FGV diz que irá apurar suspeita de plágio em dissertação de mestrado do novo ministro da Educação

29 Junho 2020

Ministro cursou mestrado em Administração na Fundação Getúlio Vargas. Na sexta (26), reitor da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, disse que Carlos Alberto Decotelli não concluiu o doutorado
na instituição. Carlos Alberto Decotelli, em foto de fevereiro de 2019 Geraldo Magela/Agência Senado A Fundação Getúlio Vargas (FGV) anunciou neste sábado (27) que vai "apurar os fatos referentes à denúncia de plágio na dissertação do ministro Carlos Alberto Decotelli". A suspeita é que o novo ministro da Educação tenha cometido plágio no trabalho apresentado em 2008 para a conclusão de um mestrado em Administração na instituição. Em nota, a FGV afirma que o orientador da dissertação foi procurado e que, caso seja confirmado um "procedimento inadequado", serão tomadas medidas administrativas e judiciais contra o novo ministro. "A FGV está localizando o professor orientador da dissertação para que ele possa prestar informações acerca do assunto. Caso seja confirmado o procedimento inadequado, a FGV tomará as medidas administrativas e judiciais cabíveis", afirma a instituição em nota. Após polêmica do doutorado, Decotelli é suspeito de plágio na tese de mestrado Procurado pela TV Globo, o ministro Carlos Alberto Decotelli disse que, se cometeu omissões, estas se deveram a falhas técnicas ou metodológicas, e que, por respeito ao direito intelectual dos autores e pesquisadores citados, vai revisar seu trabalho. Caso sejam identificadas omissões, vai procurar viabilizar com a FGV uma solução para corrigi-las, disse o ministro. O Ministério da Educação disse em nota que "o ministro refuta as alegações de dolo, informa que o trabalho foi aprovado pela instituição de ensino e que procurou creditar todos os pesquisadores e autores que serviram de referência e cujo conhecimento contribuiu sobremaneira para enriquecer seu trabalho". (veja a íntegra ao final da reportagem) Em seu currículo público na plataforma Lattes, Decotelli apresenta o título de "Mestrado profissional em Administração" obtido na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2008, com a dissertação "Banrisul: do Proes ao IPO Com Governança Corporativa". No entanto, na dissertação há trechos idênticos aos de um relatório feito em 2007 pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O novo ministro não citou a CVM nas referências bibliográficas do trabalho. Trecho do currículo na plataforma Lattes que menciona o doutorado em Administração que o ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, diz ter Reprodução/CNPq Uma postagem nas redes sociais feita pelo professor universitário Thomas Conti deu início à discussão sobre plágio na dissertação do ministro. Initial plugin text O professor analisou a tese do ministro Decotelli e disse que encontrou vários trechos literalmente copiados de outros, publicados antes, sem o devido crédito. “Só do relatório que foi identificado, a gente tá falando de mais de 10% do texto final que tem trechos literais e isso 10%, considerando todo o texto. Se retirar a parte que é bibliografia, que é anexo, etc, é mais de 10%, bem mais de 10%”, afirma. “Existe o bom senso de que as pessoas podem errar, podem fazer citações erradas, podem esquecer de marcar a pessoa ali, então esse bom senso existe, mas um percentual, pra gente considerar - a partir de tal limite é plágio, isso não existe”, completa. O professor explica que encontrou evidências que precisam ser investigadas. “Você usar trechos literais de uma outra obra é algo normal num trabalho acadêmico, é algo esperado que se faça. Mas sempre citar, as pessoas às vezes têm receio de citar, porque fala: é feio citar "X" autores em uma mesma página. Não, feio é não citar. Esta é uma situação que eu chamaria de grave”, afirma Conti. Doutorado na Argentina O reitor da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, afirmou, nesta sexta-feira (26), que o novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli não concluiu o doutorado e que a tese dele foi reprovada. É o contrário do que o currículo do professor Decotelli registra. Reitor argentino diz que Decotelli não concluiu doutorado na Universidade de Rosário O novo ministro da Educação tratou do processo de transição no MEC. Teve reuniões desde quinta-feira (25). Embora tenha sido uma nomeação inesperada, Carlos Alberto Decotelli da Silva impressionou com o peso do currículo, divulgado pelo presidente Jair Bolsonaro ao anunciar a escolha dele, em rede social: “Decotelli é bacharel em Ciências Econômicas pela UERJ, mestre pela Fundação FGV, doutor pela Universidade de Rosário, Argentina, e pós-doutor pela Universidade de Wuppertal, na Alemanha”. Os títulos de formação acadêmica estão no currículo de Decotelli no site do Ministério da Educação. Esses títulos também estão no currículo Lattes, da página do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPQ. São informações dadas pelo titular, Decotelli, atualizadas e confirmadas nesta sexta-feira, como o doutorado em Administração na Universidade Nacional de Rosário, na Argentina. "Gestão de