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É hora de salvar as empresas da pandemia do coronavírus

25 Março 2020

A esta altura do jogo já não existem mais dúvidas de que a pandemia causará à economia mundial um dano que fará parecer pequena a ameaça do coronavírus à saúde da

população.

Com a redução da produção ao mínimo e o com o fechamento de quase todo o comércio, muitas empresas passarão a respirar por aparelhos e, no final desse processo, só as mais fortes manterão os sinais vitais.

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Comércio do Rio de Janeiro fechado por causa do coronavírus


A quebradeira empurrará o mundo para a recessão e, se nada for feito para evitar o pior, empregos desaparecerão e a conta acabará caindo sobre as costas dos mais necessitados.

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Por mais dantesco que seja esse cenário, é mais ou menos isso que está sendo dito pelos analistas que, nos últimos dias, parecem ter despertado para o tamanho da encrenca trazida pela pandemia.

O problema é grave e, de fato, afetará o mundo inteiro. Para tentar reduzir seu impacto negativo sobre as empresas e os empregos, as autoridades dos países mais bem estruturados já começaram a se mexer para impedir que suas companhias morram por absoluta falta de ar.

O movimento mais vigoroso veio do país mais rico do mundo, os Estados Unidos. Quem a tomou foi o Federal Reserve, o banco central americano que, ao contrário do brasileiro, goza de autonomia total em relação às autoridades econômicas do governo.

Lá, o presidente da autoridade monetária é escolhido pelo presidente da República não entre os aliados políticos, mas entre os governadores da instituição. Ele não pode ser destituído durante o mandato, que é de quatro anos e não coincide com o do chefe do Executivo. Mas pode ser reconduzido ao posto diversas vezes.

Guardião da moeda

O caso mais recente de um presidente longevo à frente do Fed foi o de Alan Greenspan, nomeado por Ronald Reagan em agosto de 1997. Ficou no posto até sair por vontade própria em janeiro de 2006. Ao longo da história, houve presidências mais longas do que a dele.

Alan Greenspan
AP
Economista americano e presidente do Fed, Alan Greenspan


A estabilidade e a força do Fed ajudam a explicar a estabilidade e a força financeira dos Estados Unidos. Em 106 anos de história (foi criado em dezembro de 1913), teve apenas 16 presidentes.

O Banco Central do Brasil, criado em 1965, é 52 anos mais novo. Roberto Campos Neto é, entre efetivos e interinos, o 23º presidente do BC — sendo que quatro de seus antecessores comandaram a instituição por duas vezes: Ernane Galvêas, Francisco Gros, Gustavo Loyola e Gustavo Franco.

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Pelos critérios rígidos que adota na condução da política monetária americana, o Fed pode ser acusado de muitas coisas — mas não de ter atentado contra os fundamentos do mercado nem de jogar contra o sistema capitalista, do qual é guardião em seu ponto mais sensível: a moeda que circula no maior país do mundo e é a principal referência para as transações internacionais.

Pois bem. Essa instituição anunciou, na segunda-feira passada, que encherá o mercado de dinheiro para impedir que as empresas do país sofram danos irreversíveis durante a retração dos negócios causada pelo coronavírus.

São várias medidas, todas de alto impacto. Qualquer pessoa ou empresa poderá trocar por dinheiro os títulos da dívida americana que adquiriu, independente da data de vencimento.

Haverá uma linha especial para resgate imediato de títulos do tesouro (no valor de US$ 375 bilhões) e de títulos hipotecários (no valor de US$ 250 bilhões).

A autoridade monetária financiará, por meio da rede de bancos americanos, um programa de crédito ao consumidor e um programa de empréstimos às empresas. Para eles, salvar a fonte primária dos empregos — as empresas — é fundamental para manter a saúde econômica do país. E o Brasil?

Ponto de vista anacrônico

Bem, além da evidente diferença entre o poderio e a organização financeira dos dois países, existe por aqui uma mentalidade obtusa que, sem parar para pensar, encara como favorecimento qualquer promessa de ajuda do governo às empresas.

Basta alguém propor que o governo brasileiro abra os cofres para ajudar as companhias a superar os momentos de dificuldade para imediatamente se ouvir, do outro lado, gente que insiste em dizer que elas não merecem socorro.

Qualquer ajuda deve ser prestada diretamente ao trabalhador, que, nessa visão, é uma vítima de empresários cruéis, interessados apenas no lucro e insensíveis aos dramas de seus empregados.

Por esse ponto de vista anacrônico, que sobrevive no Brasil como se ainda vivêssemos no início do século passado, basta a pessoa ter seu nome ligado a um CNPJ — o número que identifica as empresas junto à Receita Federal — para se tornar inimiga dos avanços sociais e dos direitos de quem trabalha.

Boia de salvação

Com o devido perdão pelos exageros, tem sido mais ou menos esse o tom da discussão que vem sendo travada desde que o presidente Jair Bolsonaro decidiu baixar uma medida provisória para auxiliar as empresas neste momento de dificuldade.

O ponto mais polêmico da medida dava às empresas o direito de suspender os contratos de seus empregados por quatro meses e voltar a honrá-la depois que o pior tiver passado.

Era possível fazer algo diferente? Claro que sim. Teria sido conveniente incluir na medida provisória alguma proteção efetiva para os trabalhadores (como, por exemplo, a liberação imediata de um volume expressivo do FGTS para os que forem incluídos na medida)? É evidente que sim.

Teria sido bom ter adotado, neste momento de crise, as medidas protetivas que dessem aos trabalhadores formais e informais um mínimo de amparo neste momento difícil? É óbvio que sim.

A medida foi, sem dúvida, mal pensada (ou mal redigida, como prefere dizer o ministro da Economia Paulo Guedes) e o próprio governo tratou de revogar o dispositivo que previa essa providência.

Os críticos porém não se calaram, mas também não explicaram o que deve ser feito para que as empresas mantenham os empregos que geram mesmo com o faturamento praticamente zerado pelas medidas de contenção do coronavírus.

Continuaram falando da decisão revogada como se ela ainda permanecesse válida sem, no entanto, detalhar as medidas protetivas possíveis num país que está com a economia em frangalhos.

O momento é grave e o governo precisa agir para evitar que as empresas brasileiras parem de respirar. Não é hora, com certeza, de se apegar aos princípios monetaristas mais rígidos nem de acreditar, como acreditam os liberais mais ortodoxos, que o mercado encontrará, sozinho, a salvação para uma crise do tamanho dessa que está chegando.

Pode até ser que encontre, mas a longo prazo. E a longo prazo, como disse o economista John Maynard Keynes, todos estaremos mortos. É hora da autoridade monetária brasileira fazer como o Federal Reserve e criar programas que funcionem como boias de salvação para as empresas. E entender que salvar empregos é a melhor forma de ajudar os trabalhadores — e para salvar os empregos, é preciso salvar as empresas.



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