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Cuba: o desafio da restauração e conservação do patrimônio de 500 anos de Havana

16 Novembro 2019

A cidade completa 500 anos de sua fundação neste sábado, 16 de novembro, com séculos de uma rica e não menos complexa história, mas também com inumeráveis desafios, entre
eles, a restauração e a manutenção de sua valiosa arquitetura. O centro histórico da capital cubana, Habana Vieja Daniella Franco/RFI Havana habita o imaginário de viajantes do mundo inteiro – seja daqueles que por aqui passaram e se encantaram com a inestimável beleza da capital cubana ou daqueles que ainda não puderam ter o privilégio de visitá-la, mas que sonham com as vibrantes e calientes ruas de “la niña bonita de la colônia”, como era chamada pelos colonizadores espanhóis. A cidade completa 500 anos de sua fundação neste sábado, 16 de novembro, com séculos de uma rica e não menos complexa história, mas também com inumeráveis desafios, entre eles, a restauração e a manutenção de sua valiosa arquitetura. Da colonização espanhola à Revolução Cubana, dos livros de Hemingway às cenas do premiado longa “Morango e Chocolate”, de Tomas Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabio, de 1994, que levou a capital de Cuba às telonas de todo o mundo. Havana está no mambo de Buena Vista Social Club, está no pop de Camilla Cabello. “Baby make me loco. Baby make me mambo”, cantavam os punk rockers dos Ramones, que descrevem em inglês – sem dúvida, a segunda língua mais falada na capital cubana – o sentimento que é a experiência única de viver ou passear na capital cubana. Com a arquitetura da cidade que atravessou séculos de história, o panorama não é diferente. “São muitas Havanas dentro de Havana”, descreve Maria Victoria Zardoya, arquiteta e diretora do Centro de Estudos Urbanos da capital e professora de História de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de La Habana. A especialista lembra que junto com todo o simbolismo em torno do aniversário de 500 anos da capital, está a meta determinada pelas autoridades e todos os esforços para a restauração de prédios e monumentos históricos do local. “Muitos eventos foram realizados neste ano dentro desta temática. A celebração dos 500 anos também se tornou um pretexto para realizar colóquios e conferências para que as pessoas sintam que pertencem a essa cidade, compreendendo o valor deste patrimônio. E, claro, tudo isso se reverte de forma muito positiva para a capital”, avalia. A arquitetura de Havana atravessou séculos de história Daniella Franco/RFI De fato, o sentimento dos cubanos sobre Havana é unânime, sejam eles partidários ou opositores ao governo. A festa do aniversário dos 500 anos levou milhares de pessoas às ruas na noite de sexta-feira (15), em uma demonstração de amor pela cidade que os habitantes fazem questão de exaltar. “Desde sua fundação, em 1519, passando pela Revolução, estamos vendo todos os processos pelos quais passaram Havana. É admirável como a cidade sobreviveu todo esse tempo e tenho certeza vai continuar se desenvolvendo e crescendo. Estou muito feliz de viver em Havana e de estar aqui hoje para celebrar esse aniversário”, diz o estudante Adrian Martinez Pérez. Desafios: restauração e manutenção A restauração do centro histórico, conhecido como Habana Vieja, durou décadas e valeu o selo da Unesco de Patrimônio da Humanidade, em 1982. O grande desafio dos especialistas é agora levar esse trabalho para além desse núcleo turístico. Uma tarefa complexa não apenas pelo investimento necessário, como para respeitar a originalidade de prédios que datam do Período Barroco, mas também transitam pelo Neoclássico, Art Nouveau, Art Déco e Modernismo. “Havana é uma cidade privilegiada, com uma cultura muito valiosa. Tem sua identidade própria neste conjunto de capitais da colonização espanhola nas Américas. Além disso, é uma das cidades desta região que melhor conseguiu conservar seu patrimônio, graças a medidas empregadas desde a época da Revolução. Por exemplo, nenhuma outra cidade da América Latina tem tantos castelos e fortalezas como a capital cubana”, destaca o historiador Arturo Pedroso. Prédios restaurados de Habana Vieja Daniella Franco/RFI Para a conservação desse patrimônio, o governo estabeleceu há quase 25 anos o chamado Plano Maestro que, junto à Oficina do Historiador, estabelece estratégias de desenvolvimento nos campos social, econômico e cultural para a restauração e a ordem urbana na região do centro histórico. A prioridade, segundo Niurka Cruz, subdiretora do Plano