Vice-Versa. “Um inferninho na madrugada” “Um bar na frente e atrás uma boate, que virava um inferninho na madrugada”, resume Lula Belmont sobre o espaço cultural que foi se estabelecer na mesma casa em que funcionara anos atrás a lanchonete da mãe dele, na Rua Coronel Cascudo. Em 1984, abriu as portas. No começo, era só bar, mesmo, de calçada, com um “dance” no meio. A boate veio depois. Tinha Karaokê, eventos com bandas de diferentes estilos musicais, galeria de arte, lançamentos de livros e rodas de debates sobre temas que estavam em evidência na época. A Ribeira e a Cidade Alta daqueles anos de 1980 tinham outra dinâmica. Havia mais gente morando nos dois bairros, que concentravam também o comércio da capital. “O bar foi sempre muito bem frequentado, sempre com um bom público. Ribeira e Cidade Alta tinham muito movimento de gente”. Lula Belmont (ao centro) acompanhado de Ricardo Nelson (esquerda) e Whorton (direita) no Vice-Versa Arquivo Pessoal Quase sempre amanhecia o dia aberto. Lula Belmont recorda que, à época, os funcionários de bancos trabalhavam até tarde da noite, no Centro, e, quando saíram, procuravam o Vice-Versa. “Nos domingos, às vezes, ficávamos até seis horas da manhã”, recorda. Foi assim por 8 anos, até encerrar as atividades. Bardallos Após o fechamento do Vice-Versa, Lula Belmont passou a se dedicar à produção cultural, cuidando de espetáculos de teatro e de dança. Somente em 2004 voltou a ser dono de bar, após a proposta de um irmão para tomar conta de um prédio na Rua Gonçalves Lêdo, também no Centro. Ali foi fundado o Bardallos Comida & Arte, em um ponto na frente de onde funciona hoje. São quase 15 anos desde então. A sede foi trocada depois que passaram os primeiros seis. “Era uma ideia que eu tinha antes, de fazer um bar de calçada, próximo ao Vice-Versa, que em certa época já estava abrindo mais tarde. Era para ser o esquenta da boate”. Ao contrário do Vice-Versa, o bar fecharia cedo. Bardallos Comida & Arte é o bar que Lula Belmont gerencia altualmente Arquivo Pessoal O Bardallos, que atualmente também serve almoço, segue funcionando em Natal. Às quintas-feiras, após a “Quinta Que Te Quero Samba”, roda que acontece no Beco da Lama, é o destino durante a noite. Aos sábados também abre, normalmente com shows de artistas potiguares. As Kengas Ainda em 1983, quando estava à frente da Broadway, Lula Belmont teve a ideia de fundar um bloco para o desfile de homens vestidos de mulheres. O nome foi pensado para ter duplo sentido: em referência à metade oca de um coco seco - popularmente conhecida como quenga no Nordeste - e às prostitutas, que também são chamadas assim na região nordestina. "O nome do bloco foi sugerido por Marcos Sá (jornalista e produtor cultural)", conta. Uma pequena banda comandou a festa, que aconteceu na frente da boate, onde também ocorreu o desfile das Kengas, para que fosse eleita a mais bem produzida. “Deu uma média de 200 pessoas. Depois a gente passou o chapéu pra pagar a charanga. Não cobriu o dinheiro e eu precisei tirar o valor da cerveja da boate”. Todos os anos Lula Belmont sai junto com o bloco As Kengas, do qual é o fundador Rick Ricardo No ano seguinte, já dono do Vice-Versa, Lula transferiu para lá o bloco e investiu na divulgação. De 200 foliões, passou para mil. Foi crescendo assim ano após ano. Atualmente, As Kengas reúnem em média 15 mil pessoas. Em 2020, o evento voltará para a ser realizado Rua Ulisses Caldas. O bloco tem levado ao carnaval de Natal atrações de expressão nacional. Nos últimos dois carnavais, Baby Consuelo e Sidney Magal passaram pelo palco. As Kengas são um orgulho para o fundador. Aos 63 anos, Lula Belmont continua à frente do Bardallos e conduz também o bloco. Ele não pensa em encerrar tão cedo essa vida de carnaval. “O carnaval é uma troca de energia, onde as classes sociais se misturam em uma só. Viva!”. Lula Belmont no Bardallos, estabelecimento do qual é proprietário atualmente Arquivo Pessoal

Em breve novidade aqui!!!

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