Como é o interior da maior prisão do Afeganistão, que abriga 2 mil presos do Talebã

08 Dezembro 2019

Alerta: Esta reportagem contém descrições que alguns leitores podem achar perturbadoras

A prisão Pul-e-Charkhi, na periferia de Cabul, é cercada por paredes de pedra cinzas e arame farpado, monitorada por torres

de vigilância e protegida por gigantes portões de aço. Dos 10 mil presos, um quinto pertence ao Talebã —o grupo insurgente islâmico linha dura do Afeganistão.

O preso Mawlawi Fazel Bari, um dos membros do Talebã no local, diz que não nasceu lutando, mas depois de cinco anos na prisão, ele nunca se sentiu mais pronto para morrer.

"Tornei-me uma pessoa tão frustrada. Nunca achei que fosse cometer um atentado suicida, mas agora, juro por Deus que vou", ele diz.

Por enquanto, Bari permanecerá encarcerado na prisão de segurança máxima. Mas essa prisão é uma entre várias pelo país que está soltando prisioneiros do Talebã em números sem precedentes, como parte de um gesto de cooperação por parte de um governo que se fechou para negociações de paz.

Image caption Mawlawi Fazel Bari (à direita) lidera várias rezas para outros prisioneiros

O objetivo a longo prazo do Talebã é restaurar o Emirado Islâmico no Afeganistão —seu sistema de governo enquanto estiveram no poder entre 1996 e 2001 — que introduziu a sharia, ou lei islâmica, e um regime em que mulheres eram banidas da vida pública e punições incluíam apedrejamentos e amputações. Não está claro como um regime do Talebã funcionaria.

Centenas de milhares de pessoas morreram no Afeganistão desde que forças americanas derrubaram o governo do Talebã em 2001, incluindo dezenas de milhares de civis.

A reportagem da BBC entrou em Pul-e-Charkhi, que é a maior prisão do Afeganistão, para entender: quem são esses jihadistas, e que futuro enxergam para o Ageganistão?

Durante a visita da BBC, os prisioneiros do Talebã se abriram sobre suas motivações e lamentos, mas foram relutantes em responder sobre atividades específicas. Sabemos, no entanto, que Mawlawi Fazel Bari se juntou ao Talebã 15 anos atrás e se tornou comandante do grupo na província de Helmand, lutando contra forças afegãs e internacionais naquela região.

A pequena cela de Bari é lotada de homens, todos membros do Talebã. Há filas para o corredor — alguns homens estão abaixados em passagens, outro estão olhando de suas treliches. Um preso mais velho está sentado no chão, rezando silenciosamente com suas contas de oração.

O chão é um mar de almofadas e tapetes vermelhos, e sobre quatro paredes há um mosaico de pôsteres mostrando imagens de lugares sagrados para o islã, como Meca e Medina, além de cenas idílicas genéricas, como cachoeiras, buquês de flores, cones de sorvete.

Os presos decoraram sua cela de maneira para que ela evoque uma visão do paraíso, refletindo sua crença fundamental de que se forem mortos em ação, vão direto para o céu.

Próximo às paredes, há estantes improvisadas com livros pesados de literatura islâmica e o Corão.

Image caption Um poster de Medina em uma cela na prisão Pul-e-Charkhi

Bari começa a pregar e todos os olhos se viram para ele. Ele costumava ser um acadêmico, e por isso seus colegas presos o têm em alta conta.

"Eu te digo isso", ele fala, "enquanto houver um soldado estrangeiro no Afeganistão, a paz não é possível."

O Talebã afegão foi acusado de dar um santuário a Osama Bin Laden e ao grupo al-Qaeda — culpado pelos ataques extremistas coordenados nos Estados Unidos em setembro de 2001. Depois de 19 anos de guerra entre o Talebã e as forças americanas, o conflito no Afeganistão agora é o mais longo da história dos EUA.

O presidente americano, Donald Trump, parecia próximo de fechar um acordo com o Talebã em setembro. Mas ele cancelou as negociações de paz repentinamente, depois que os combatentes admitiram responsabilidade por uma explosão em Cabul que matou 12 pessoas, incluindo um soldado americano. Na última semana, Trump anunciou ter feito uma visita ao país asiático para retomar os diálogos de paz.

Os EUA dizem que têm ao menos 13 mil tropas no país. Como parte de um acordo com o Talebã — agora fora da mesa de negociações, depois que as conversas cessaram — o país prometeu reduzi-las para 8.600 dentro dos primeiros cinco meses do acordo. Durante sua campanha em 2016, Trump prometeu que acaria com a guerra dos EUA no Afeganistão.

