Segunda, 14 Setembro 2020 06:00

Saiba os benefícios que a paz no Oriente Médio traria para o mundo

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Diversidade étnica e religiosa caracteriza a região Maurizio Brambatti/EFE/20-09-19

A disputa pela hegemonia do Oriente Médio se tornou ao longo dos anos o principal pilar da política internacional. A região, afinal, é um núcleo cultural, histórico, religioso e, a partir dos anos 60 do século passado, econômico, em função da descoberta de jazidas de petróleo.

A região possui cerca de 65% do petróleo comercializado no mundo. Segundo a AIE (Agência Internacional de Energia), em 2019, foram consumidos 100,1 milhões barris por dia.

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A localização do Oriente Médio o fez ser cobiçado por impérios, como o babilônico, o romano, o bizantino, o otomano. E a partir do século passado, tornou-se uma espécie de núcleo de todos os conflitos atuais. Vários episódios desencadearam guerras, muitas delas causadas pela divisão da região por potências europeias, após a Primeira Guerra Mundial.

Mas, ultimamente, questões comerciais, estratégicas, também movidas por uma distensão semelhante à do fim da Guerra Fria, têm aproximado vários países árabes de Israel. E o interesse de potências, como os Estados Unidos e a Rússia, podem acomodar o ímpeto de governantes locais, como da Turquia, em buscar de uma política de divisão, tão presente em função da diversidade étnica da região.

Assim como a maior parte dos especialistas em relações internacionais, o professor Danilo Porfírio de Castro Vieira, de Relações Internacionais e Direito do Uniceub (Centro Universitário de Brasília), e autor do livro "Ação política norte-americana e o jihadismo no Oriente Médio", acredita que a paz no Oriente Médio é a chave para a resolução da maioria dos conflitos no mundo.

"A paz no Oriente Médio é de suma importância, tomando dimensões imensas dentro da comunidade internacional. Primeiro, pela perspectiva logística, nosso sistema econômico produtivo ainda depende do petróleo. A paz vai acarretar em um processo de maior estabilidade na oferta do produto a ponto de não termos oscilações abruptas e imprevisíveis em função de conflitos na região. Os maiores produtores de petróleo, tirando os EUA e a Rússia, estão no Oriente Médio. Na perspectiva econômica, por si só, a paz é de imensa importância", afirma.

Espelho do mundo

O Oriente Médio se tornou um espelho, a refletir em seu território o conflito de interesse entre as nações, as diferenças ideológicas e os próprios problemas internos de cada uma destas sociedades. Um ato terrorista de um islâmico radical, por exemplo, gera preconceito contra os muçulmanos dentro de países europeus.

Neste sentido, a intolerância, tanto em relação a judeus quanto a árabes, também permaneceu um problema, alimentado pelos conflitos nesta parte do mundo. Eles se tornaram mais intensos a partir do fim da Segunda Guerra Mundial.

Vieram então a criação do Estado de Israel (1948), a Guerra de Independência de Israel (1948), a Guerra de Suez (1956), a Guerra dos Seis Dias (1967), a Guerra do Yom Kipur (1973), todas movidas pela não-aceitação, inclusive da Liga Árabe (organização internacional compreendendo 22 Estados), do Estado de Israel.

Mas, além dos conflitos entre árabes e judeus, outras disputas também predominaram. São disputas regionais, entre Irã e Arábia Saudita (atual), por petróleo, como na Guerra Síria, a partir de 2001 (que atraiu o apoio russo) e entre Irã e Iraque (1980-1988) e a própria invasão do Kuwait (1990), que desencadeou a intervenção americana e o surgimento da insurgência radical de grupos como a Al-Qaeda e, depois, o Daesh.

Há ainda as diisputas entre sunitas e xiitas, que têm descambado para a violência, como na Guerra do Iêmen (2014), que se tornou palco das rivalidades entre sauditas e iranianos. A região, também, concentra um grande número de etnias, como árabes, persas, turcos, curdos, e religiões, como os cristãos, os judeus e os muçulmanos.

Todo esse caldeirão, em grande parte movido a ódio e preconceito, tenderá a arrefecer se a paz prevalecer, aponta Castro Vieira.

