7 de Setembro de 1932, quando a Guerra Cívica parou

14 Novembro 2019
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Sérgio Marques

A clara alvorada invernal de 7 de setembro de 1932, Dia da Independência da Pátria, quarta-feira, testemunhou dois Exércitos adversários de um mesmo Brasil, de uma mesma gente

7 de setembro

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Foto: Tudo Por São Paulo

Quase dois meses se passaram desde a “Clarinada de 9 de Julho”. Soldados Constitucionalistas e Ditatoriais (que apoiavam Getúlio Vargas) guerreavam em todos os pontos cardeais das áreas fronteiriças do Estado de São Paulo. Muitas mortes, de ambos os lados, consumiam aqueles bravos guerreiros do Brasil! Dois lados da mesma Bandeira...

O Governo Ditatorial do Catete (sede do Executivo Federal), por meio de intensa propaganda pelo rádio, caracterizava falsamente o Movimento de 1932 com o rótulo de “Separatista”, pregando que o Estado de São Paulo lutava por sua independência em relação ao Brasil.

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Desde o final do século XIX houve intensa imigração para o Estado, especialmente, oriunda da Itália. O Governo de Getúlio Vargas alegava que o “Separatismo Paulista” era encabeçado pelos imigrantes italianos. Outra argumentação do Governo de Getúlio dizia que São Paulo era liderado por comunistas, “inimigos da religião e da pátria”, com o mesmo propósito Separatista. Mais uma variação, agora de índole fascista, os mesmos “italianos” estavam a serviço do líder italiano Benito Mussolini e São Paulo seria uma colônia fascista no Brasil.

As tropas do Norte e Nordeste, direcionadas para lutar contra os Constitucionalistas, eram tradicionalmente de regiões de intensa influência católica. Vinham com o propósito de luta para libertar o Estado de São Paulo do domínio estrangeiro e destruir o “Separatismo”, uma verdadeira “cruzada patriótica-cívico-religiosa”.

A Propaganda, nova faceta da Guerra, foi largamente utilizada pelo Getulismo para desacreditar o real ideal Constitucional também fora dos campos de batalha. Com estratégia similar, a partir do ano seguinte, na Alemanha, com a assunção de Adolf Hitler, uma de suas primeiras medidas fora a criação do Ministério da Propaganda, encabeçada por seu discípulo Joseph Goebbels. O resultado do nazismo germânico e sua “propaganda mentirosa” são amplamente conhecidos...

Uma lição a ser aprendida nos dias atuais é que a manipulação política pode distorcer a realidade em favor de determinados grupos, inclusive, com a utilização da mídia para influenciar as massas com informações e meias verdades.

Para quebrar o argumento Separatista Getulista, um fato pouco conhecido para o público, que entraria na memória da História Militar mundial: o hasteamento de nossa Bandeira durante a Guerra Cívica de 1932, cujos protagonistas, dos dois lados, foram atores e público ao mesmo tempo.

Testemunha presencial, a quem coube o comandamento para erguer o Pavilhão Nacional na ocasião foi o capitão Reynaldo Saldanha da Gama. Era, em 1922, cadete da Escola Militar do Realengo, do Exército Brasileiro, na cidade do Rio de Janeiro. Sendo um dos inúmeros cadetes participantes do Movimento debelado, chamado de “Revolta dos 18 do Forte de Copacabana”, foi preso e, logo após, solto, exonerando-se do Exército. Após esse conturbado período graduou-se em Engenharia. Depois da vitória Getulista, na Revolução Outubrista de 1930, os cadetes de 1922 foram anistiados e Saldanha da Gama foi reincorporado ao Exército. Em 1931 foi comissionado oficial da Força Pública Paulista (atual PMESP). Ao final da Revolução de 1932 foi um dos Constitucionalistas exilados em Portugal. Posteriormente, tornou-se catedrático de Mineralogia, na Universidade de São Paulo- USP bem como Presidente da Sociedade de Veteranos de 32- MMDC.

Na ocasião, o capitão Saldanha da Gama era o comandante do Batalhão Auxiliar da Força Pública, composto de voluntários, conhecido por Batalhão Saldanha, em sua homenagem.

