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'Não apoiaremos mais Evo': quem são os cocaleiros bolivianos que acusam o ex-presidente de perseguição política

19 Novembro 2019

Produtores da folha de coca na área conhecida como Yungas dizem ter sido perseguidos pelo governo de Evo. Agora, querem um presidente não somente indígena, mas de sua região.
Manifestação de produtores Yungas em La Paz, Bolívia, no dia 7 de novembro. Adepcoca A união de diferentes grupos de produtores da folha de coca, chamados de cocaleiros, formou a base eleitoral responsável por eleger Evo Morales presidente da Bolívia em 2006. Porém, ao longo dos quase 14 anos seguidos de governo, essa base foi perdendo força. Em 2017, por causa da promulgação da Lei de Coca, cocaleiros tradicionais da região subandina dos Yungas, no departamento de La Paz, que até então tinham o monopólio da produção legal de coca no país, se declararam oposição a Morales. No ano seguinte, passaram a pedir a renúncia do ex-líder indígena acusando-o de perseguição política. A tensão entre os cocaleiros dissidentes e Evo Morales se intensificou em agosto de 2018, quando o então dirigente da Associação Departamental de Produtores de Coca (Adepcoca), entidade representante da região dos Yungas, Franclin Gutiérrez, foi preso após ser acusado de envolvimento no assassinato de um policial durante uma operação contra a coca produzida em La Asunta, norte de La Paz, considerada excedente. 'Presos políticos' “Temos denunciado que Gutiérrez e outros oito membros da Adepcoca são presos políticos do governo Morales. Mas como denunciar um governo quando todas as instituições são controladas pelo próprio?”, disse um porta-voz da Adepcoca que não quis se identificar. “Eles estão presos de maneira preventiva há mais de um ano e nunca houve um julgamento”. No momento em que dava a entrevista, na quinta-feira (14), o porta-voz foi informado que Gutiérrez sairia da prisão. No dia 11 de outubro de 2018, durante uma audiência de cessação de prisão preventiva, Gutiérrez afirmou ter sido preso porque se candidataria às eleições presidenciais de 2019. Segundo o ex-dirigente, ele foi detido preventivamente no dia em que teria que apresentar seu projeto político ao Tribunal Eleitoral. “Sou um preso político e o país sabe disso, nossos irmãos sabem. Estou atrás das grades por querer formar um partido político”, disse Gutiérrez na época. O ex-dirigente esteve em prisão preventiva por um ano e três meses. Yungas, Bolívia G1 O racha “Como bolivianos e produtores de coca, apoiamos Evo Morales no início [2006] porque aquela era uma luta de todos [indígenas, camponeses e cocaleiros]”, explica o atual presidente da Adepcoca, José Luís Coaquira. A produção da folha de coca, da qual se faz um chá tradicional, é uma atividade ancestral entre os povos indígenas da região dos Andes. Porém, no século 20, quando se tornou matéria-prima para a produção da cocaína, a folha passou a ser perseguida na Bolívia. Em meio a tensões entre governo, sindicatos e narcotráfico, Evo Morales despontou nos anos 2000 como um líder dos cocaleiros da região de Chapare, zona de produção ilegal na época. Como candidato, Morales defendia a legalidade do consumo tradicional da coca na Bolívia em geral e o combate do desvio da folha para o narcotráfico. Por isso, em 2006, apesar de não concordarem com os cocaleiros de Chapare por acusarem-nos de “produzir coca como se estivessem produzindo café, sem os cuidados ancestrais”, segundo o porta-voz que não quis se identificar, os produtores dos Yungas decidiram apoiar Evo Morales. A produção da coca boliviana é historicamente dividida em duas zonas: a de Chapare, onde o vegetal começou a ser cultivado por camponeses pobres a partir da anos 50; e a região de La Paz, onde a folha é cultivada ancestralmente nos Yungas para usos religiosos e medicinais. Lei da Coca “Decidimos que um presidente indígena poderia nos representar, mas Morales traiu sua própria gente”, afirma Coaquira, se referindo à promulgação da Lei da Coca, em 2017. A Lei de Coca aumentou de 12 mil para 22 mil hectares a área de cultivo legal da folha de coca na Bolívia. O aumento se deu, contudo, na região do Chapare, reduto eleitoral de Morales e zona de produção ilegal até os anos 2000. Antes dessa lei, os cultivos legais eram permitidos quase que exclusivamente na região dos Yungas. “A Lei de Coca favoreceu uma região até então ilegal, o Chapare. Isso gerou uma divisão entre os produtores de coca e, desde então, começamos a dizer: ‘Como Yungas, não vamos mais apoiar Evo Morales’”, diz Coaquira, contando que os produtores dos Yungas pediram ao governo participação na formulação da Lei de Coca, mas não foram “considerados nem ouvidos”. Depois da aprovação da Lei de Coca, um monitoramento do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) mostrou que o volume de produção da coca em Chapare era de 2,8 toneladas por hectare, o dobro do produzido pelos cocaleiros dos Yungas, que era de 1,3 tonelada por hectare. Segundo o UNODC, em 2017 a Bolívia era o terceiro maior produtor de coca do mundo, com 24,5 mil hectares, atrás da Colômbia (171 mil hectares) e do Peru (43,9 mil hectares). Além da perda do monopólio da produção de coca, o dirigente afirma que os cocaleiros dos Yungas não tiveram durante o governo de Morales “acesso a boas escolas ou a serviços de saúde”. “Nós, os produtores de coca de La Paz, fomos muito marginalizados neste governo. Não existiram projetos nem atenção para o nosso povo”, afirma. O atual presidente da Associação Departamental dos Produtores de Coca, José Luis Coaquira, com o líder conservador Luis Fernando Camacho Adepcoca 'Vamos nos organizar nestas eleições' Coaquira acredita que as eleições de 2019 foram fraudadas por Evo Morales e que foi melhor para a Bolívia a renúncia do ex-presidente. Além disso, na semana passada, a Adepcoca declarou apoio ao político conservador Luis Fernando Camacho, quem o dirigente considera como o “único a pedir a recuperação da democracia” no país. Camacho não concorreu às eleições de 2019, mas se tornou figura central da oposição ao conseguir entrar no Palácio do Governo, em La Paz, e colocar uma Bíblia sobre a bandeira nacional e pedir a renúncia de Morales. Quando questionado se votaria em uma futura eleição presidencial em Camacho ou na atual presidenta interina da Bolívia Jeanine Áñez, Coaquira preferiu não opinar, dizendo querer “um presidente ou presidenta que não cause divisionismo nem ódio, mas um que lute pela liberdade e soberania de todos os bolivianos”, além de uma figura que “se preocupe com os povos Yungas”. O dirigente também foi questionado sobre dar continuidade aos planos de Franclin Gutiérrez de criar um partido político dos produtores dos Yungas. “Essa é uma boa pergunta”, responde. “Apoiamos e fomos o bastião para que a Bolívia tivesse um presidente indígena. No entanto, hoje vemos que fomos manipulados”, afirma Coaquira. “Como Yungas, temos o direito de ter um representante no Parlamento. Vamos nos organizar nestas eleições. É melhor ter um representante que seja um produtor da folha de coca de La Paz”, responde. Mapa mostra cidades da Bolívia e relação com as divisões políticas do país Wagner Magalhães/G1 Initial plugin text

Em breve novidade aqui!!!

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