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Cidade de SP tem mais de 22 mil crianças à espera de vaga em creche

05 Agosto 2020
Procura por novas creches diminuiu muito após início da quarentena no estado Zanone Fraissat/Folhapress

Enquanto se discute a possibilidade de volta às aulas durante a pandemia de covid-19, mais de 20 mil crianças ainda não conseguiram nem ingressar no sistema de público de educação na cidade de São Paulo. A fila acumula exatamente 22.372 mil crianças de até 3 anos sem vagas em creches. O número mais do que dobrou em seis meses, segundo dados divulgados em junho deste ano pela secretaria municipal de Educação.

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A fila por vagas em creches começou a ser computada pela prefeitura em 2007. A menor taxa desde então foi registrada em dezembro do ano passado. Havia cerca de 9.670 mil crianças na fila. O número reflete uma tendência anual. De março a junho, a fila cresce e atinge um pico. Ao longo do segundo semestre, há um decréscimo e, em dezembro, os números abaixam. 

Quando comparamos os meses de pico do ano passado e deste ano, constata-se uma redução na fila. Houve uma queda 54% em junho de 2020, na comparação com junho de 2019.

Porém, apesar da queda, o número de crianças sem creche pode ser ainda maior, se considerados tanto o comportamento sazonal, como a pandemia do novo coronavírus. Isso porque o aumento considerável da fila, comumente registrado de março a junho, não aconteceu em 2020.

Em março, pouco antes do início da quarentena, a fila acumulava 21.419 mil crianças. Até junho, chegaram mais 953 crianças - um aumento de apenas 4%. "Agora nessa pandemia já não existe mais a procura", disse José Nero, coordenador da Comissão Permanente de Conselhos Tutelares de São Paulo. 

Fila por região

Os bairros campeões de crianças na fila de espera por creches pertencem às periferias da cidade e se concentram na zona sul. Fora da região, destacam-se os distritos de São Rafael (1.037) e Tremembé (1.004), que ficam nos extremos leste e norte da capital, respectivamente. 

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A zona sul concentra as maiores filas, nos bairros de Grajaú, Cidade Ademar e Jardim Ângela. A escolha reflete a realidade de cada distrito, já que a prefeitura não oferece vagas em locais que estejam a mais de 1,5 km da residência das famílias.

O diretor-presidente da Escola do Parlamento e pesquisador do Núcleo de Estudos da Burocracia da FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas), Alexsandro Santos, acredita que a distribuição desigual da fila se explica pela desigualdade de renda. "Demograficamente, os distritos mais vulneráveis tem mais população infantil nesta faixa etária [0 a 3 anos] do que os distritos com menor vulnerabilidade social".

O especialista também explicou que nos distritos mais ricos a demanda de creches é absorvida mais facilmente pelas instituições privadas e pode até ser contida, no caso da família optar por manter os filhos em casa.

"Nas famílias das classes A e B, que vivem majoritariamente nos territórios menos vulneráveis, há uma postergaçao da matrícula de bebês em creches. Em geral, a criança fica o primeiro ano e, muitas vezes, o segundo ano de vida, em cuidados domésticos", pontua.

 

 

 

 

Desigualdade social explica menor acesso às creches nos bairros da periferia
Desigualdade social explica menor acesso às creches nos bairros da periferia Arte/R7
Redução de 82% desde 2013
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Os números analisados desde o início da série histórica (em 2007) apontam para uma redução de 82% na fila desde 2013. Naquele ano, a capital atingiu o pico da série, com 170.472 crianças na fila.

A meta da gestão Covas, que se encerra neste ano, é de criar mais 28,2 mil vagas de creches na capital paulista. Segundo a prefeitura, já foram disponibilizadas 57 mil vagas na gestão atual.

Para Alexsandro Santos, o problema pode ser minimizado com a estratégia atual da prefeitura, de oferecer creches em convênios com associações da sociedade civil. Outros caminhos citados pelo especialista seriam a construção de novas creches públicas (muito mais demorado e caro à gestão municipal) e o uso de "vouchers" na educação.

Neste modelo, a prefeitura ofereceria dinheiro para às famílias escolherem as escolas particulares em que queiram matricular seus filhos, o que Alexsandro explica ser difícil na realidade da cidade de São Paulo. "Tudo indica que em contextos como o nosso (de elevada desigualdade) o modelo é disfuncional, porque as vagas de qualidade da rede privada não estão nos territórios que necessitam de atendimento", concluiu. 

Mães e pais que não encontram vaga podem recorrer aos Conselhos Tutelares da sua região, que requisitam as vagas ao poder municipal. Em último caso, a Defensoria Pública de São Paulo pode ajudar, com ações civis públicas.

A prefeitura ainda planeja criar nas próximas semanas um pacote para pagar por vagas em creches particulares a crianças de 0 a 3 anos que não têm acesso à rede municipal de educação ou que deixaram a rede particular durante a pandemia.  

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