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Os fatos se desenvolveram na Frente Norte de combate, mais especificamente, no Túnel da Mantiqueira, na Garganta do Embaú, localizado logo acima do Túnel, há 1.100 metros de altitude. Na Serra, dominada pelos constitucionalistas, destacava-se o local denominado Morro do Canhão (assim chamado, pois ali fora postado um canhão constitucionalista, de 105 mm). Na região, fronteiriça e estratégica entre os Estados de São Paulo (cidade de Cruzeiro) e Minas Gerais (cidade de Passa Quatro), a Bandeira do Brasil foi desfraldada, com um diferencial. Antes, porém, calou-se a artilharia constitucionalista, além de também silenciar as metralhadoras e os fuzis.

Revolução de 1932 - Em 1932%2C em imagem histórica%2C Soldados Constitucionalistas%2C em guarda%2C na entrada do túnel%2C pela passagem mineira

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Foto: Divulgação

Os Soldados Constitucionalistas (Paulistas de nascimento ou de coração), no “celeiro de heróis da Revolução”, o Capitão Reynaldo Saldanha da Gama, nas trincheiras pelo lado Paulista, deslocou-se para o ponto mais elevado do morro.

Acompanhavam-no 4 soldados, com clarins, todos do 2º GAP (Grupo de Artilharia Pesado, do Exército Brasileiro, sediado em Quitaúna, bairro da cidade de Osasco, na Capital), uma guarda à Bandeira e demais Oficiais do QG- Quartel General. Finalizava a composição da comitiva um mastro improvisado, longo e tosco bambu verde e amarelo, que carregava a Bandeira Brasileira.

O próprio mandante da façanha (que não se esqueceu do memorável dia, apesar das agruras da guerra), tenente - coronel Theófilo Ramos, da Força Pública Paulista, estava presente. Era comandante do 2º BCP (atual 2º BPM/M, que realiza o policiamento no bairro da Penha e arredores, na Capital). Alcançando o cimo da elevação, por volta das 07h00, balas adversárias assobiavam sobre eles.

Perfilada a tropa, o capitão Saldanha da Gama comandou: - “Sentido!”. Pouquíssimos segundos após, ordenou: - “Em Continência à Bandeira, Apresentar, Armas!”. Os clarins, com o fôlego máximo dos 4 combatentes, cantaram o famoso toque, a “MARCHA BATIDA” (composta em 1894, lavra do Major Joaquim Antão Fernandes, da Força Pública Paulista, o mesmo ritmo que ainda é executada nos quartéis de norte a sul do país).

Paulistas convocados para Guerra Cívica

Paulistas convocados para Guerra Cívica

Foto: Divulgação

Talvez envergonhados, os disparos “do lado de lá”, do outro lado da montanha, cessaram...
Concomitantemente, o improvisado bambu elevou nosso Pavilhão naquela congelante colina. O desfraldar da Bandeira Nacional estava em curso. O eco dos clarins, transitoriamente, substituíram o soar das metralhadoras e o uivo das granadas...

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Durante a execução do toque, o Exército Constitucionalista, formado por membros da Força Pública, do Exército Nacional bem como por voluntários (veja em: encurtador.com.br/dmyB5), em reverência ao nosso Símbolo Maior, perfilou-se, em pé, no parapeito de suas trincheiras. Total era o desprezo ao inimigo, que ficara tímido com a ação inesperada, corajosa e patriótica.

No decorrer do ataque dos clarins cívicos, naqueles segundos preciosos, como uma “coreografia vocal ufanista”, de trincheira em trincheira o brado era repetido: “Viva o Brasil! Viva São Paulo! Viva a Constituição!”.

Entretanto, o inesperado aconteceu, fato raro que só se sucede com os nobres de consciência.

Do outro lado daquelas formações montanhosas, visíveis a poucas centenas de metros do Exército Constitucionalista, rente aos canhões e metralhadoras estava o adversário, o inimigo da ocasião, as tropas Ditatoriais.

Sem nenhuma ordem formal, de mesmo modo, com marcialidade, igualmente expondo suas silhuetas ao morticínio, prestaram continência à Bandeira verde-amarela. Repetiram a mesma frase constitucionalista: “Viva o Brasil! Viva São Paulo! Viva a Constituição!”, segundo testemunho do próprio capitão Saldanha da Gama, em entrevista concedida no ano de 1970.

Todas as Trincheiras ficaram em pé! Por um breve momento, pelo toque do clarim, com duração média de um minuto, a Guerra foi calada.