Mas muitos críticos dizem acreditar que, sem envolver o governo afegão, que por enquanto não foi incluído nas negociações, a retirada de tropas poderia levar o país ao caos.

A sensação de entrar na ala Seis do presídio é a de entrar em um território do Talebã. Os longos corredores são repletos de presos do Talebã andando livremente — fazendo a barba, tomando banho, cozinhando.

Os colegas de cela de Bari são de todo tipo. São professores, agricultores, comerciantes e motoristas que foram julgados e condenados por pertencerem ao Talebã — considerados culpados de exercer uma variedade de papéis, como cobrar impostos, patrulhando como um soldado, plantando bombas.

Membros "sênior" como Bari coordenam o cronograma da prisão, liderando presos pelas horas de reza e estudos islâmicos.

Do nascer do sol ao pôr do sol, rezas são levadas a cabo cinco vezes por dia, intercaladas com estudos que muitas vezes envolve memorizar o Corão. Durante as refeições e banhos de sol, a política costuma dominar as conversas.

Image caption Os prisoneiros na ala seis foram condenados por atuar em vários papéis para o Talebã

Muitos dizem que entraram no Talebã motivados pela vingança, às vezes em retaliação por bombardeios aéreos em seu país.

"Quando as Forças americanas bombardearam minha vila [há 15 anos], meu vizinho e suas duas mulheres morreram, mas seu filho mais novo, um menino chamado Rahmatullah, sobreviveu", diz Bari.

"Eu adotei o menino e o ajudei a estudar. Mas todas as vezes que ele ouvia o som dos helicópteros, ele corria na minha direção gritando: 'Eles vieram me matar!'."

Ele diz que quis entrar na guerra depois de ver "mesquitas demais sendo destruídas, e mulheres e crianças sendo mortas".

Outro membro antigo do Talebã na prisão, Mullah Sultan, também diz que ele queria enfrentar as "atrocidades" que testemunhava.

"Como sou afegão, eu vi que era meu direito levantar a voz e dizer que não aceitava esses invasores", ele diz.

Na última década, a retirada gradual de tropas estrangeiras pela coalizão liderada pelos EUA foi ofuscada por um aumento de bombardeios aéreos, que frequentemente são imprecisos, incluindo perdas civis substanciais.

Na primeira metade de 2019, a ONU disse que mais civis foram mortos pelas forças afegãs e americanas do que pelo Talebã.

No entanto, quando considera-se a última década, forças insurgentes, incluindo o Talebã, foram responsáveis por mais mortes de civis, de acordo com a ONU.

Se os presos do Talebã dizem que o que acontece na guerra os está motivando a entrar no grupo, também está abastecendo seus planos na prisão.

Acredita-se que líderes como Bari recebem sermões de seus superiores, e até de Hibatullah Akhundzada, o líder supremo do Talebã, e passam o que aprendem diretamente para os prisioneiros.

Notícias sobre as conversas de paz, quando estavam sendo levadas a cabo, foram compartilhadas com empolgação.

"Sabemos que os estrangeiros estão cansados", diz Mullah Sultan.

"Acreditamos que estão de joelhos e logo vão embora. Nós, afegãos, vivemos juntos sob o guarda-chuva da sharia [lei islâmica] e um sistema islâmico", ele diz.

Image caption Mullah Sultan diz que quer reinstalar a "sharia" no sistema de governo do Afeganistão

Os prisioneiros do Talebã parecem desfrutar de maiores privilégios que outros prisioneiros, controlando seu próprio cronograma, administrando a madraça (escola religiosa), e tendo acesso a melhores cuidados de saúde e auxílio legal.

Sua união e cadeias de comando aparentam dar-lhe mais influência dentro da prisão. Como resultado, eles às vezes representam toda a população de Pul-e-Charkhi para pedir por melhores condições. Os guardas reconhecem que eles são uma frente unida, que, como outro membro antigo do Talebã, Mawlawi Mamur, conta à BBC, "morreria pelos direitos dos outros".

Os guardas dizem que o relacionamento entre eles e os prisioneiros do Talebã é de colaboração.

"O senso de cooperação é muito forte entre nós e os líderes de prisão do Talebã", diz o guarda Rahmudin, de 28 anos, que cuida da ala Seis.

"Aqui há 2 mil prisioneiros em um dado momento, então precisamos de sua cooperação para resolver os problemas."

Mas greves constantes por prisioneiros do Talebã em Pul-e-Charkhi sobre suas condições sugerem que o relacionamento nem sempre é tranquilo.

