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Um pensador da periferia: youtuber ensina filosofia na quebrada de SP

30 Junho 2020
Audino grava vídeos sobre filosofia para a quebrada Arquivo pessoal

Na Grécia antiga, era chamado de “ágora” qualquer espaço público que sediasse uma reunião ou assembleia por parte dos cidadãos gregos. Nestes locais, pessoas se reuniam para discutir artes, a vida atlética e política. Se fosse no Brasil, a ágora do estudante de história e youtuber Marcelo Henrique Silva Marques, de 18 anos, conhecido como Audino, seria na periferia de Paulínia, interior de São Paulo, em uma praça do bairro Jardim Nossa Senhora.

Com os amigos Jonathan e Paulo, o garoto gosta de “discutir umas ideias de filosofia”. Da última vez, falavam sobre Sócrates, “mas não aquele do futebol”, lembra Audino, que ficou conhecido pelo apelido, que dá nome a um personagem de desenho japonês, graças ao universo dos games, quando começou seu canal na internet.

Há dois anos, Marcelo conseguiu uma bolsa de estudos para cursar licenciatura em história em uma faculdade privada da cidade em que vive. Mas é ao ensinar filosofia para pessoas da periferia e das quebradas que se sente realizado. Por meio de um canal na internet, ele “traduz” autores clássicos de filosofia, como Aristóteles, Espinoza, Platão, Friedrich Nietzsche, Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer para a "rapaziada". Em um de seus vídeos mais assistidos, sintetizou os conhecimentos do alemão Karl Mark, com ajuda das gírias paulistas, para seus seguidores.

“Como comunicador e facilitador, venho passar a visão de uma forma mais simples e mais objetiva."
Marcelo Marques, 18 anos

“Como comunicador e facilitador, venho passar a visão de uma forma mais simples e mais objetiva. Penso na abordagem que Paulo Freire faria: quero tratar os moleques na dignidade deles, usar o vocabulário que eles utilizam”, afirma. “Sou só um cara que eles estão assistindo e pensam ‘esse moleque tem umas ideias bacana’”, diz Marcelo. O objetivo do estudante de história é democratizar a filosofia. “Quero tirar a filosofia de um campo elitista. Se alguém quer entender as ideias, encosta aqui que nóis desenrola.”

Nos vídeos, a metodologista e a didática de Marcelo é a espontaneidade e a naturalidade de quem nasceu na quebrada e quer falar com os jovens da favela. “É uma coisa muito orgânica, vivo na realidade da periferia, então, eu me imagino conversando com um parça meu, numa praça, trocando ideia com a molecada.” Marcelo ressalta que usar gírias e informalidade não é uma estratégia para ter sucesso nas redes sociais.  “Falo como se estivesse no portão trocando ideia com os manos. Tem muito youtuber que usa um dialeto não utiliza na prática, mas a minha abordagem com as gírias é muito natural.”

Um dos vídeos que mais marcou a trajetória de Marcelo é a publicação sobre Nietzsche. Audino começa a gravação anunciando o filósofo como “o mano que vai roubar a sua brisa” e explica pensamentos do filósofo alemão como niilismo e o conceito do “super-homem”. “Muita gente curtiu esse trabalho, pessoas que fizeram TCC sobre ele, pessoas que estudaram Nietzsche a vida inteira, mas o mais importante é que a favela mandou um salve. Os caras do Rio e do Nordeste mandaram um salve. E se chegou na quebrada é a maior satisfação.”

“Quero tirar a filosofia de um campo elitista. Se alguém quer entender as ideias, encosta aqui que nóis desenrola.”
Marcelo Marques

O canal de Audino tem 36,6 mil inscritos e o conteúdo é comentado por professores, estudantes e, sobretudo, jovens da periferia que, a partir da didática de Marcelo começam, a se aproximar de temas considerados áridos na filosofia. “Tuas ideias ajudaram a voar as minhas”, diz um comentário.

“Cada dia que assisto teus vídeos, transcendo outo nível”, escreve outro seguidor. “Nunca tive um professor que explicasse tão bem.” “Tu vai fazer uma diferença enorme na vida de muita gente, levando conhecimento pra quebrada de forma simples.” “Irmão, tu tem uma inteligência absurda, não pelo conteúdo em si, mas por conseguir passar da forma simples direta e atual. Moleque, tu é ‘brabo’.”

Um dos próximos vídeos de Audino será para ‘traduzir’ Aristóteles, que, segundo o estudante, é um dos pensadores clássicos que mais representa as ideias da periferia. “Na Grécia Antiga, Aristóteles tinha um conceito de hereditariedade em que ele dizia: se o pai nasceu artesão, o filho vai ser artesão, se o pai é político, o filho vai ser político, ele quebra esse paradigma. Ele dá uma visão que é a cara da favela.”

“Para Aristóteles, a felicidade se desdobra em dois aspectos: nos objetivos individuais e coletivos. Por exemplo, se você tem um amigo de infância, ele passa no vestibular de medicina, ele vai ser reconhecido em toda a quebrada. Ele traz muitos conceitos de quem está na quebrada. Se você for virtuoso, você poder ser o que você quiser.”