Com a última partitura executada, com a Bandeira já no alto do mastro, tremulante, em destaque no horizonte, outro comando do Oficial: - “Descansar, Armas!”, obedecida por nossa tropa. Automaticamente, balas, “vindas de lá”, com o zunir dos fuzis, felizmente, sem atingir ninguém, anunciava o término da breve trégua. Era o recomeço da barbárie, que alimentou o anjo da morte e ceifou a vida de inúmeros outros brasileiros, sob o olhar atônico, estático e estarrecido da “Mãe- Bandeira”. Ela, gélida, impotente e inerte, observou, diante de seus olhos, do alto da Serra, os filhos, sobre seu ventre macio, desenrolando uma luta fratricida, uma luta entre irmãos...

Como a data era especial, o café da manhã foi comemorativo, porque o serviço de abastecimento melhorou a boia dos soldados, com latas de conserva, doces, sardinha e refrescos.

No final do dia, quando o Sol se despedia da Mantiqueira, o capitão Arcy da Rocha Nóbrega, artilheiro do Exército Brasileiro, convocou a Oficialidade para assistir ao arriamento do Pavilhão Nacional. Similar ao ocorrido pela manhã, os clarins do 2º GAP tocaram, enquanto, suavemente, a Bandeira descia do mastro. Os Ditatoriais, em respeito, cessaram a fuzilaria, enquanto seus soldados mais uma vez ficaram de pé na Serra, magnetizados pelo momento solene.

 7 de setembro precisa ser lembrado pelos nossos diretores brasileiros da “Sétima Arte”

7 de setembro precisa ser lembrado pelos nossos diretores brasileiros da “Sétima Arte”

Foto: Divulgação

Por tradição militar, fechando o evento, haveria o disparo de uma salva de 21 tiros de canhão. Entretanto, faltavam granadas constitucionalistas... Por improvisação, 21 foguetes foram lançados. Com a explosão do 1º, os Ditatoriais se esconderam, imaginando um ataque, mas, verificando a situação, voltaram a contemplar o acontecimento.

Quando o 21º foguete enviado explodiu no céu, o fusco lusco já dominava aquelas bandas. Os “Soldados de lá” ainda admiravam aquele mastro de bambu, à distância, nua, sem a “Manta Sagrada”. O silêncio, ensurdecedor e mortífero, imperou por algum tempo naquela rápida trégua, pois nem pássaros e grilos anunciavam suas presenças...

Já noite, a primeira rajada era dirigida contra as trincheiras constitucionalistas, com a devida resposta, em forma de aço e chumbo. A proximidade dos oponentes, mediada pela “terra-de-ninguém”, ouviam-se os insultos recíprocos entre os combatentes. Tudo voltava à diabólica normalidade na Mantiqueira, local onde imperou, naqueles dias, o “deus da guerra”.

Ainda em “7 de setembro”, no interregno entre o hasteamento e o arriamento, sucumbiu o cabo Plácido Barbosa, integrante do Corpo de Bombeiros da Força Pública, que trocara o assovio das sirenes pelo o silvo das granadas. Pela manhã tivera tempo de assistir sua última comemoração cívica. Nascido em Bragança Paulista, em 1914, recebera gravíssimos ferimentos em combate, falecendo no Hospital de Sangue de Cruzeiro- SP, cidade ao lado do Túnel da Mantiqueira. Uma Rua, na Vila Carrão, zona leste de São Paulo, homenageou sua lembrança com seu nome.

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Após muitas mortes de lado a lado, somente em 02 de outubro de 1932 seria assinado o armistício, na Escola Arnolfo de Azevedo, em Cruzeiro- SP, dando fim ao martírio daqueles valentes, indistintamente! A cidade de Cruzeiro, por força da Lei Estadual 13.203/08, é a Capital da Revolução Constitucionalista de 1932.

Na historiografia mundial fato similar ocorreu na véspera do Natal de 1914, em plena I Guerra Mundial, quando soldados ingleses e alemães se confraternizaram, na chamada Trégua de Natal, nas trincheiras na Bélgica.

Fica aqui um convite aos nossos capacitados diretores brasileiros da “Sétima Arte” para a confecção de filmes sobre 1932, com o intuito de explanarem valores universais como lealdade, honra, dever, coragem, civismo etc., trilha tão necessária aos rumos do Brasil! O texto é uma homenagem ao Museu Nacional- MN, na cidade do Rio de Janeiro, destruído por um incêndio, no último domingo, 02 de setembro de 2018, em plena Semana da Pátria!

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