-->

O Preço da Verdade

18 Fevereiro 2020

Ao ver "O Preço da Verdade" temos duas surpresas. A primeira é que um filme que envolve direito e advocacia demore tanto para engrenar. A segunda é perceber que a assinatura de

Todd Haynes não transforma o filme numa obra autoral. O que é ainda mais incrível, porque bem ou mal Haynes sempre foi um autor, mesmo no pior de seus filmes. Aqui, rende-se a um academicismo que já podia ser antevisto em alguns momentos de "Carol".

Mark Ruffalo é Rob Bilott, advogado em ascensão, que acaba de receber a oportunidade de ser sócio de uma grande empresa de advocacia, mas recebe também a missão, um tanto inetivável por se tratar de algo que envolve sua avó e suas origens em West Virginia, de investigar possíveis males que afetam fazendeiros da região, o que faz com que ele confronte gente poderosa, do tipo que vende tudo por dinheiro e mata, suave e lentamente, se assim for necessário para aumentar os lucros.

Em questão está a DuPont, poderosa empresa química que desenvolveu a panela de teflon, mesmo sabendo que há no material um produto cancerígeno criado em laboratório, o C8. Durante os anos 1990, chegando aos anos 2000, a Dupont passou por cima de todos os riscos e continuou envenenando pessoas e animais, que desenvolveram câncer ao longo dos anos.

Os queixantes passam a sofrer perseguição, tanto da DuPont quanto dos ignorantes úteis de sempre, que acreditam nas grandes corporações contra os reis do mimimi que procuram o que é certo. E tudo isso é flagrado por uma câmera comportada, numa narrativa que corre o tempo todo segundo a cartilha do gosto médio.

Claro que na segunda metade, até pelos confrontos e mediações, a coisa esquenta um pouco. Mas nunca deixa de existir dentro de um confortável banho-maria, com alguns toques de suspense, trilha genérica colocada em momentos estratégicos e notas modestas de um melodrama calculado para não ferir sensibilidades.

Haynes até tem filmes piores, mas nunca tinha sido medíocre e omisso como em "O Preço da Verdade". Os filmes eram ruins porque Haynes corria o risco de se afundar, e por vezes se afundava ("Veneno", "Velvet Godmine"). Até mesmo atores como Bill Pullman, Anne Hathaway e Tim Robbins, para não dizer o próprio Ruffalo, são desperdiçados dentro desse esquema do grande tema que sobrepuja toda a direção. No fundo, é um filme anti-Todd Haynes.

Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema


Em breve novidade aqui!!!

We use cookies to improve our website. Cookies used for the essential operation of this site have already been set. For more information visit our Cookie policy. I accept cookies from this site. Agree