Os prisioneiros disseram à BBC que frequentemente fazem greves de fome costurando seus lábios ou aros de bicicleta pelas suas bocas para protestar contra cuidado médico que dizem ser inadequado, andamento judicial demorado e o tratamento ruim por guardas de prisão.

Também há relatórios de prisioneiros do Talebã atacando guardas da prisão, às vezes tomando o controle de parte da prisão. A BBC entrou em contato com o Ministério do Interior para verificar essas alegações mas não recebeu uma resposta. No entanto, regularmente recebe fotos das greves e ligações e mensagens pedindo por ajuda.

Mais cedo neste ano, brigas entre prisioneiros e guardas resultaram na mortes de quatro prisioneiros e ferimentos em outras 33 pessoas, incluindo 20 policiais. Relatos não confirmados dizem que prisioneiros estavam protestando contra a falta de tratamentos de saúde, mas um porta-voz do Ministério do Interior disse à BBC na época que as brigas foram resultado de uma verificação de drogas e foi instigada por traficantes na prisão.

Viver tantos anos em condições tão voláteis serviu para endurecer as atitudes desses prisioneiros.

E alguns deles já foram, ou ainda serão, soltos em volume inédito. O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, disse em junho que 887 prisioneiros do Talebã seriam libertados de Pul-e-Charkhi e outras prisões pelo país. É tradicional que o presidente anuncie dezenas de libertações de prisioneiros para que celebrem o festival islânico de Eid, mas esse foi um gesto que críticos interpretaram como uma demonstração de poder por um governo excluído das conversas de paz entre os Estados Unidos e o Talebã.

O Talebã se recusou a negociar com o governo, já que não reconhece sua legitimidade.

Bari vai servir sua sentença por mais dois anos, embora ele deixe claro que, quando for libertado, continuará sua jihad, ou guerra santa.

"Quando eu for libertado, vou voltar para o combate. Antes eu estava 20% comprometido, mas agora estou 100% em seguir com a jihad e defender meu país."

Território Talebã

Um dos que foram soltos sob perdão presidencial é seu amigo e colega de cela, Qari Sayed Muhammed, 32, agora em casa em território talebã, na província Balkh, no norte do Afeganistão, depois de seis anos na prisão Pul-e-Charkhi.

Image caption Qari Sayed Muhammed com suas filhas

Como o único membro homem de sua família — seu pai e dois irmãos foram mortos enquanto ele estava na prisão — ele diz que, por agora, ele deve ficar em casa e administrar a fazenda da família.

Ele diz acreditar que, daqueles prisioneiros liberados recentemente, ele é um dos poucos que ainda estão vivos.

"Eu acredito que 95% dos que saíram da prisão entraram de novo no Talebã e muitos deles já morreram", ele diz só 20 dias depois de voltar pra casa.

Enquanto seu colega de cela Bari foi motivado por vingança, Muhammad diz que ele entrou inicialmente no Talebã —aos 18 anos, ao lado de 15 de seus amigos— como uma forma de escapar do assédio policial.

"O assédio faz parte da vida na vila. Frequentemente, quando uma pessoa conta para a polícia mentiras sobre nós, a polícia vinha e nos ameaçava. Então pensamos que, se vão nos prender, de qualquer forma, podemos agarrar nossos destinos com as próprias mãos."

Violência e corrupção dentro das forças afegãs foram reconhecidas por diversas organizações de direitos humanos como um problema que atinge todo o país.

Existem, contudo, várias razões para um jovem afegão se juntar ao Talebã: a reação a tiros, bombardeios, desemprego, desejo por equipamentos de guerra, como armas, veículos e munição, que eles podem vender mais tarde, e pressão de amigos.

Um dos primeiros trabalhos de Muhammed para o Talebã foi recolher seus impostos mandatários. De moto em um grupo de seis homens ou menos, ele pedia dinheiro de cada fazenda de ópio —legal em território do Talebã— em quatro distritos.

Como um soldado, ele seguia uma clara linha de comando, de governador até seu comandante militar, até diversos tenentes. Muhammed diz que não havia salário oficial, mas seus gastos eram cobertos, de munição a combustível e crédito de celular.

Ele diz que três anos depois —com uma guerra se intensificando pelo país— sua motivação mudou, e ele abraçou o jihad do Talebã ou guerra santa contra todas as tropas externas.

"Eu tinha 21 anos quando coloquei uma arma sobre meu ombro. Lembro de pensar que estava entrando em uma batalha contra infiéis pela defesa dos muçulmanos. Esse pensamento ficou comigo e ficará até o fim."