"Na perspectiva das culturas e das comunidades, uma estabilidade na região retira de pauta qualquer forma de discurso, tensionamento e hostilidade entre tradições religiosas. Cristãos, judeus, muçulmanos entram em busca pela convivência e pela harmonização. É preciso entender que os cristãos são maioria no Ocidente, que o judaísmo tem uma presença importante, que o islã também tem. Isso é uma forma de propiciar boa convivência, harmonização e efetiva tolerância. São aspectos de extrema importância e se enraizam em outros", observa.

Participação americana

Para isso acontecer, os grupos radicais naturalmente teriam perdido poder. Aliás, Al-Qaeda e Daesh, após um período de ameaça, se esfacelaram nos últimos dois anos. O que, segundo o professor, abre o caminho para uma maior conscientização.

"Outro benefício da paz seria a contenção de movimentos de insurgência política que incorrem na retórica de terror, de forma globalizada, em rede. Se eu estabeleço um sistema de harmonia e paz no Oriente Médio, não existe mais justificativa de apoio de movimentos como Al-Qaeda no passado, Daesh até pouco tempo atrás, Jihad Islâmica, entre outros. Da perspectiva de segurança, para o mundo ocidental, a paz é necessária, importantíssima".

Castro Vieira destaca que não deixa de ser algo surpreendente o fato de os Estados Unidos terem conseguido, neste momento de polarização, mediar acordos históricos. Mesmo com uma nova doutrina nuclear, o governo Trump tem conseguido formalizar a conciliação de países que eram inimigos.

"Essa acomodação de Israel com os Emirados Árabes e a aceitação velada da Arábia Saudita e dos países do Golfo, isso é um processo, um trunfo interessante que os americanos estão afiançando, de estabilização da região, que, por sinal, nenhum outro foi capaz de fazer, não é? Isso é muito interessante..."

Respeito às identidades

Para o professor Yann Duzert, da Rennes School of Business e CEO da Newgotiation, essa ideia de paz ainda precisa se firmar. Mas, se efetivada, traria claros benefícios.

"Na hipótese de haver paz, os países poderiam pensar em uma economia de longo prazo, com construção, reconstrução e planejamento. O investimento estrangeiro chegaria de forma mais natural, com créditos para políticas públicas, educação, com a possibilidade de um permanente crescimento social e econômico".

Ele acrescenta, porém, que ainda há um longo caminho, se levarmos em conta que, apesar deste passo inicial, o que tem sido o mote das negociações são as questões comerciais. É preciso, segundo Duzert, se ater também à gestão de identidades nestas conversas. Ou seja, se levar em conta o que as populações locais almejam, para que, no futuro, as sociedades não voltem a ficar esfaceladas.

"Se não valorizarmos a democracia nestes países e a laicidade, separando a religião do Estado, após uma breve melhora com os acordos, fatalmente o sectarismo e a corrupção irão retornar. Muitos destes países, como a Arábia Saudita, são ditaduras religiosas. Trata-se de uma gestão de percepção e de identidade, de se conhecer quem são os turcos, o que querem, quem são os curdos, e assim por diante. Esse é o caminho mais consistente", ressalta o professor, autor do livro "Newgotiation", que defende uma forma de negociação aberta, transparente, colaborativa, sem que se prevaleçam chantagens, ameaças e apenas os interesses comerciais.

Algo, no entanto, já mudou. Antes com uma retórica feroz e hostil, a Arábia Saudita já faz negócios com Israel, além de ter aberto seu espaço aéreo, pela primeira vez na história, para voos israelense com destino aos Emirados Árabes, país com o qual Israel, em agosto último, entrou em acordo, que será assinado nesta terça-feira (15), em Washington. Israel também entrou em acordo com o Bahrein e com Kosovo, majoritariamente muçulmano. A expectativa dos negociadores é a de que um bloco consistente de países árabes também pode facilitar a resolução da questão palestina.

Neste momento, um novo panorama está se desenhando e que, mesmo ainda incipiente, pode ser um caminho para uma paz no futuro. A tão sonhada paz no Oriente Médio ainda não se efetivou, mas os últimos acontecimentos são inéditos, inclusive com a Liga Árabe, não se opondo, até agora, ao acordo com os Emirados. Quem sabe, para sempre.

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