Maestro, é dar uma função social aos espaços para que sejam mantidos vivos. “É preciso levar em consideração essa necessidade de coexistência desse patrimônio com os moradores e os turistas que vêm de todo o mundo conhecer a capital. Ter esse plano estratégico nos ajudou a definir onde queremos chegar, com regulações urbanas e mecanismos que nos ajudam a cumpri-lo. E, especialmente, estamos realizando um grande trabalho de comunicação, para garantir que podemos cumprir essas metas da melhor maneira para não prejudicar esse patrimônio, que muitas vezes é utilizado como moradia pelos habitantes”, diz. Habana Vieja, o centro histórico da capital cubana Daniella Franco/RFI Cinco milhões de turistas O turismo, uma das áreas estratégicas da economia cubana é um ponto-chave nos trabalhos de restauração de Havana. Quase cinco milhões de pessoas visitam a capital da ilha todos os anos, embora as autoridades já antecipem que as políticas adotadas pelo presidente americano, Donald Trump – reduzindo a quantidade de voos e cruzeiros dos Estados Unidos a Cuba – possam afetar o setor. Mas não tanto a ponto de preocupar demasiadamente as autoridades, já que, com a abertura da ilha, a partir do governo de Raul Castro, cada vez mais visitantes de outros países desembarcam nos aeroportos e portos cubanos. “O turismo em Havana começou no século 19 com viajantes europeus e americanos. Em Cuba, temos um clima favorável para o turismo de praia, mas também muita gente é atraída pelo turismo cultural, em Trinidad, Camaguey, Santiago de Cuba, Cienfuegos”, salienta Arturo Pedroso, lembrando outras regiões procuradas pelos estrangeiros nas férias. Comemorações do aniversário dos 500 anos de Havana atraiu turistas à capital cubana Daniella Franco/RFI O aumento dessa demanda nos últimos anos ajudou o setor a se preparar para que a atividade não prejudique o patrimônio ou a vida dos mais de 2 milhões de habitantes de Havana, fenômeno que vem sendo registrado em cidades europeias, como Londres, Paris, Lisboa, Barcelona. “Realmente a frequentação em massa do centro histórico pode se converter em um problema, embora não estejamos no mesmo patamar das capitais europeias. Por outro lado, estudamos e conhecemos as dinâmicas do nosso turismo e os desafios desse setor, por isso, estamos preparados para o crescimento dele. Na minha visão, até agora, essa atividade não representa nenhum perigo para a capital cubana”, assegura o historiador. Um exemplo disso é o acolhimento dos turistas pelos cubanos. A cordialidade e a boa convivência da população com os visitantes é um ponto a favor da atividade, como contou à RFI o italiano Nilo. “Faz cinco anos que venho visitar o local e, a cada vez, fico no mínimo três meses. Deveria ter ido embora há uma semana, mas mudei a data de volta para a Itália para participar dos eventos dos 500 anos. Retorno sempre porque me sinto muito bem aqui em Havana”, afirma. O turismo, uma das áreas estratégicas da economia cubana, é um ponto-chave nos trabalhos de restauração de Havana Daniella Franco/RFI A outra Havana Muito além do centro histórico, especialistas e governo também se preocupam com a urbanização e o patrimônio de outros bairros da cidade, mais residenciais e com diferentes necessidades, como Centro Habana, Vedado, cujo desenvolvimento data do século 19. “O impulso dado pelos 500 anos deve ser aproveitado para as próximas décadas”, acredita Maria Victoria Zardoya. Para ela, os esforços devem se concentrar agora “na outra Havana”, onde não existe um trabalho consolidado de restauração e conservação. “Ninguém tem dúvida da importância que tem Habana Vieja. O que as pessoas ainda não têm consciência é que outras áreas da capital também são valiosas.” A diretora do Centro de Estudos Urbanos de La Habana destaca que a capital cubana - com diferença de outras da América Latina, onde foram incentivados processos de demolição - foi aderir novos centros e conservar os precedentes à medida que se desenvolveu ao longo dos séculos. O resultado é uma gama de “alternativas arquitetônicas, por épocas”, segundo ela. “Havana é uma aula de arquitetura e urbanismo”, enfatiza. Por isso, para a especialista, além de dar prioridade à cidade que recém completou 500 anos, “é preciso se concentrar na capital dos 400, 300, 200, 100, 50 anos”. Nessas áreas, segundo ela, os trabalhos de conservação e restauração são dificultados especialmente “pelo não reconhecimento de seu valor”. Grande Teatro de La Havana, no bairro de Habana Vieja Daniella Franco/RFI

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