Seguindo a ideologia de um jihadista, ele diz que quando temia por sua vida, tentava evitar preocupações com a família e pensava que estaria cumprindo seu dever religioso se fosse morto.

Ele descreve a missão durante a qual sua unidade foi vítima de uma emboscada, e estavam atirando nele com uma metralhadora russa.

"É durante esses momentos que seu cérebro começa a trabalhar muito rápido. Você começa a pensar: 'O que vai acontecer com minha casa? Meus filhos? Minha mulher?' É quando o diabo tenta te distrair, te tentando a pensar sobre sua família. Mas eu tentei focar toda minha atenção para o fato de que eu estava servindo Alá."

Muhammed foi capturada pelo serviço de inteligência afegã em 2013 e foi enviado para a prisão Pul-e-charki.

Ele diz acreditar que, dos 15 jovens homens que saíram de sua vila com ele para entrar no Talebã, só dois estão vivos.

Território do governo

Depois de décadas de guerra, o Afeganistão se tornou um mosaico de diferentes territórios. Só 20% a 30% do país é controlado pelo governo, e o Talebã agora controla ou contesta mais território no Afeganistão do que jamais chegou a controlar desde 2001, segundo pesquisas de outubro do site de notícias americano Long War Journal, que informa sobre a guerra ao terror.

Oportunidades para jovens homens nesse Afeganistão destruído pela guerra são rarefeitas, e portanto muitos sentem que a escolha óbvia é se juntar ao combate. Muitas vezes, no entanto, o lugar onde um homem nasce pode determinar de que lado ele ficará na luta.

Aos 24 anos e morando mora na província Kunar, no leste do Afeganistão, Nematullah decidiu dedicar sua vida ao Exército nacional do país.

Sua história reflete o potencial de caos burocrático em uma nação em turbulência.

Depois de três anos viajando e lutando por diversas partes do Afeganistão, Nematullah e sua unidade foram enviados para proteger um posto na região montanhosa de Chinartu, na província Uruzgan.

Pequenas células do Talebã frequentemente atacavam o posto. Nematullah e seus colegas soldados se acostumaram à rotina de troca tiros até que seus adversários recuassem.

Uma noite, porém, o Talebã promoveu um grande ataque. E a unidade de Nematullah foi surpreendida.

"O combate durou para sempre, até que o sol nasceu e nossa munição acabou", conta ele.

"Eles nos algemaram e nos venderam. E nos bateram com a parte de trás de suas armas. Nos chamaram de infiéis, escravos dos não muçulmanos. Enquanto nos guiavam, eu estava contando cada passo em direção à morte."

Só dias depois, a família de Nematullah foi contatada pelo Ministério da Defesa do Afeganistão, que lhe informou que seu filho havia sido morto e eles deveriam ir recolher seu corpo no necrotério.

A família recebeu um caixão fechado e realizou um funeral para o filho que perdeu. Disseram que o caixão havia sido lacrado porque seu corpo não estava em um estado em que poderia ser reconhecido.

Durante 18 meses, sua família, incluindo sua noiva, continuaram a fazer visitar diárias a seu túmulo, levando flores e rezando.

Enquanto isso, em Uruzgan, Nematullah havia sido levado para as profundezas das montanhas, em uma rede intrincada e gigante de carvernas. Junto com outro 54 prisioneiros, ele foi obrigado a cavar nas pedras sua própria cela.

Por um ano e meio, ele compartilhou a cela que ele mesmo construiu com 11 outros homens —todos do Exército afegão ou da polícia. Suas mãos e pés ficavam acorrentados durante quase 24 horas por dia.

Nematullah se lembra de que o Talebã lhes dava pouquíssimo pão para comer, e da monotonia do cativeiro ser tão ruim quanto a fome. Até que finalmente, uma noite, perto da meia-noie, ele e seus companheiros de cela foram acordados pelo som ensurdecedor de explosões ao redor deles.

Eles estavam diretamente sob um ataque aéreo, e a destruição que causou permitiu com que eles se libertassem.

A primeira coisa que ele fez foi ligar para seu pai.

"'Sou eu, Nemat', eu disse. E meu pai respondeu: 'Que Nemat?'. 'Seu filho', eu disse. Mas ainda assim ele não acreditou em mim."

Só depois de várias selfies enviadas por ele, seu pai finalmente acreditou que seu filho estava vivo.

Quando voltou para a casa em Kunar, no primeiro dia do feriado sagrado de Ramadã, a informação de que ele estava vivo já havia se espalhado. Uma festa foi organizada para ele, mas antes de reencontrar sua família, Nematullah tinha uma importante visita a fazer — ao túmulo de seu companheiro, o soldado que foi confundido com ele, para lhe oferecer uma oração.