Um dinossauro e a paixão por história

O gosto pela História nasceu na infância de Marcelo, quando a mãe comprava bonecos de dinossauro. “Quando era criança, minha mãe sempre me deu dinossauros e comecei a pegar gosto pelo negócio”, diz Marcelo. Anos depois, ele lembra que, ao assistir as aulas de história, se imaginava no lugar dos professores. “Entre 7ª série e o 2º ano do colegial a ideia de estudar história começou a amadurecer.”

"Se o conteúdo chegar na quebrada eu fico satisfeito", diz Audino
"Se o conteúdo chegar na quebrada eu fico satisfeito", diz Audino Arquivo pessoal

Decidido, Marcelo começou, então, a fazer provas. “Prestei o Enem, mas tirei notas medianas, não estourei, consegui uma bolsa de estudos porque não tinha dinheiro para pagar uma faculdade presencial, o Ensino à Distância foi a oportunidade que surgiu.” Hoje, Marcelo está no 2º ano e cursa o 4º semestre de História em Paulínia. “Quando comecei a estudar, meus parças me pediam para explicar a Revolução Francesa, os caras tiravam dúvidas comigo.”

Para Marcelo, os professores do ensino superior têm dificuldades para se comunicar com estudantes que vêm das periferias. “Por não saber o conhecimento prévio do aluno, o professor fica com um pouco de medo. Acredito que a educação é apara todo mundo e a periferia tem que se inserir nisso.”

"Se eu, que sou acadêmico, já tenho dificuldade para interpretar Tomás de Aquino, que falava latim e pá, imagina quem não é."
Marcelo Marques

Para tentar fazer diferente e fazer a diferença, Audino escolheu a filosofia. “A sociologia e a história chegam na quebrada desde os anos 1990 com os Racionais, o Facção Centra e o rap. Por mais que não seja por meio de alguma instituição de educação, a música que a favela escuta do Djonga, do Mano Brown ensinam muita coisa da sociologia”, diz Marcelo. “Já a filosofia ficou num campo esquecido, das elites. Se eu, que sou acadêmico, já tenho dificuldade para interpretar Tomás de Aquino, que falava latim e pá, imagina quem não é.”

Para Audino, a barreira da linguística é um dos maiores empecilhos para os jovens se aproximarem dos grandes pensadores de filosofia. “Isso torna ela muito elitista. Foi o único campo do conhecimento que não foi democratizado como deveria.”

Projetos, aulas e novos vídeos

Depois de os primeiros vídeos repercutirem na internet, Marcelo diz que conseguiu trocar ideia com gente de todo lugar do Brasil. “Tive contato com muitas pessoas e construí muitos laços”, diz. “Surgiram parcerias com escolas, vários professores me pediram para ir para o Rio de Janeiro e para dar aula em faculdades federais.”

Marcelo quer gravar vídeos sobre a história da escravidão no Brasil
Marcelo quer gravar vídeos sobre a história da escravidão no Brasil Arquivo pessoal

No momento, Marcelo trabalha em uma parceria com uma escola que atende meninos que cumprem medidas no sistema socioeducativo. “Com a pandemia, muitos estavam perdendo o interesse. E esse professor disse também que estava perdendo muito aluno para o crime, para a droga", disee. "Então, ele me chamou para falar para a molecada que largou a escola para o crime. Trocamos muita ideia."

"Gravei um vídeo, falei o nome das quebradas de Miracaia. ‘Disse: você que tem um sonho, vou passar uma visão de progresso.’ E o vídeo repercutiu, muito alunos voltaram a estudar, voltaram para o EAD. Foi muito satisfatório", lembra Marcelo.

Audino, o pensador das quebradas, tem muitos planos para o futuro. “Quero abordar os filósofos mais famosos que caem em provas pra galera poder estudar”, diz. Depois, pensa em gravar uma série de vídeos sobre o período da escravidão no Brasil. “Quero explicar por que os caras moram na favela, quem são os antepassados da favela, a marginalização dos negros”, planeja.

“Quero explicar por que os caras moram na favela, quem seus antepassados, a marginalização dos negros”
Marcelo Marques

Apesar do improviso que confere naturalidade às gravações, Marcelo é exigente com o conteúdo. “Às vezes, gravo umas quatro vezes até ficar bom”, diz. “Até o vídeo de Platão, eu pensava  qual ideia de cada filósofo iria tratar. Separo por tópicos que o pensador fala e traduzo. Dou uma revisada, procuro videoaulas, interpreto da melhor forma possível, anoto palavras chaves e vou desenrolando, mas o vídeo é no pá e no pum, no improviso.”

Apesar de os vídeos gravados por Audino estarem monetizados, ou seja, gerando lucro a partir de anúncios, ele ainda não consegue receber ganhos significativos pelo trabalho. Marcelo organizou uma vaquinha pela internet para conseguir equipamentos básicos para melhorar a transmissão dos vídeos. “Na minha rua, passa o carro do milho, da pamonha e eu gravo com fone de celular. Com tanto barulho, acho que pode perder o foco”, diz ele. “Mas quero fazer isso sem pagar de playboy, a intenção não é perder a ambientação da favela.”

Outro sonho do garoto, que vive com a mãe é, assim que a pandemia permitir, ter condições que ir às escolas, dar uma aula e promover um campeonato de futebol. “Queria aproveitar para ensinar um pouco da história das Olimpíadas, dizer qual era a visão da época. Para o vencedor do campeonato, daria uma ‘juliete’ (óculos colorido) bem chavoso.”

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