riscos na modelagem dos preços da soja", ano de obtenção: 2009. Mas o reitor da Universidade de Rosário reagiu à postagem do presidente Bolsonaro dizendo que Carlos Alberto Decotelli da Silva não obteve, na Universidade Nacional de Rosário, o título de doutor. Em nota, o MEC informou que o ministro Carlos Alberto Decotelli da Silva concluiu, em fevereiro de 2009, todos os créditos do doutorado em Administração pela Faculdade de Ciências Econômicas e Estatística da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, e encaminhou cópia de um certificado emitido pela universidade que mostra que Decotelli fez as disciplinas do curso. Ao Jornal Nacional, o reitor argentino confirmou que Decotelli cursou o doutorado na Faculdade de Ciências Econômicas, mas a tese, a conclusão do curso que ele apresentou, não foi aprovada. Assim, o ministro não conseguiu o título, ou seja, não é doutor. Franco Bartolacci disse que Decotelli apresentou a tese em 2016, teve três avaliações desfavoráveis dos integrantes da banca que examinou o estudo. Na noite desta sexta-feira, houve uma nova atualização no currículo Lattes de Decotelli. Agora, o doutorado na Argentina aparece com créditos concluídos e sem defesa de tese. Posicionamento do MEC O Ministério da Educação, com relação aos questionamentos levantados a respeito da formação acadêmica do Ministro Carlos Alberto Decotelli da Silva, esclarece que o ministro cursou o Doutorado em Administração na Universidade de Rosário, na Argentina, no período de 2 de outubro de 2007 a 7 de fevereiro de 2009, tendo sido aprovado em todas as disciplinas com todos os créditos, conforme atesta o certificado emitido pela Universidade. O ministro informou ainda que tem muito orgulho do curso realizado, principalmente por ter sido custeado com seus próprios recursos financeiros e pelo fato de ter sido aceito em tão respeitada instituição de ensino no exterior unicamente em função de sua qualificação acadêmica, construída ao longo da vida com muito esforço e dedicação. Ao final do curso, apresentou uma tese de doutorado que, após avaliação preliminar pela banca designada, não teve sua defesa autorizada. Seria necessário, então, alterar a tese e submetê-la novamente à banca. Contudo, fruto de compromissos no Brasil e, principalmente, do esgotamento dos recursos financeiros pessoais, o ministro viu-se compelido a tomar a difícil decisão de regressar ao país sem o título de Doutor em Administração. Tendo trabalhado como professor de gestão de riscos em derivativos no agronegócio em vários cursos no Brasil, construiu um projeto de pesquisa intitulado “Sustentabilidade e Produtividade na automação de máquinas agrícolas”, que foi submetido à Bergische Universitat Wuppertal, na Alemanha, tendo por base pesquisa específica que teve o apoio da empresa Krone (www.krone.de). A universidade alemã aceitou apoiar o projeto, considerando a relevância do tema, a conclusão e a aprovação em todos os créditos obtidos no curso de Doutorado em Administração na Universidade de Rosário e seus 30 anos de atuação como conceituado professor no Brasil. A pesquisa, que foi orientada pela Dra. Brigitte Edith Ursula Wolf e pelo Dr. Siegfried Maser, foi concluída e publicada em 10 de outubro de 2017. Ressalta-se que, por questões de sigilo em relação aos dados da citada empresa, o acesso ao texto integral da pesquisa está disponível apenas por meio de visita presencial ao cartório de registros acadêmicos na cidade de Koln, na Alemanha. Em abril de 2017, recebeu documento que atesta o registro de seu trabalho. O ministro ressalta que não recebeu títulos em decorrência desta pesquisa. De forma a dirimir quaisquer dúvidas, o ministro já efetuou os devidos ajustes em seu currículo, que, em breve, estarão refletidos nas principais plataformas de divulgação de dados profissionais. Com relação às ilações sobre plágio na dissertação de mestrado intitulada “BANRISUL: do PROES ao IPO com governança corporativa”, apresentada em 2008 à Fundação Getúlio Vargas (FGV), o ministro refuta as alegações de dolo, informa que o trabalho foi aprovado pela instituição de ensino e que procurou creditar todos os pesquisadores e autores que serviram de referência e cujo conhecimento contribuiu sobremaneira para enriquecer seu trabalho. O ministro destaca que, caso tenha cometido quaisquer omissões, estas se deveram a falhas técnicas ou metodológicas. Informa também que, ainda assim, por respeito ao direito intelectual dos autores e pesquisadores citados, revisará seu trabalho e que, caso sejam identificadas omissões, procurará viabilizar junto à FGV uma solução para promover as devidas correções. O ministro informou ainda que este trabalho teve respaldo no período de março de 2004 a dezembro de 2010, quando foi responsável pela capacitação de mais de 3.000 profissionais do BANRISUL, tendo agregado esta vivência profissional e seu conhecimento da cultura do Banco como base de referência para a construção da dissertação, agregando informações públicas disponíveis em sites públicos e privados pertinentes aos relatórios e informações de empresas S.A. de capital aberto.
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