Image caption Nematullah no túmulo de um soldado cujo corpo foi tomado como se fosse o dele

Desde seu retorno, Nematullah e sua esposa, com quem casou recentemente, não cessaram as visitas diárias ao túmulo do soldado não identificado. Eles dizem que agora ele é seu irmão e é responsabilidade sua.

Casos de identidade trocada não são raros —a BBC apurou sobre diversos incidentes do tipo, de soldados afegãos sequestrados voltando para a casa e verem que sua família havia enterrado o corpo errado depois de receber um caixão lacrado do governo. Apesar de vários pedidos, o governo afegão se recusou a comentar.

Quanto a Nematullah, embora esteja traumatizado pelo tempo no cativeiro, ele diz que deve retornar ao combate e continuar a servir seu país.

O preço da paz

Décadas de guerra deixaram muitos civis paralisados, e aqueles com menos poder sujeitos à maior insegurança são mulheres e crianças.

Para aquelas mulheres vivendo em cidades controladas pelo governo, a vida mudou de forma dramática em relação a quando eram controladas pelo Talebã. Com a formação de um governo eleito e forças afegãs e de aliados criando um nível de segurança relativamente bom, mais meninas vão para escolas, e mais mulheres vão trabalhar.

Sob a gestão do Talebã, o acesso à educação das meninas foi quase zero.

Desde então, a alfabetização de meninas adolescentes aumentou para 37%, embora essa taxa ainda seja uma das menores do mundo.

No entanto, para aquelas vivendo nas áreas controladas pelo Talebã, o acesso a educação e ao trabalho ainda é limitado, e muitas temem que onde o grupo ganhar mais poder, sua liberdade será ainda mais limitada.

"As mulheres perderão, é claro", diz Nargis, uma professora de 30 anos mãe de seis que mora no norte de Cabul.

Image caption Nargis (à direita) com sua filha Sola (no centro) e cunhada Shakira (à esquerda)

"Elas não serão permitidas a receber uma educação ou ir para o trabalho."

O Talebã já declarou que agora está comprometido com os direitos das mulheres, mas muitos críticos são céticos.

É o caso de Nargis.

"Duvido que o Talebã tenha mudado. Porque enquanto estão em conversas por paz, as explosões continuam, matando nossos irmãos e mães muçulmanos. Que mudança é essa?"

Nargis diz que a chegada do Talebã e a agitação subsequente é a razão pela qual ela não recebeu uma formação.

"Eu estava na quarta série da escola quando o Talebã veio. O combate começou e as escolas foram fechadas. As meninas não podiam deixar suas casas. Eu tinha apenas nove ou dez anos quando tive que usar o lenço e ficar sentada em casa, nunca saindo dali por medo. Depois, migramos para o Paquistão —a escola foi deixada para trás. Depois de voltar para a casa, eu entendo que perdi muito."

Ela é categórica ao afirmar que sua filha mais nova, Sola, de 8 anos, que atualmente está na escola, não terá o mesmo destino.

Sola, porém, já foi educada sobre a violência da guerra —recentemente, ela testemunhou o horror de um ataque suicida de um homem-bomba do Talebã.

"Eu vi a bomba estourar. Eu vi pessoas jovens morrerem", ela diz. "Eu estava muito assustada, chorando. Minha mãe me segurou, me colocou dentro de um táxi e nos trouxe para casa."

Com a violência diária espalhada pelo Afeganistão, negociações de paz parecem ser a única esperança por mudança no país. Colocar primeiro os Estados Unidos e o Talebã para negociarem, e depois incluir o governo afegão nas conversas, contudo, parece uma ordem difícil das coisas.

Image caption Centenas de milhares de pessoas já morreram no conflito no Afeganistão

O governo afegão diz que só se encontrará com o Talebã se um cessar-fogo de um mês for acordado por todos os lados. Em resposta, o Talebã disse que só sentará para negociar com o governo depois de uma retirada completa de tropas estrangeiras do país.

Então, talvez não seja tão surpreendente que civis como Nargis sejam céticos em relação a qualquer mudança duradoura no país.

"Não acho que a paz virá. O Afeganistão virou um pano que cada um puxa para um lado diferente. É difícil distinguir quem é amigo e quem é inimigo", ela diz.

"Se são os americanos, o Talebã ou o governo que vão tomar o controle, nossa demanda é apenas a paz."

*Alguns nomes foram modificados.

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